A poetisa portuguesa nos
apresenta um contraste entre a vida na urbe – caracterizada como limitante e opressiva,
com seus ruídos contínuos e azáfamas – e a vastidão irresistível da natureza –
a manifestar liberdade em seu estado pleno –, para com isso nos fazer ver o
quanto estamos presos à rigidez e à artificialidade dos sítios da grande cidade,
que nos submetem a um involuntário cativeiro emocional e existencial.
Andresen expande os
sentidos do leitor por meio de imagens alusivas ao “mar e suas praias nuas”, às
“montanhas sem nome e planícies mais vastas que o mais vasto desejo”, enfatizando
os traços de um mundo cheio de possibilidades, belezas e expectativas – muito
distintamente, claro está, do que nos propõe a dinâmica implacável e ardilosa dos
distritos citadinos.
J.A.R. – H.C.
Sophia de M. B.
Andresen
(1919-2004)
Cidade
Cidade, rumor e
vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil,
inutilmente gasta,
Saber que existe o
mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e
planícies mais vastas
Que o mais vasto
desejo,
E eu estou em ti
fechada e apenas vejo
Os muros e as
paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar,
nem o mudar das luas.
Saber que tomas em ti
a minha vida
E que arrastas pela
sombra das paredes
A minha alma que fora
prometida
Às ondas brancas e às
florestas verdes.
Em: “Poesia” (1944)
Café Pastel de Belém
(Elena Petrova
Gancheva: artista búlgara)
Referência:
ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. Cidade. In: __________. Obra poética. Prefácio de Maria
Andresen Sousa Tavares. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china Brasil, 2018.
p. 78. (Coleção “Grandes Escritores Portugueses”)
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