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Alpes Literários
Subtítulo
terça-feira, 20 de outubro de 2026
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Uma prévia do que ocorrerá com o país caso Flávio B. seja eleito para a presidência (III)
Tudo o que você precisa saber acerca do potencial que
o seu voto tem para favorecer ou evitar as medidas que vão impactar a sua vida
e a de todos
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domingo, 18 de outubro de 2026
Um aviso muito importante & Um chamamento à racionalidade e ao equilíbrio por Fátima Bernardes
O TSE alterou, às vésperas do segundo turno, a localização de mais
de quatro mil seções eleitorais em todo o Brasil.
Para você não ser surpreendido(a) no dia 25/10, consulte o site do
TSE para saber se houve ou não alteração na localização de sua seção.
Acesse o link abaixo, vá até a aba de “Consultas”, selecione a opção
“Onde votar”, preencha os três dados solicitados na tela e tecle “Enter” para verificar
o local de sua votação no dia 25/10:
https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/autoatendimento-eleitoral#/?id=1792343982434
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sábado, 17 de outubro de 2026
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
sexta-feira, 10 de novembro de 2023
José Saramago - A Questão Palestina
Criticando a
tendência de se ver o “outro” como inimigo, Saramago começa por rejeitar a
ideia de que apenas certos grupos humanos têm o direito de afirmar sua
identidade. O autor português não hesita em rotular as ações do governo
sionista de Israel como crime contra a humanidade, destacando a necessidade de
se levar os responsáveis a um Tribunal Penal Internacional, considerando a
situação grave de um genocídio continuado há décadas, perpetrado contra o povo
palestino.
Mesmo hoje se percebe
o interesse econômico por trás dessa intervenção de Israel em Gaza, dividindo a
faixa em duas e escorraçando a população para a região sul, com o firme
propósito de se apropriar – como já fizera em extensos territórios da
Cisjordânia e de outras regiões atribuídas ao Estado Palestino, jamais
constituído – quer da região norte quer do litoral adiante, onde se situam enormes
reservas de gás a serem exploradas em favor das potências ocidentais, EUA e
Europa à frente.
Tudo muito
hipocritamente disfarçado sobre uma suposta guerra contra o Hamas, na verdade
um simples álibi para as ações infames de Israel contra o povo palestino, em especial
mulheres e crianças que nada têm a ver com o conflito.
O jogo velado das
ações dos EUA e de Israel não logra acobertar o claro interesse de manter
dominância nas regiões do Oriente Médio, contando com o apoio crucial do
expansivo complexo industrial-militar norte-americano, tudo para fazer frente
aos propósitos da China em estender a denominada “Rota da Seda” até a região oeste
da Ásia, envolvendo o Irã e outros países de língua árabe.
Em poucas décadas,
uma guerra de muito maiores proporções haverá de acontecer: quem viver, verá! E
assim caminha a humanidade!
P.s.: Cada
pronunciamento de Saramago é seguido pelo número da página onde consta na obra
referenciada ao final da postagem; as ênfases em negrito são de minha autoria.
J.A.R. – H.C.
José Saramago
(1922-2010)
A Questão Palestina:
palavras contundentes!
Os homens e as
mulheres ontem, os judeus e os palestinos hoje: fico pasmo com a incapacidade
de os seres humanos viverem juntos no respeito mútuo. Como se o outro devesse necessariamente
ser um inimigo. O outro é simplesmente o outro. O outro é como eu. Ele tem o direito
de dizer “eu”. Nós, homens brancos, civilizados e ricos, não aceitamos que o
outro diga eu. (p. 157-158)
“José Saramago: ‘Il
faudrait réformer la démocratie’”, L’Orient le Jour, Beirute, 2 de agosto de
2007 [Entrevista a Lucie Geffroy].
Ω
É preciso fazer um
alerta no mundo inteiro para dizer que o que acontece hoje na Palestina é um
crime que podemos conter. Podemos compará-lo ao que ocorreu em Auschwitz. É
a mesma coisa, embora tenhamos sempre em mente as diferenças de tempo e lugar.
(p. 431)
“Lo que ocurre en
Palestina puede compararse con Auschwitz: Saramago”, La Jornada, Cidade do México,
26 de março de 2002 [Texto da AFP].
Ω
O que está
acontecendo em Israel contra os palestinos é um crime contra a humanidade. Os
palestinos são vítimas de crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de
Israel com o aplauso de seu povo. (p. 432)
“Saramago: ‘Palestina
es como Auschwitz’”, BBC Mundo, Londres, 30 de março de 2002 [Entrevista a José
Vericat].
Ω
Se a denominada
comunicação social estivesse interessada em divulgar com verdade o que eu disse
na Palestina [no dia 25 de março de 2002], teria de informar que não comparei
os fatos de Ramallah aos fatos de Auschwitz, mas sim o espírito de Auschwitz ao
espírito de Ramallah… Já era então patente a qualquer pessoa a quem a prudência
não fizesse fechar os olhos. Não sendo a prudência uma das minhas virtudes, limitei-me
a antecipar o que o exército israelita (esse que um grande intelectual judeu, o
professor Leibowitz, no princípio dos anos 90, classificou como judeu-nazi) não
fez depois mais que confirmar. (p. 432)
“Escrevi o romance
para resolver o choque entre uma admiração e uma rejeição sem limites”,
Público, Lisboa, 27 de maio de 2002 [Entrevista a Adelino Gomes].
Ω
Espero o dia em que
serão levados diante de um Tribunal Internacional os políticos e os militares
de Israel responsáveis pelo genocídio do qual o povo palestino tem sido vítima
nos últimos sessenta anos. Pois, como escrevi há alguns meses, “enquanto houver
um palestino vivo, continuará o holocausto”. (p. 436)
“Rettifica: Saramago
Israele e la Palestina”, La Repubblica, Roma, 3 de julho de 2007 [Entrevista a
Leonetta Bentivoglio].
Ω
Os governos
ocidentais reservam a classificação de terrorista para os atos de violência indiscriminada
realizados por ativistas que não agem enquadrados por uma organização estatal e
se negam a reconhecer a existência do terrorismo de Estado. Aproveitam-se do
fato de que o terrorismo puro não pretende se esconder – ao contrário, se
esforça ao máximo para que a sociedade saiba de sua existência –, enquanto o
terrorismo de Estado faz todo o possível para se tornar “invisível”, porque é
tanto mais eficaz quanto mais despercebido passa. (p. 467)
“José Saramago:
‘Israel es rentista del Holocausto’”, em Javier Ortiz (org.), ¡Palestina
existe!, Madri, Foca, 2002 [Entrevista a Javier Ortiz].
A Hipocrisia
Ocidental: Israel e EUA à frente!
A guerra dos Estados
Unidos contra o Iraque não se justifica porque não foi provada nenhuma das
acusações que se fazia ao país. E não vale dizer que os Estados Unidos interferiram
no Iraque para acabar com um tirano, porque eles não interferiram em
muitíssimos países onde foram responsáveis por colocar no poder os respectivos
tiranos. Então vamos acabar com essa hipocrisia. Sabemos muito bem que os
Estados Unidos precisavam controlar o petróleo do Iraque. E não é só isso. É o
controle de todo o Oriente Médio. Controlar a região significa abrir as portas
para a Ásia, onde está um país chamado China, com o qual mais cedo ou mais
tarde os Estados Unidos vão ter que se confrontar. De resto, essa formação do
império americano começou a ser desenhada nos anos 20, depois da Primeira
Guerra Mundial. (p. 433)
“A democracia
esvaziada”, O Globo, Rio de Janeiro, 10 de maio de 2003 [Entrevista a Manya
Millen].
Ω
A fisionomia fascista
dos Estados Unidos hoje é bastante completa. O que antes era um objeto mais ou
menos disfarçado está hoje aí, exposto com clareza e plenamente. (p. 435)
“José Saramago: Cuba
irradia solidaridad”, Juventud Rebelde, Havana, 19 de junho de 2005 [Entrevista
a Rosa Miriam Elizalde].
Ω
Os Estados Unidos são
realmente odiados por uma parte do mundo e objeto de desconfiança e receio de
outra. Ganharam tudo à força com suas torpezas e arbitrariedades, com sua
soberba e sua insolência, com suas mentiras e seus abusos, com o seu quero tudo
e mando em tudo. E agora se queixam. É preciso ser muito hipócrita. (p.
437)
“Conversaciones con
José Saramago”, Contrapunto de América Latina, Buenos Aires, n. 9,
julho-setembro de 2007 [Entrevista a Pilar del Río].
Ω
A ameaça à segurança
mundial está neste momento centrada nos Estados Unidos. A mais perigosa
ameaça à segurança mundial está nesse país. (p. 468)
“Existe un muro de
silencio sobre lo que pasa en Chiapas, sostiene Saramago”, La Jornada, Cidade
do México, 15 de maio de 2003 [Correspondência de César Güemes].
Referência:
SARAMAGO, José. As
palavras de Saramago. Organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera. São
Paulo, SP: Companhia das Letras, 2010.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2023
Anne Applebaum - A Democracia em seu Crepúsculo
Escritora e jornalista norte-americana, premiada com o Prêmio Pulitzer, Applebaum examina em sua obra “Twilight of Democracy” (“O Crepúsculo da Democracia”), de 2020, os desafios que a Democracia enfrenta na era digital, incluindo a disseminação de narrativas falsas, a polarização política e o papel dos algoritmos de mídia social na radicalização dos usuários, destacando a importância de se promover um debate saudável e uma narrativa compartilhada para se combater a desinformação e fortalecer o regime democrático.
O precitado tomo já
se encontra disponível em português, publicado pela Record, no Brasil, e pela Bertrand,
em Portugal: caso o internauta se interesse mais diretamente pelo teor do
livro, sugiro a prévia leitura deste
resumo-resenha elaborado pelo economista Fernando Nogueira da Costa, para
que tenha conhecimento um pouco mais minudenciado de sua proposta.
Os excertos abaixo
transcritos foram por mim selecionados e traduzidos diretamente do original em
inglês, tudo para mostrar o quanto eles deslindam as práticas recentemente promovidas
pelo governo de extrema-direita do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente no
que tange às agressões sistemáticas às instituições democráticas, em especial, ao
Supremo Tribunal Federal – o qual, em última instância, acabará por selar o que
será do seu futuro político.
J.A.R. – H.C.
Anne Applebaum
(n. 1964)
Democracy in its
Twilight
In many advanced
democracies there is now no common debate, let alone a common narrative. People
have always had different opinions. Now they have different facts. At the same
time, in an information sphere without authorities – political, cultural, moral
– and no trusted sources, there is no easy way to distinguish between
conspiracy theories and true stories. False, partisan, and often deliberately
misleading narratives now spread in digital wildfires, cascades of falsehood
that move too fast for fact checkers to keep up. And even if they could, it no
longer matters: a part of the public will never read or see fact-checking
websites, and if they do they won’t believe them. [...]
The issue is not
merely one of false stories, incorrect facts, or even election campaigns and
spin doctors: the social media algorithms themselves encourage false
perceptions of the world. People click on the news they want to hear; Facebook,
YouTube, and Google then show them more of whatever it is that they already
favor, whether it is a certain brand of soap or a particular form of politics.
The algorithms radicalize those who use them too. If you click on perfectly
legitimate anti-immigration YouTube sites, for example, these can lead you
quickly, in just a few more clicks, to white nationalist sites and then to
violent xenophobic sites. Because they have been designed to keep you online,
the algorithms also favor emotions, especially anger and fear. And because the
sites are addictive, they affect people in ways they don’t expect. Anger
becomes a habit. Divisiveness becomes normal. [...] Polarization has moved from
the online world into reality.
The result is a
hyper-partisanship that adds to the distrust of “normal” politics,
“establishment” politicians, derided “experts”, and “mainstream” institutions –
including courts, police, civil servants – and no wonder. As polarization
increases, the employees of the state are invariably portrayed as having been
“captured” by their opponents. [...] It is not an accident that judges and
courts are now the object of criticism, scrutiny, and anger in so many other
places too. There can be no neutrality in a polarized world because there can
be no nonpartisan or apolitical institutions.
Morrendo pela
Democracia
(Rosanne Gartner: artista
inglesa)
A Democracia em seu
Crepúsculo
Em muitas democracias
avançadas já não existe um debate comum, muito menos uma narrativa comum. As
pessoas sempre tiveram opiniões diferentes. Agora têm fatos diferentes. Ao
mesmo tempo, em uma esfera de informação sem autoridades – políticas,
culturais, morais – e sem fontes confiáveis, não existe uma maneira fácil de
distinguir entre teorias de conspiração e histórias verdadeiras. Narrativas
falsas, partidárias e, amiúde, deliberadamente enganosas difundem-se agora como
incêndios digitais, como cascatas de falsidades que se propagam rápido demais
para que os verificadores de fatos as possam averiguar. E, mesmo que pudessem,
isso já não importa: parte do público jamais lerá ou verá websites de checagem
de fatos e, se o fizer, não lhes dará crédito. [...]
Não se trata somente
de histórias falsas, fatos incorretos ou mesmo campanhas eleitorais e
marquetagem política desonestas: os próprios algoritmos das mídias sociais
fomentam falsas percepções do mundo. As pessoas clicam apenas nas notícias que
lhes interessam escutar; e então o Facebook, o YouTube e o Google mostram-lhes
ainda mais do que sejam suas prévias preferências, quer se trate de uma certa
marca de sabonete ou uma forma particular de política. Os algoritmos também
radicalizam os usuários. Se alguém clica, por exemplo, em canais anti-imigração
perfeitamente legítimos no YouTube, este podem levá-lo rapidamente, com apenas
mais alguns cliques, a canais que estimulam o supremacismo branco e, logo após,
a canais que incitam à mais violenta xenofobia. Como foram projetados para
manter o usuário on-line, os algoritmos também favorecem as emoções,
especialmente a raiva e o medo. E, como os sites são viciantes, eles afetam as
pessoas de maneiras inesperadas. A raiva se torna um hábito. A divisão se torna
normal. [...] A polarização passou do mundo on-line para a realidade.
O resultado é um
hiperpartidarismo que aumenta a desconfiança em relação à política “normal”,
aos políticos do “establishment”, aos ridicularizados “experts” e às
instituições do “mainstream” – incluindo os tribunais, a polícia e o
funcionalismo público –, o que não é de surpreender. À medida que aumenta a
polarização, os funcionários do Estado são invariavelmente retratados como
tendo sido “capturados” por seus oponentes. [...] Não por acaso, juízes e
tribunais agora se tornaram objeto de crítica, escrutínio e raiva em muitos
outros lugares. Num mundo polarizado não pode haver neutralidade, porque
tampouco pode haver instituições apolíticas ou apartidárias.
Referência:
APPLEBAUM, Anne. Twilight
of democracy: the seductive lure of authoritarianism. New York: Anchor
Books, 2020. p. 113-114.
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quinta-feira, 26 de outubro de 2023
Erich Fromm & Noam Chomsky & Roger Waters - O que é ter um pensamento humanista e um compromisso com a vida!
Trago aqui, para
reflexão dos estimados internautas que frequentam estas páginas, três mensagens
que calam fundo sobre os recentes acontecimentos bélicos desenrolando-se na
Palestina e na Ucrânia, e, mais extensivamente, sobre a expansão agressiva da
extrema direita em todo o mundo: a primeira, de autoria do pensador humanista
Erich Fromm, alemão de origem judaica; a sequente, de Noam Chomsky, linguista e
pensador norte-americano, também de origem judaica; e uma última, na verdade
uma entrevista, recentemente concedida pelo músico Roger Waters, ex-líder da banda
“Pink Floyd”, ao jornalista brasileiro Leandro Demori.
Na entrevista de
Waters, todo o seu compromisso em tornar mais contrastante e límpida a paisagem
política contemporânea, quer no país quer no mundo: em suas palavras, fica nítida
a ideia de que o que se considera “extrema direita”, aqui como alhures, nada tem
a ver com o espectro político “conservador”, pois que absolutamente desvestido
de ideias que façam lógica, mas apenas em conexão com a sandice necrológica, a
tornar o “homem o lobo do homem” (e o que é pior, digo eu, misturando pseudodiscursos
religiosos para suscitar cizânias por toda parte), em vez de uni-los na construção
de um mundo de paz e de igualdade!
J.A.R. – H.C.
Erich Fromm
(1900-1980)
Ponderações contidas no
ensaio
“O caráter revolucionário”
O caráter
revolucionário identifica-se com a humanidade e, portanto, transcende os
estreitos limites de sua própria sociedade e pode, por isso, criticar a sua
sociedade, ou qualquer outra, do ponto de vista da razão e humanidade. Não está
preso ao culto paroquial da cultura em que tenha nascido, e que representa
apenas um acidente de tempo e geografia. Pode examinar seu meio com os olhos
abertos de um homem acordado que baseia seu critério para julgar as coisas
acidentais naquilo que não é acidental (a razão), nas normas que existem na
raça humana e para ela.
O caráter
revolucionário identifica-se com a humanidade. Encerra ainda uma profunda
“reverência pela vida”, para usarmos a expressão de Albert Schweitzer, uma
profunda afinidade com a vida e um profundo amor por ela. É certo, na medida em
que nos assemelhamos aos outros animais, que nos apegamos à vida e lutamos
contra a morte. Mas o apego à vida é algo totalmente diferente do amor à vida.
Isso será ainda mais evidente se considerarmos o fato de que há um tipo de
personalidade atraída pela morte, destruição e decadência, e não pela vida.
(Hitler é um bom exemplo histórico disso.) Esse tipo de caráter pode ser
chamado de necrófilo, para usarmos uma expressão de Unamuno, em sua famosa
resposta, em 1936, a um general Franco, cuja frase preferida era “Viva a morte”.
FROMM, Erich. O
dogma de Cristo e outros ensaios sobre religião, psicologia e cultura.
Tradução de Waltensir Dutra. 2. ed. Rio de Janeiro, GB: Zahar Editores, 1965.
p. 124-125.
Ω
Noam Chomsky
(n. 1928)
O uso ludibriante da Religião
na Política
Desde Jimmy Carter,
os fundamentalistas religiosos desempenham um papel importante nas eleições.
Ele foi o primeiro presidente que fez questão de se apresentar como um cristão
renascido. Isso acendeu um pouco de luz nas mentes dos gestores de campanhas
políticas: finja ser um fanático religioso e poderá obter um terço dos votos de
imediato. Ninguém perguntou se Lyndon Johnson ia à igreja todos os dias. Bill
Clinton é provavelmente tão religioso quanto eu, ou seja, zero, mas os seus marqueteiros
fizeram questão de garantir que todos os domingos, pela manhã, ele estivesse
numa igreja batista entoando hinos.
Chomsky, Noam. Entrevista
ao periódico alemão “Der Spiegel”, em 10.10.2008. Disponível neste
endereço. Acesso em: 20 out. 2023.
Ω
Roger Waters
(n. 1943)
Endereço original no
Youtube:
https://www.youtube.com/watch?v=ngCyGsC2BXA&t=6s
Roger Waters em entrevista
a Leandro Demori
(25.10.2023)
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quarta-feira, 2 de novembro de 2022
Uma mirada abrangente sobre o país, de alguém que está do lado de fora: civilização x barbárie
Transcrevo, a seguir,
uma análise percuciente sobre o que se passa com o Brasil, nestes tempos de ódio
patrocinado por quem menos deveria espicaçá-lo – o presidente cessante Jair Bolsonaro
–, publicada originalmente no portal do jornal português “Público”,
e redigida pelo reputado sociólogo Boaventura de Sousa Santos, a se deter sobre
o assalto dessa horda insana às instituições democráticas, sobre a forma pela
qual é manipulada e esvaziada do mínimo senso de razão e de crítica – e o que nos
espera nessa luta continuada entre civilização e barbárie.
P.s.: Negritei o
oitavo parágrafo para lhe dar a ênfase necessária, servindo a todos como alerta.
Com fascistas não se prevarica nem se brinca!
J.A.R. – H.C.
Boaventura
de Sousa Santos (*)
(n. 1940)
O golpe de Estado
continuado
Com a vitória de
Lula, a democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado
continuado. E agora?
Neste domingo
tornou-se evidente que está em curso um golpe de Estado no Brasil. É um golpe
de tipo novo, cujo curso poderá não ser substancialmente afetado pelo resultado
das eleições, ainda que a vitória de Lula da Silva certamente afetará o seu
ritmo.
É um golpe que
começou a ser posto em movimento em 2014 com a contestação dos resultados das
eleições presidenciais ganhas pela presidente Dilma Rousseff; prosseguiu com o impeachment
da presidente Dilma Rousseff em 2016; com a prisão ilegal do ex-presidente
Lula da Silva em 2018 de modo a impedi-lo de concorrer às eleições que foram
ganhas pelo presidente Jair Bolsonaro, beneficiário principal do golpe de
Estado na sua fase atual.
Com a eleição de Jair
Bolsonaro encerrou-se a primeira fase do golpe e iniciou-se uma segunda. Tal
como Adolf Hitler em 1932, Jair Bolsonaro tornou claro desde o primeiro momento
que se servira da democracia exclusivamente para chegar ao poder e que, uma vez
atingido este objetivo, exerceria o poder com o exclusivo objetivo de a destruir.
Nesta segunda fase, o golpe assumiu a forma de esvaziamento lento da
institucionalidade e da cultura política democráticas, cujos principais
componentes foram os seguintes.
No domínio da
institucionalidade: exploração de todas as debilidades do sistema político
brasileiro, nomeadamente do poder legislativo, aprofundando a mercantilização
da política, a compra e venda de votos dos representantes do povo no período
entre eleições e a compra e venda de votos de eleitores durante os períodos
eleitorais; a cumplicidade do sistema judiciário conservador incapaz de
imaginar a igualdade dos cidadãos perante a lei e habituado a conviver tanto
com o primado do direito como com o primado da ilegalidade, dependendo dos
interesses em causa; a captura das Forças Armadas através da distribuição
massiva de cargos ministeriais e administrativos.
No domínio da cultura
política democrática: a apologia da ditadura e dos seus métodos repressivos,
incluindo a tortura; utilização massiva das redes sociais para divulgar notícias
falsas e promover a cultura do ódio e uma ideologia de bem-estar esvaziada de
outro conteúdo que não o do mal-estar ou sofrimento infligido ao “outro”
construído como inimigo; a capilarização no âmago do tecido social do
imperialismo religioso conservador dos EUA (evangelismo neopentecostal) em
vigor desde 1969 como preferencial política contrainsurgente.
Esta fase concluiu-se
no final do primeiro turno das eleições presidenciais em 2 de outubro passado.
A partir daí, entrou numa fase nova assente no ataque frontal ao núcleo duro da
democracia liberal, o processo eleitoral e as instituições encarregadas de
garantir o seu decurso normal. Esta fase é qualitativamente nova em razão de
dois fatores.
Em primeiro lugar,
tornou-se mais clara a internacionalização do ataque à democracia brasileira
por via de organizações de extrema direita globais originárias e financiadas
pela plutocracia norte-americana. O Brasil transformou-se no laboratório da
extrema direita global; aí se testa a vitalidade do projeto fascista global em
que o neoliberalismo joga um novo (último?) fôlego.
O objetivo principal
é a eleição de Donald Trump em 2024. Informações fidedignas dão-nos conta de
que as empresas de desinformação e de manipulação eleitoral ligadas ao notório
fascista Steve Bannon estiveram instaladas em dois andares de uma das ruas
principais de São Paulo donde dirigiram as operações.
Nesta fase eleitoral,
as duas estratégias principais foram as seguintes. A primeira foi a intimidação
para impedir o “voto errado” e os benefícios em troco do “voto certo” oferecido
pelo baixo empresariado e por políticos locais. A segunda, há muito utilizada
pelas forças conservadoras nos EUA, sob o nome de vote suppression, foi
a supressão do voto. Tratou-se de um conjunto de medidas excecionais, sempre
sob o verniz da normalidade legal, destinadas a impedir os grupos sociais mais
inclinados a votar no candidato oposto aos golpistas de exercer o seu direito
de voto: bloqueios de estradas, excesso de zelo na fiscalização de veículos que
transportam potenciais votantes, intimidação de modo a provocar a desistência,
suspensão de transportes gratuitos decretados pela lei eleitoral para promover
o exercício do direito de voto aos mais pobres.
E agora, Brasil? A
democracia brasileira sobreviveu a esta nova fase do golpe de Estado
continuado. Para isso contribuiu o notável e destemido envolvimento dos
democratas brasileiros que viram no seu voto a prova de uma vida minimamente
digna, a afirmação da sua autoestima civilizatória, o princípio ativo da
energia democrática para os tempos difíceis que se avizinham. Contribuiu também
a firmeza das instituições da justiça eleitoral, no meio de pressões, de
desautorizações e de intimidações de todo o tipo. Mas seria estultícia
irresponsável pensar que o processo golpista terminou. Não terminou e vai
entrar numa nova fase porque as condições e as forças nacionais e
internacionais que o reclamam desde 2014 continuam vigentes e só se
fortaleceram nestes anos mais recentes.
O golpe de Estado
continuado vai entrar numa nova fase. De imediato, será provavelmente a
contestação dos resultados eleitorais para compensar o fracasso dos golpistas
em não terem conseguido os resultados que pretendiam com as múltiplas fraudes
que praticaram. Depois, o golpe assumirá outras formas, ora mais subterrâneas
com a utilização do crime organizado para intimidar as forças democráticas, ora
mais institucionais com a mobilização desviante do poder legislativo para criar
uma situação de permanente ingovernabilidade, nomeadamente com a ameaça de
impeachment do governo eleito e dos quadros superiores do sistema judicial.
Embora o objetivo de
médio prazo dos golpistas seja impedir que o Presidente Lula da Silva termine o
seu mandato, o processo do golpe continuará e só será verdadeiramente
neutralizado quando os democratas brasileiros se derem conta de que a
vulnerabilidade da democracia é em boa medida autoinfligida, pela arrogância em
pretender ser a única condição para a legitimidade do poder em vez de assumir
que a sua legitimidade estará sempre à beira do colapso numa sociedade
socioeconómica, histórica, racial e sexualmente muito injusta.
(*) Boaventura de
Sousa Santos é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade
de Coimbra. Autor, entre outras obras, de “O fim do império cognitivo”,
publicado pela Editora Autêntica.
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