Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 31 de março de 2026

Audre Lorde - Livros de Contos sobre uma Mesa de Cozinha

Lorde emprega imagens contundentes e algo devastadoras nestes versos, tudo para aquilatar o modo como as experiências traumáticas se internalizam e configuram a identidade de alguém, impondo expectativas e barreiras que, “como flechas”, ferem a sua percepção pessoal e a visão de mundo que passará a orientá-la ao longo da existência.

 

Percebe-se na elocução da falante, a herança de um sofrimento que se converteu numa complexa construção pessoal e social, desde o nascimento forçado – não exatamente um ato de geração amoroso –, passando por um aparato de proteção e pertencimento inadequado – entenda-se bem, limitante e cheio de interditos –, até chegar nos esconsos onde proliferam as mudas da opressão social e de gênero.

 

Desponta nos versos, ademais, uma denúncia à imposição de modelos e lendas plasmados nos mitos de uma sociedade dominada por cânones porventura eurocêntricos (refiro-me à menção aos contos de fadas, povoados de magas brancas), os quais pouco ou nada têm a ver com a experiência vital das mulheres negras, tanto mais que, amiúde, infensos ao acolhimento do que quer que se manifeste por efeito da diversidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Audre Lorde

(1934-1992)

 

Story Books on a Kitchen Table

 

Out of her womb of pain my mother spat me

into her ill-fitting harness of despair

into her deceits

where anger reconceived me

piercing my eyes like arrows

pointed by her nightmare

of who I was not

becoming.

 

Going away

she left me in her place

iron maidens to protect me

and for my food

the wrinkled milk of legend

where I wandered through lonely rooms of afternoon

wrapped in nightmare

from the Orange and Red and Yellow

Purple and Blue and Green

Fairy Books

where White witches ruled

over the kitchen table

and never wept

or offered gold

nor any kind enchantment

for the vanished mother

of a black girl.

 

In: “Coal” (1976)

 

Natureza-morta com livros, frutas e óculos

sobre a mesa diante de uma janela

(Dmitri Annenkov: pintor russo)

 

Livros de Contos sobre uma Mesa de Cozinha

 

Do seu ventre de dor minha mãe cuspiu-me

em seu sufocante arnês de desespero

em seus enganos

onde a raiva me reconcebeu

trespassando meus olhos como flechas

afiadas pelo seu pesadelo

de quem eu não estava

a me tornar.

 

Ausentando-se

ela deixou-me em seu lugar

donzelas de ferro para me protegerem

e como meu alimento

o leite crispado da lenda

por onde eu vagueava

em solitários cômodos durante a tarde

envolta em pesadelos

de Laranja de Vermelho e de Amarelo

de Púrpura de Azul e de Verde

Livros de fadas

sobre a mesa da cozinha

nos quais reinavam as bruxas brancas

que nunca vertiam lágrimas

tampouco ofereciam ouro

ou qualquer tipo de magia

pela mãe desaparecida

de uma menina negra.

 

Em: “Carvão” (1976)

 

Referência:

 

LORDE, Audre. Story books on a kitchen table. In: __________. The collected poems of Audre Lorde. 1st ed., 1st reimp. New Yor, NY: W. W. Norton, 2000. p. 179.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Edson Agustín Velandia - O cachorro e o velho

Nesta meditação sobre a velhice, o poeta colombiano faz menção a um cão, comprado em um mercado de pulgas, apresentando-o não simplesmente como um animal abandonado ou “de segunda”, mas como um símbolo vivo daquilo que a sociedade descarta: seu passado e sua presença, antes vibrante, contrastam com a imagem atual de um cão sem lustro nem vitalidade.

 

Evidentemente, pode-se traçar um paralelismo entre tal condição e a da vida humana, na qual os restos do que fomos se desvanecem lentamente: a figura do velho aposentado demarca um ciclo de transição no crepúsculo da existência, ao longo do qual as hierarquias e as expectativas sociais se tornam ilegíveis, sem que se saiba quem, de fato, é o “amo” nessa relação entre duas criaturas veladas pelo manto negro do olvido.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edson Agustín Velandia

(n. 1975)

 

El perro y el viejo

 

El viejo compró un perro de segunda en el mercado de las pulgas

un perro usado, de madre y padre irlandeses

sobreviviente de una larga guerra perdida

– en sus mejores tiempos ladraba

pero ya se le cayeron las plumas –

un animal sobrio y desinteresado

de ojos negros sin mirada

justo el perro que necesitaba el viejo

un día antes de cumplir el tiempo pa su jubilación,

un año después de haber sido despedido de la fábrica de escaleras

donde gastó mucho más que su juventud

justo el viejo que necesitaba el perro

un día después de haber sido cambiado en el mercado de las pulgas

por un saxofón Selmer que ahora suena desafinado en el año nuevo

dentro de la casa de un mercenario retirado,

un man que siempre quiso ser músico

de la orquestra del maestro Alfonso Guerrero

 

Sin saber quién de los dos es el amo

el perro y el viejo salieron de las pulgas y atravesaron el centro

caminaron lento

uno al lado del otro

ambos vestidos de negro.

 

O velho com um cão

(Giacomo Ceruti: pintor italiano)

 

O cachorro e o velho

 

O velho comprou um cachorro de segunda mão no mercado das pulgas

um cachorro usado, de mãe e pai irlandeses

sobrevivente de uma longa guerra perdida

– em seus melhores tempos latia

mas já perdeu as penas –

um animal sóbrio e desinteressado

de olhos negros sem mirada

justo o cachorro que o velho precisava

um dia antes de cumprir o prazo pra sua aposentadoria,

um ano depois de ter sido demitido da fábrica de escadas

onde gastou muito mais que sua juventude

justo o velho que o cachorro precisava

um dia depois de ter sido trocado no mercado das pulgas

por um saxofone Selmer que agora soa desafinado no ano novo

dentro da casa de um mercenário aposentado,

um cara que sempre quis ser músico

da orquestra do maestro Alfonso Guerrero

 

Sem saber qual dos dois é o amo

o cachorro e o velho saíram do mercado e atravessaram o centro

caminharam devagar

um ao lado do outro

ambos vestidos de preto.

 

Referência:

 

VELANDIA, Edson Agustín. El perro y el viejo / O cachorro e o velho. Tradução de Nicolás Llano. Gratuita 4: Animais, Organização de Maria Carolina Junqueira Fenati, Belo Horizonte (MG), Chão de Feira, 2023. Em espanhol: p. 190; em português: p. 191. Disponível neste endereço. Acesso em: 21 mar. 2026.

domingo, 29 de março de 2026

Federico García Lorca - As seis cordas / A criança muda

Com aquele seu estilo típico, a mesclar elementos do folclore espanhol, surrealismo e uma profunda sensibilidade à dor humana, Lorca, recorrendo de resto a imagens naturais – tarântula, grilo, água –, explora, nos dois infratranscritos poemas, estados emocionais complexos, matizando-os com elementos ao mesmo tempo mágicos e melancólicos, na tentativa de capturar a essência do inexprimível, quer seja a vibração das cordas de uma guitarra, quer seja a busca incessante de uma voz perdida.

 

No primeiro deles – “As seis cordas” –, reforça-se a ideia de que a guitarra funciona como um meio de expressão para o sofrimento coletivo, ao emitir sons nos quais se evolam sentimentos que parecem emergir da própria alma humana, ecos de suas aspirações e desesperanças acomodados no “algibe” interno do instrumento musical.

 

No segundo – “A criança muda” –, não busca o infante tão apenas um simples som, mas uma parte essencial de si mesmo que, em princípio, passou a pertencer ao “rei dos grilos” – figurante metafórico que impregna os versos de uma certa atmosfera fantástica, sob cujo peso se arrebata a voz da criança, ressignificando-a.

 

A propósito, perceba-se o fato de que o sujeito lírico não reclama pela retomada de sua voz como uma ferramenta para a comunicação diária – algo essencial para expressar ideias, sentimentos e estabelecer relações com o mundo –, senão para transcender essa mera função prática, convertendo-a num objeto pessoal irresistível, um tributo ao silêncio e à intimidade do ser. Em outras palavras, a criança não procura a voz para dialogar com o mundo de maneira superficial; ela a demanda para cuidar, preservar e transformar esse núcleo emocional e silencioso em um símbolo fidedigno dos escaninhos mais privativos de sua interioridade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Federico García Lorca

(1898-1936)

 

Las seis cuerdas

 

La guitarra,

hace llorar a los sueños.

El sollozo de las almas

perdidas,

se escapa por su boca

redonda.

Y como la tarántula

teje una gran estrella

para cazar suspiros,

que flotan en su negro

aljibe de madera.

 

O tocador de banjo

(Thomas Eakins: pintor norte-americano)

 

As seis cordas

 

A guitarra

faz chorar os sonhos.

O soluço das almas

perdidas

escapa-lhe pela boca

redonda.

E como a tarântula,

tece uma grande estrela

para capturar suspiros

que flutuam em seu negro

algibe de madeira.

 

O rapazote mudo

(Andrej Barčík: pintor eslovaco)

 

El niño mudo

 

El niño busca su voz.

(La tenía el rey de los grillos.)

En una gota de agua

buscaba su voz el niño.

 

No la quiero para hablar;

me haré con ella un anillo

que llevará mi silencio

en su dedo pequeñito.

 

En una gota de agua

buscaba su voz el niño.

 

(La voz cautiva, a lo lejos,

se ponía un traje de grillo.)

 

Imagem sem créditos

 

A criança muda

 

A criança procura a sua voz.

(Tinha-a o rei dos grilos.)

Em uma gota de água

procurava a sua voz a criança.

 

Não a quero para falar;

com ela far-me-ei um anel

que levará o meu silêncio

em seu dedo mindinho.

 

Em uma gota de água

procurava a sua voz a criança.

 

(A voz cativa, ao longe,

vestia-se com um traje de grilo.)

 

Referência:

 

LORCA, Federico García. Las seis cuerdas / El niño mudo. In: __________. Obras completas. Prólogo de Jorge Guillén. 15. ed. Madrid, ES: Ediciones Aguilar, 1969. p. 314-315 / p. 403-404.