Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

William Shakespeare - Do Jeito que Você Gosta (Ato 2, Cena 7)

Tenha-se em mente, de início, que o excerto da intitulada peça do bardo – a que diz respeito a postagem de hoje –, é uma das falas mais antologiadas da história do Teatro, pertencendo à figura de Jaques, um Lord sorumbático que acompanha o Duque Sênior em exílio na Floresta de Arden.

 

Trata-se de um espectador, mais do que um participante do mundo, figura arquetípica daqueles que se deleitam em encontrar exemplos de estupidezes e vaidades humanas para descerrar suas críticas – isso em meio a uma comédia pastoral repleta de amor, reconciliação e, claro, final feliz.

 

No infratranscrito monólogo, o “Monsieur Melancólico” – como o chama Rosalinda – discursa sobre os sete atos da vida humana, desde o bebê que chora, no colo da ama, até a segunda infância, “sem dentes, sem visão, sem paladar, sem tudo”: tem-se, assim, uma visão desencantada da existência como uma comédia trágica e previsível, ao longo da qual o ser humano avança inexoravelmente de uma dependência indigna a outra, havendo interpretado no caminho uma séria de papéis vazios.

 

Com efeito, a vida seria “um palco” onde representamos papéis – muitas das vezes pré-determinados pela sociedade, pela natureza ou pelo destino –, o que nos leva a exibirmos diferentes facetas em função das circunstâncias, dando ensejo a que muitos passem a questionar se, por trás de todas essas “personas”, haveria de fato um sujeito autêntico.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Shakespeare

Retrato atribuído a John Taylor

(1564-1616)

 

Jaques (Act 2, Scene 7)

 

All the world’s a stage,

And all the men and women merely players.

They have their exits and their entrances,

And one man in his time plays many parts,

His acts being seven ages. At first the infant,

Mewling and puking in the nurse’s arms.

Then the whining schoolboy with his satchel

And shining morning face, creeping like snail

Unwillingly to school. And then the lover,

Sighing like furnace, with a woeful ballad

Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,

Full of strange oaths and bearded like the pard,

Jealous in honor, sudden and quick in quarrel,

Seeking the bubble reputation

Even in the cannon’s mouth. And then the justice,

In fair round belly with good capon lined,

With eyes severe and beard of formal cut,

Full of wise saws and modern instances;

And so he plays his part. The sixth age shifts

Into the lean and slippered pantaloon

With spectacles on nose and pouch on side,

His youthful hose, well saved, a world too wide

For his shrunk shank, and his big manly voice,

Turning again toward childish treble, pipes

And whistles in his sound. Last scene of all,

That ends this strange eventful history,

Is second childishness and mere oblivion,

Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

 

A vida é um palco

(Ralitsa Raykova: artista búlgara)

 

Jaques (Ato 2, Cena 7)

 

O mundo é um palco(1) e todos os homens e mulheres são na verdade atores: têm suas saídas e suas entradas e no decorrer da vida atuam em vários papéis, cada ato correspondendo a sete idades.(2) Primeiro a criança, choramingando e regurgitando no colo da babá; depois o aluno contrariado, com sua pasta e seu rosto travesso matinal, arrastando-se como lesma para a escola; então o amante, suspirando como uma fornalha, entoando uma canção dolente em louvor dos cílios da amada; aí o soldado, cheio de juras estranhas e barba de leopardo, zeloso da sua honra, impetuoso e pronto para a briga, buscando a fama fugaz, nem que seja na boca do canhão; e depois o juiz, com a barriga bem forrada de frango, olhos severos e barba bem cuidada, cheio de ditos sábios e banalidades – e assim ele cumpre o seu papel; na sexta idade o cenário muda: magros pijamas, chinelos, óculos no nariz e bolsa a tiracolo, o vigor da mocidade já guardado – um mundo tão vasto para pernas tão fracas – sua voz máscula, retomando o balbuciar infantil, apita e chia ao falar; a última cena, que encerra esta história estranha e agitada, é a segunda infância e o mero esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem sabor, sem nada.

 

Notas do Tradutor Rafael Raffaelli:

 

(1). A comparação entre a vida humana em sociedade e o teatro é um lugar-comum na literatura europeia do século XVII, como na obra do poeta conceptista espanhol Francisco de Quevedo, entre outros. Supõe-se que o emblema do teatro Globe fosse Hércules suportando o mundo com a inscrição: “Totus mundus agit histrionem”, i.e., “o mundo todo age como ator”. Talvez a mais conhecida das passagens sobre o tema em Shakespeare encontre-se em Macbeth. (n.r. 120, p. 54)

 

(2). Hipócrates foi o primeiro a dividir a vida humana em sete estágios ou idades e Jaques os associa aos atos de uma peça teatral. As sete idades também estão tradicionalmente vinculadas ao sistema solar, mas Jaques não cita os planetas correspondentes a cada uma, nem faz referência à idade da razão, governada pelo Sol (Apolo); também não faz apologia da vida campestre. (n.r. 121, p. 54)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

SHAKESPEARE, William. [All the world’s a stage], from As you like it - act 2, scene 7. Edited by Barbara A. Mowat and Paul Werstine. New York, NY: Washington Square Press, jul. 2004. p. 83. (‘Folger Shakespeare Library’).

 

Em Português

 

SHAKESPEARE, William. [O mundo é um palco], de Do jeito que você gosta - ato 2, cena 7. Tradução de Rafael Raffaelli. Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 2011. p. 54-55.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Mario Quintana - Carta

Quintana oferece-nos o testemunho de uma poética da autenticidade, num texto em forma de carta indispensável para qualquer aspirante a artista: em suas linhas, o autor gaúcho rechaça a imposição incondicional de normas externas, as injunções do mercado editorial, as modas literárias e as pretensões cerebrinas, para centrar-se no mais importante, a saber, a luta honesta e humilde do indivíduo por expressar a sua verdade mais profunda através da palavra, polida com o rigor de um artesão.

 

É de se enfatizar dois dos conselhos que Quintana oferece ao poeta em formação, em linha de coerência com todas os argumentos insertos na prosa em questão: (i) para ler somente os poetas com quem sinta afinidade, aqueles que o ajudem a compreender a si mesmo, não exatamente para imitar-lhes o que quer que haja neles; e (ii) para se dedicar, nada obstante, à técnica, à disciplina e ao aprendizado da “bela ginástica” da métrica clássica, podendo, a partir daí, desenvolver um estilo próprio e livre.

 

Há muito mais, ainda, nessa guia mentora: “um poema não é um teorema” ou uma peça nascida de um cálculo intelectual, senão que deve assomar no fértil terreno da espontaneidade, após o que se há de promover uma “poda” implacável, eliminando-lhe o supérfluo, o falso, o puramente decorativo ou lógico, para então se oferecer ao leitor, em sua beleza essencial e orgânica, como algo individual que se conecta ao universalmente humano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mario Quintana

(1906-1994)

 

Carta

 

Meu caro poeta,

 

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o faziam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo o dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a Verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, limita-se a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade”. E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

 

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?”. A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

 

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de ideias, associações de imagens; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema), tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com um cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

 

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacó entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes!” Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

 

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso buscar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe a sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio, que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que lá vai seguindo com os seus detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

 

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tua eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

 

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

 

Em: “Caderno H” (1973)

 

Eugène Boch / O Poeta

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Referência:

 

QUINTANA, Mario. Carta. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização, preparação do texto, prefácio e notas por Tania Franco Carvalhal. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 2006. p. 342-344. (Biblioteca Luso-Brasileira; Série Brasileira)

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domingo, 26 de abril de 2026

Khalil Gibran - Sobre o Casamento

O ensaísta libanês aborda a questão do matrimônio a partir do respeito à individualidade de cada um dos cônjuges, ao nos apresentar um ponto de vista que não se alinha à ideia tradicional de fusão absoluta no amor, propondo, em vez disso, um equilíbrio entre a conexão e a liberdade, uma união que se cogita estável e duradoura, porém não asfixiante.

 

Fala-nos Gibran de um amor que se propõe maduro, no qual a intimidade não anula a identidade, a alegria compartilhada não vai de encontro à independência – sem espaço, portanto, para a possessividade. Com efeito, o verdadeiro companheirismo somente floresce quando há liberdade para crescer, confiança no vínculo e aceitação de que o amor, como o mar, é uma força dinâmica precisamente porque não se deixa domesticar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Khalil Gibran

(1883-1931)

 

Sobre o Casamento

 

Então, Almitra [uma vidente] tornou a falar e perguntou: “E quanto ao Casamento, mestre?” E ele [Almustafa] assim respondeu:


Vocês nasceram juntos, e juntos haverão de ficar para sempre.

Estarão juntos quando as brancas asas da morte lhes dispersarem os dias.

Sim, juntos ficarão mesmo na silenciosa memória de Deus.

Mas deixem que existam espaços no fato de estarem juntos.

E permitam que os ventos dos céus dancem entre vocês.

Amem um ao outro, mas sem fazer do amor uma obrigação:

Deixem-no que seja, em vez disso, um mar em movimento entre as praias de suas almas.

Encham a taça um do outro, mas bebam apenas de uma.

Deem seu pão um ao outro, no entanto não comam da mesma forma.

Cantem, dancem juntos e se mantenham alegres, mas deixem que cada um de vocês seja independente.

Assim como são independentes as cordas de um alaúde, embora vibrem com a mesma música.

Deem o coração um ao outro, mas não a guarda um do outro.

Apenas a mão da Vida pode conter-lhes o coração.

Fiquem juntos, mas não próximos demais:

Pois os pilares do templo elevam-se distantes entre si,

E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

 

O Caramanchão da Madressilva

(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

 

Referência:

 

GIBRAN, Khalil. Sobre o casamento. Tradução de Alda Porto. In: __________. O profeta. Tradução de Alda Porto. São Paulo, SP: Martin Claret, 2013. p. 23-24. (Coleção “A obra-prima de cada autor”; v. 165)

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

Eduardo Galeano - Paradoxos

Galeano, escritor e jornalista uruguaio, mostra-nos como pessoas e eventos desafiam, com alguma frequência, as expectativas e as definições convencionais que se lhes atribuem, configurando paradoxos que não são apenas curiosidades históricas, mas que dizem muito em relação às contradições inerentes à política, à religião, ao comportamento humano e, até mesmo, à arte e cultura popular.

 

Num tom irônico e crítico, o autor parece zombar dos que acreditam poder compreender ou controlar o fluxo das circunstâncias, tanto mais que questões como identidade, ideologia e a crônica dos fatos estão longe de ser lineares ou lógicas, pois que continuamente sob a percussão do tilintar complexo da realidade, sempre a nos exigir olhos lúcidos para discernir, com clareza, os meios-tons existentes entre os polos de todos os enfoques que se pretendem binários.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Galeano

(1940-2015)

 

Paradoxos

 

Se a contradição for o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós.

Nem o próprio filho de Deus salvou-se do paradoxo. Ele escolheu, para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo.

Napoleão Bonaparte, o mais francês dos franceses, não era francês. Não era russo Josef Stálin, o mais russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf Hitler, tinha nascido na Áustria. Margherita Sarfatti, a mulher mais amada pelo antissemita Mussolini, era judia. José Carlos Mariátegui, o mais marxista dos marxistas latino-americanos, acreditava fervorosamente em Deus. O Che Guevara tinha sido declarado completamente incapaz para a vida militar pelo exército argentino.

Das mãos de um escultor chamado Aleijadinho, que era o mais feio dos brasileiros, nasceram as mais altas formosuras do Brasil. Os negros norte-americanos, os mais oprimidos, criaram o jazz, que é a mais livre das músicas. No fundo de um cárcere foi concebido o Dom Quixote, o mais andante dos cavaleiros. E cúmulo dos paradoxos, Dom Quixote nunca disse sua frase mais célebre. Nunca disse: Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos.

“Acho que você está meio nervosa”, diz o histérico. “Te odeio”, diz a apaixonada. “Não haverá desvalorização”, diz, na véspera da desvalorização, o ministro da Economia. “Os militares respeitam a Constituição”, diz, na véspera do golpe de Estado, o ministro da Defesa.

Em sua guerra contra a revolução sandinista, o governo dos Estados Unidos coincidia, paradoxalmente, com o Partido Comunista da Nicarágua. E paradoxais foram, enfim, as barricadas sandinistas durante a ditadura de Somoza: as barricadas, que fechavam as ruas, abriam o caminho.

 

Sr. Paradoxo

(Loui Jover: artista servo-australiano)

 

Referência:

 

GALEANO, Eduardo. Paradoxos. Tradução de Eric Nepomuceno. In: __________. O livro dos abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. L&PM Pocket, 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, jan. 2023. p. 126-127. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 465)

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terça-feira, 3 de junho de 2025

Millôr Fernandes - Saudação aos que vão ficar

Millôr especula, em 1958, sobre o Brasil e o mundo do futuro, ou melhor, na virada do século XX para o XXI, pela via de um elenco de perguntas retóricas a açambarcar temas tão diversos quanto o progresso tecnológico, as relações sociais, a moral, a lei e a ordem. Consigne-se por oportuno que, naquele momento, o mundo, como hoje, passava por grandes transições: a Guerra Fria estava no seu apogeu, a corrida espacial acabara de começar e palpável era a ameaça de uma guerra nuclear.

 

Pouco mais de duas décadas se passaram além do ponto futuro vislumbrado pelo poeta. Por conseguinte, já se pode declinar um olhar do presente para o passado recente, um histórico tangível daquilo em que o Brasil se transformou: um campo minado para ‘fake news’ – sobretudo do espectro político que vai da direita a extrema-direita –, sem qualquer apelo a valores éticos autênticos, senão a uma moral ultraconservadora e retrógrada que se pretende impositiva ao outro âmbito da sociedade que não a recepciona ou convalida, a pretexto, contraditoriamente, do exercício de uma “liberdade de expressão” bem aos parâmetros de uma ordem fascista.

 

E sabem-se lá as externalidades, sobretudo as de natureza negativa, que as denominadas inteligências artificiais poderão engendrar no espaço que ora se denomina de pós-modernidade, agora afeita a um mundo sem escrúpulos no qual domina a pós-verdade, algo como um equivalente a viver sob mentiras ou campanhas difamatórias que incorrem em explícitos delitos cominados legalmente, prejudicando ora a alguns, ora a um grupo social, ora ainda a um amplo contingente de milhões.

 

Para ilustrar determinadas facetas desse universo de significativa imersão num oceano entrópico, transcrevem-se alguns excertos da obra “A vida sempre tem um sentido?”, do logoterapeuta Alberto Nery (v. referência completa ao final desta postagem), nos quais o autor destila uma crítica contundente à hipocrisia, à intolerância e ao desvio dos verdadeiros valores éticos e humanitários, por parte de algumas lideranças religiosas e políticas do país, que adotam discursos de ódio, discriminação e negacionismo, contrariando os preceitos fundamentais do amor ao próximo e do respeito à vida:

 

O discurso institucional de muitos cristãos torna-se progressivamente vazio, conforme suas preocupações passam a ser cada vez mais determinadas por pautas conservadoras de usos e costumes e alinhadas a projetos de domínio político, do que pela essência da mensagem de amor ao próximo ensinada pelo próprio Cristo. Por mais contraditório que possa parecer, vemos uma parcela significativa de Igrejas cristãs defendendo ideologias totalitárias, negacionistas, armamentistas, a favor da pena de morte, homofóbicas e misóginas. Sacerdotes, padres e pastores que se posicionam contrariamente a essas convenções acabam silenciados ou ‘cancelados’”. (NERY, 2023, p. 141)

 

“A xenofobia e o preconceito ainda estão presentes em muitos países desenvolvidos que, sistematicamente, fecham as portas para uma prosperidade, na maior parte das vezes, conquistada a partir da exploração dos próprios países e dos povos aos quais viram agora as costas e fecham suas fronteiras”. (NERY, 2023, p. 165).

 

“Políticos que pregam o ódio e o extermínio de defensores de ideologias contrárias seguem populares, fazendo de sua plataforma de intolerância uma razão para serem admirados. Numa clara atitude de desrespeito ao terceiro mandamento do decálogo, o nome de Deus é tomado em vão por líderes religiosos que insistem em associá-lo ao de políticos, na tentativa de validar e conferir uma ‘autoridade divina’ aos seus projetos de poder nefastos. Sob o pretexto da defesa da família e dos valores, a discriminação e perseguição violenta das comunidades LGBTQIA+ é justificada e normalizada mundo afora. É popular a postura negacionista de se contrapor aos fatos e ignorar os efeitos destrutivos da ação humana sobre a natureza, além de outras tantas tendências devastadoras e abomináveis que precisam ser mudadas. A lista é longa e se distribui por toda a amplitude dos espectros políticos, ideológicos e religiosos, fazendo da intolerância o único ponto de convergência entre eles. Tais fatos corroboram a tese de Bauman (*) de que os elementos que produziram a maior tragédia do século 20 ‘podem ainda estar entre nós, à espera de uma oportunidade’, e que ‘se havia algo em nossa ordem social que tornou possível o Holocausto em 1941, não podemos ter certeza de que foi eliminado desde então’”. (NERY, 2023, p. 166)

 

(*). Citações de Zygmunt Bauman (1925-2017) em:

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e holocausto. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 109.

 

J.A.R. – H.C.

 

Millôr Fernandes

(1923-2012)

 

Saudação aos que vão ficar

 

Como será o Brasil

No ano dois mil?

As crianças de hoje

Já velhinhas então

Lembrarão com saudades

Deste antigo país

Desta velha cidade?

Que emoção, que saudade

Terá a juventude

Acabada a gravidade?

Respeitarão seus papais,

Cheios de mocidade?

Que diferença haverá

Entre o avô e o neto?

Que novas relações e enganos

Inventarão entre si

Os seres desumanos?

Que lei impedirá

Libertada a molécula

Que o homem

Cheio de ardor

Atravesse paredes

Buscando o seu amor?

Que lei de tráfego impedirá um inquilino

Ante o aluguel que vence

De voar para lugar distante

Na casa que não lhe pertence?

Haverá mais lágrimas ou mais sorrisos?

Mais loucura ou mais juízo?

E o que será loucura

E o que será juízo?

A propriedade, será um roubo?

O roubo, o que será?

Poderemos crescer todos bonitos?

E o belo não passará a ser feiura?

Haverá entre os povos uma proibição

De criar pessoas com mais de um metro e oitenta?

Mas a Rússia (vá lá, os Estados Unidos) não farão,

Às ocultas, homens especiais que, de repente,

Possam duplicar o próprio tamanho?

Quem morará no Brasil no ano dois mil?

Que pensará o imbecil

No ano dois mil?

Haverá imbecis?

Militares ou civis?

Que restará a sonhar para o ano três mil

No ano dois mil?

 

28/4/1958

 

A boba

(Anita Malfatti: pintora paulistana)

 

Referências:

 

FERNANDES, Millôr. Saudação aos que vão ficar. In: __________. Essa cara não me é estranha e outros poemas. 1. ed. São Paulo, SP: Boa Companhia, 2014. p. 59-60.


NERY, Alberto. A vida sempre tem um sentido?: como encontrar significado nos altos e baixos de sua jornada. 1. ed. São Paulo, SP: Planeta do Brasil (Paidós), 2023.

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