Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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sábado, 4 de dezembro de 2021

Afonso Reis Cabral - O Meu Irmão

Finda a leitura da obra em epígrafe, venho compartilhar com os internautas as impressões que me subsistiram à memória, em especial pela surpresa de haver-me deparado com um texto maduro de um escritor que, à altura de sua elaboração, contava apenas vinte e quatro anos. 

Cabral é literato de formação e, por conseguinte, não chega a assombrar as inúmeras alusões, em “O Meu Irmão”, a passagens de célebres narrativas da ficção internacional, como “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess, “A Leste do Éden”, de John Steinbeck, “O Coração das Trevas”, de Joseph Conrad  – somente para mencionar as que, por ora, acorrem-me à mente –, afora “À sombra das raparigas em flor”, de Marcel Proust, o segundo volume de “Em busca do tempo perdido”, romance a partir do qual detém-se o protagonista-narrador a devanear sobre um hipotético encontro amoroso com Albertine, a despeito de seu acobertado lesbianismo (vide a primeira transcrição em itálico, mais abaixo).

A propósito, em itálico aqui estão duas digressões que, no livro em comento, aparecem em letras menores que a do texto propriamente dito, como que a demarcar digressões fora de curso, explico-me melhor, pensamentos ou elucubrações do protagonista-narrador que, à margem dos fatos narrados, não são expressos verbalmente.

Contudo, o que de mais importa no enredo é a cordura com que é tratado o tema das pessoas com necessidades especiais, e os cuidados de que são merecedoras por parte de seus responsáveis. Com efeito, o protagonista-narrador, professor universitário, passa a tomar conta de seu irmão Miguel, com síndrome de Down e já na casa dos quarenta, depois que finados os pais.

São risíveis as passagens atinentes ao relacionamento entre Miguel e Luciana, uma história de amor entre um “mongoloide e uma apanhadita do cérebro”, mas que, ao fim, assume contornos meio trágicas, pois o protagonista-narrador, pondo fim à relação, resolve afastá-los fisicamente, deixando Luciana desacordada à beira de um ermo de estrada, depois de altercações entre os três intervenientes, sem que as consequências de tal ato fique suficientemente clara quer para o próprio protagonista-narrador quer para o leitor, ou melhor, se Luciana veio a óbito ou se foi resgatada por algum condutor eventualmente transitando por aquelas paragens.

No mais, fica para o internauta deslindar os muitos encadeamentos da trama, mesmo após a leitura da resenha aposta à contracapa do livro, que, por igual, transcrevo a seguir. Uma obra a conferir! 

Resenha do Editor

 

Com a morte dos pais, é preciso decidir com quem fica Miguel, o filho de 40 anos que nasceu com síndrome de Down. É então que o irmão – um professor universitário divorciado e misantropo – surpreende (e até certo ponto alivia) a família, chamando a si a grande responsabilidade. Tem apenas mais um ano do que Miguel, e a recordação do afecto e da cumplicidade que ambos partilharam na infância leva-o a acreditar que a nova situação acabará por resgatá-lo da aridez em que se transformou a sua vida e redimi-lo da culpa por tantos anos de afastamento. Porém, a chegada de Miguel traz problemas inesperados – e o maior de todos chama-se Luciana.

Numa casa de família, situada numa aldeia isolada do interior de Portugal, o leitor assistirá à rememoração da vida em comum destes dois irmãos, incluindo o estranho episódio que ameaçou de forma dramática o seu relacionamento.

O “Meu Irmão”, vencedor do Prémio LeYa 2014 por unanimidade, é um romance notável e de grande maturidade literária que, tratando o tema sensível da deficiência, nunca cede ao sentimentalismo, oferecendo-nos um retrato social objectivo e muitas vezes até impiedoso.

J.A.R. – H.C. 

Afonso Reis Cabral
(n. 1990) 

Depois de entrar segurando a minha mão, olha para mim e abre um sorriso nos olhos meia-lua, entre constrangido e alegre. Range os dentes de felicidade ou susto ou não sei o quê.

Senta-se no sofá levantando o pó. A barriga enrola-se em dois altos encostados um ao outro. Os dedos simulam um estalido quase imperceptível; repletos de calos, têm o mesmo comprimento. As orelhas diminutas sobressaem no cabelo curto. A camisola justa ao pescoço e as mangas reviradas. Os olhos denunciam o aspecto estrangeiro. Não se consegue controlar, mexe-se com ansiedade.

A pesar de parecer uma criança envergonhada de dez anos a mexer os dedos e a fazer salamaleques, é bem o meu irmão, na casa dos quarenta, um pouco para o gordo e, claro, mongoloide. (CABRAL, 2014, p. 13)

 

O [rio] Paiva revela-se depois da última curva, e ao cimo, como uma coroa na cabeça do monte, a aldeia do Tojal. Em suma, uma rua com casas de lado e de permeio. Ainda é possível ver o sulco das carroças na pedra do chão. Musgo cobre a base das portas por onde já ninguém entra. Uma ou duas tábuas atiradas para um canto. Alguns gatos que vivem nas ruínas. Mais nada. (CABRAL, 2014, p. 13)

 

Albertine nas águas era o que eu queria. Qual quarto de hotel. Ali mesmo, na zona mais remota do rio. Albertine fora das páginas, Albertine inteira. Não teria tantos ciúmes como o narrador, esse frustrado, nem me importaria com as inclinações especiais dela, desde que estivesse comigo desinibida na corrente do rio. Albertine no Paiva. Depois, já sem proveito, em vez de adormecer ao meu lado, ela que voltasse às páginas do livro. (CABRAL, 2014, p. 71-72)

 

Não sei porquê, nem se de facto é assim, mas existe um rácio entre a infelicidade dele [Miguel] e a minha felicidade. Não falo de um rácio de progenitor, tampouco de irmão. Chamemos-lhe só rácio. Quanto mais infeliz ele é, mais feliz me torno. Faço-me feliz em ajuda-lo, em tirá-lo da infelicidade e devolvê-lo à condição de anjo ferido, anjo na Terra, embora não saiba em que consiste essa condição. (CABRAL, 2014, p. 83)

 

Refugiava-me nos livros. Mais do que um escape, e se a vida é feita de locais, os livros eram um local onde eu ouvia as vozes dos outros como se fossem ditas por mim. Deste modo, não representavam bem um refúgio, mas sim o sítio aonde voltava a casa. Uma parcela da vida que dava para muitas outras parcelas que eu nunca poderia conhecer, ou sequer perceber. (CABRAL, 2014, p. 119)

 

Eu pensava na beleza do quotidiano. Abria outro livro e embrenhava-me nele. Ocasionalmente, acontecia frustrar-me com o próprio livro tanto como com a porta fechada do Miguel ou o despentear de cabelo do meu pai. Então, sim, podia actuar. Arrancava as páginas com lentidão quase até ao fim, para doer, depois puxava com força, para matar. Arrancava as páginas dos livros como se arrancasse as penas a um pássaro vivo e palpitante nas minhas mãos. (CABRAL, 2014, p. 119-120)

 

Quando se é velho e pai de um deficiente, aprende-se a lidar com o medo. Quando eu for ainda mais velho, que será feito do meu filho? E quando eu morrer? E quando ele se tornar velho e eu já não existir? Este medo será com certeza constituído por muitos outros. E também uma parte física, quer dizer, olhar para as mãos, sabê-las extintas e, tal como as mãos, o resto do corpo, apesar de dentro desse corpo permanecermos iguais, sentirmo-nos novos – sermos afinal eternos.

Não sei descrever a velhice porque a velhice não existe em abstracto. (CABRAL, 2014, p. 237)

 

Capa de “O Meu Irmão” 


Referência:

CABRAL, Afonso Reis. O meu irmão. Alfradige, PT: Leya, 2014.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Giovanni Papini - Gog: As obras-primas da literatura

Nesta que é uma das obras mais sardônicas que jamais terei lido, o escritor italiano põe nos lábios da personagem “Gog”, quem sabe, as suas próprias perspectivas do que sejam as manifestações do mundo, especialmente aquelas que surgem mediante as ações dos homens: em linha com os interesses deste blog, há, em especial, dois excursos, a saber, “As obras-primas da literatura”, que ora transcrevo à apreciação do leitor, e “A indústria da poesia”, este já bem longo e que, talvez, mais tarde, resulte numa postagem neste sítio.

Sobre o tomo propriamente dito, “Gog”, de 1931, o escritor, tradutor e jornalista carioca Luiz Carlos Lisboa tece os comentários que antecedem a seção atinente ao texto propriamente dito de Papini. Quanto às notas prévias às referências, são de minha autoria, em busca de esclarecer os termos empregados e de identificar as obras a que aludem, a meu ver, as irônicas sínteses do autor italiano.

J.A.R. – H.C.

 

Giovanni Papini
(1881-1956)
 

Gog - Giovanni Papini

(LISBOA, 1990, p. 150-151)

 

A antiga técnica de supor que escrever um diário permite ao autor discutir todos os assuntos e manter-se como observador identificado com o personagem. Goggius, conhecido como Gog, é uma natureza esgotada que, tendo tudo experimentado, ainda procura uma possibilidade de salvação, na forma de um novo entusiasmo. A má-fé e o esnobismo são revelados nas pessoas e no mundo, pelos olhos do autor. Gog enriqueceu nos Estados Unidos, abandonou os negócios e iniciou uma vida de experiências e refinamentos. Assim, despreza algumas obras-primas como carentes de sentido e procura em homens célebres a resposta para a vida e a morte, o que evidentemente não encontra. Suas entrevistas com Gandhi, Ford, Freud, Einstein, Lênin e Shaw são maliciosas e sagazes. Gog quer ser o Anticristo, já que não pode ser Deus, mas não consegue divertir-se nem ser feliz por um momento.

 

O dinheiro afinal não pode nada, ao contrário do que havia pensado o personagem no início de sua carreira. O que ele lamenta é que nem célebre consegue tornar-se. Gog é o símbolo do mundo insatisfeito, poderoso e entediado dos nossos dias. Talvez Cristo, para o autor, seja a solução — mas isso só vai parecer real na vida de Papini um pouco mais tarde. Em Um homem acabado (1913), confessadamente autobiográfico, Papini recorda uma infância infeliz e revela uma inquietação religiosa. Aos vinte e dois anos funda um semanário, que vive apenas dois anos. Vieram outros, depois, e afinal ele é redator-chefe de Il Regno, em Florença. Essa vida ligada ao jornalismo revelou a Papini (e a Gog) um pouco de tudo o que existe no mundo, despojando-o de ilusões de toda espécie.

 

Papini sofreu sempre com um desejo de certeza que habitava seu espírito. Sua conversão ao catolicismo teve enorme repercussão. Sua História de Cristo (1921) foi traduzida em todas as línguas. Depois de O diabo, livro polêmico, de Santo Agostinho e de um volume de poesias (Espião do mundo, 1955), algumas evocações ao passado foram reunidas em A felicidade de ser infeliz. Esse livro póstumo, no entanto, conheceu pouca divulgação.

 

Capa de uma das
edições italianas de “Gog”

As obras-primas da literatura

Cuba, 7 de novembro

(PAPINI, [197-?], p. 6-7)

 

Para fins pessoais, precisava conhecer aquelas que os professores dos colleges (*) chamam as “obras-primas da literatura”. Encomendei a um bibliotecário formado, que me havia sido indicado como muito eficiente, uma lista condensada, pedindo que obtivesse os livros nas melhores edições. Assim que tive nas mãos estes tesouros não atendi mais ninguém e não me levantei mais da cama.

 

A princípio fiquei decepcionado e pareceu-me incrível que tais humbugs (**) fossem realmente o produto de primeira qualidade do espírito humano. O que não entendia, me parecia inútil; o que entendia não me divertia ou me ofendia. Coisas absurdas, cacetes: às vezes insignificantes ou nauseabundas. Narrativas que se verdadeiras me pareciam inverossímeis, e bobas se inventadas. Escrevi a um célebre professor da Universidade de W. perguntando se aquela lista era boa. Respondeu que sim, e me conformei. Tive forças para ler todos os livros, menos três ou quatro que não consegui suportar além das primeiras páginas.

 

Bandos de homens, ditos heróis, que se estriparam durante dez anos seguidos sob os muros de uma cidadezinha por causa de uma velha seduzida [a]; a viagem de um vivo no funil dos mortos como pretexto para falar mal dos mortos e dos vivos [b]; um louco magro e um louco gordo que andam pelo mundo em busca de pauladas [c]; um guerreiro que perde a razão por uma mulher e se diverte barbeando os carvalhos das florestas [d]; um covarde ao qual mataram o pai e que para vingá-lo faz morrer uma moça que o ama e outras personagens várias [e]; um diabo aleijado que arranca os telhados das casas para exibir suas vergonhas [f]; as aventuras de um homem médio que banca o gigante entre os pigmeus e o anão entre os gigantes, igualmente inoportuno e ridículo [g]; a odisseia de um idiota que através de uma sequência de cômicas tragédias sustenta ser este o melhor dos mundos [h]; as peripécias de um professor demoníaco servido por um demônio profissional [i]; a tediosa história de uma adúltera de província que se aborrece e no final se envenena [j]; as tiradas loquazes e incompreensíveis de um profeta acompanhado por uma águia e uma serpente [k]; um jovem pobre e febril que mata uma velha e depois, imbecil, não sabe sequer gozar o fruto do furto e acaba por cair nas mãos da polícia [l].

 

Pareceu-me entender, com minha cabeça virgem, que a tão exaltada literatura está apenas na idade na pedra, o que me desiludiu profundamente.

 

Contratei um especialista de poesia que tentou me confundir dizendo que aquelas obras valiam pelo estilo, a forma, a língua, as imagens, os pensamentos e que um espírito educado podia tirar delas a maior satisfação. Respondi que para mim, obrigado a ler quase todos aqueles livros em traduções, a forma interessava pouco e o conteúdo me parecia, assim como é, antiquado, insensato, burro e extravagante. Gastei cem dólares nesta consulta, sem nenhum proveito.

 

Felizmente conheci mais tarde alguns escritores jovens que confirmaram meu julgamento sobre aquelas velhas obras e me deram seus livros, onde encontrei, em meio a muitas coisas nebulosas, um alimento mais apropriado para meus gostos. Ficou-me, porém, a dúvida de que a literatura seja incapaz de aperfeiçoamentos decisivos: é muito provável que ninguém, daqui a um século, se dedique a uma indústria tão atrasada e pouco rendosa.


Notas:

[*]. Colleges – faculdades, universidades.

[**]. Humbugs – farsas, fraudes, embustes, imposturas.

[a]. Ilíada, de Homero (~VIII a.C.).

[b]. A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1472).

[c]. Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1605).

[d]. Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (1516).

[e]. Hamlet, de William Shakespeare (1603).

[f]. O Diabo Coxo, de Luis Veléz Guevara (1641).

[g]. As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (1726).

[h]. Cândido, ou o Otimismo, de Voltaire (1759).

[i]. Fausto, de Johann W. von Goethe (1790).

[j]. Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1856).

[k]. Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche (1883).

[l]. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski (1866).


Referências:

LISBOA, Luiz Carlos. Pequeno guia da literatura universal: através de quase duzentos livros que ninguém mais pode ignorar impunemente. 1. ed. São Paulo, SP: Círculo do Livro, 1990.

PAPINI, Giovanni. Gog. Tradução de Marina Colasanti. Rio de Janeiro, GB: Nova Fronteira, [197-?].

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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Saul Bellow - O Planeta do Sr. Sammler

Como se poderia sintetizar em poucas palavras a obra de Bellow, objeto deste comento, tão permeada ela está pela filosofia – e de um tom sombrio, como não poderia deixar de ser, uma vez que o seu protagonista de primeira ordem é um judeu polaco que sobreviveu à insânia nazista?!

Nota-se uma inversão da proeminência entre literatura e filosofia quando se a coteja, v.g., com os romances da “Trilogia da Liberdade” de Sartre (“A idade da razão”; “Sursis” e “Com a morte na alma”), pois que estes se mostram muito mais como filosofia tendo a literatura por veículo, enquanto aquela é literatura em estado pleno, tendo a filosofia um substancioso peso em suas laudas.

Digo melhor: no essencial, a obra não avança em frequentes compassos dialogais ou entrecortes factuais, senão por meio de amplas digressões que se passam na mente das personagens – o Sr. Sammler à frente –, motivo por que menções a pensadores ou escritores são nelas recorrentes: Marx, Schopenhauer, Proust, André Maurois, Freud, Toynbee, Scheler, Meister Eckhart etc.

Em relação a este último, faço um aparte: Bellow parece ter um particular apreço pelo místico, filósofo e teólogo alemão (c. 1260 – c. 1328), chegando a transcrever-lhe um pensamento completo no romance (v. mais abaixo) – assim como também a ele muito se reportava o psicanalista, filósofo e sociólogo alemão, idem de origem judaica, Erich Fromm (1900-1980).

Em abrangente perspectiva, até mesmo pelo precitado matiz reflexivo, o aludido tomo de Bellow reveste-se de atemporalidade, embora haja passagens datadas, em especial aquelas que dizem respeito a eventos bélicos que se passam em Israel, ao longo da segunda metade dos anos 60. Quanto aos episódios inseridos no contexto da 2GM, por persistirem na consciência coletiva da humanidade, descolam-se, de certa forma, desse pendor mais demarcado no tempo. Veja o leitor as infratranscritas citações extraídas ao texto e bem constatará tais asserções.

Não há como deixar de deplorar o modo como as mulheres (idem, o negro, como batedor de carteiras) aparecem mal retratadas em suas páginas, como se sempre fossem padecedoras de uma pulsão sexual irreprimível – muito a lembrar as páginas, eivadas de teses naturalistas, de um Zola ou, entre nós, de um Aluísio de Azevedo –, como se a intenção do autor fosse dar razões às teorias de Freud sobre a sexualidade.

Haverá quem possa evocar, em associação a tais excessos, o episódio que se passa em obra de outro autor norte-americano, a saber, em “O teatro de Sabbath”, de Philip Roth, no curso do qual uma personagem feminina transa, num único dia, com os seus quatro ou cinco homens de quem era amante, como se tencionasse firmar o seu nome no “Guinness World Records”.

Sublinhe-se que essa mirada de Bellow, pouco afeita à figura feminina, parece não ser incidental, pois em outros de seus romances, a exemplo de “Herzog”, sucede o mesmo que por ora se conjectura – concedendo-lhe o benefício da dúvida – como mero indício.

E o que dizer das ações transcorridas nas instalações da Columbia University, onde Sammler fora pronunciar-se sobre tema específico, saindo de lá escorraçado pelos alunos, sob a justificativa de que se tratava de um reacionário? Decerto que mandatários e discentes daquela instituição de ensino, ainda que as páginas assim descritas sejam ficcionais, poderiam acolhê-las como um insulto – e melhor se haveria o autor se configurasse tais desenlaces numa universidade com um nome fantasioso, inventado. Por que não?!

De qualquer modo, “O Planeta do Sr. Sammler” não é literatura prontamente dispensável, mas uma obra entre as melhores do autor, pelo refinamento de seus argumentos, pelo trato arrebatador da linguagem, pela sofisticada irreverência de muitas de suas reflexões.

J.A.R. – H.C.

 

Saul Bellow
(1915-2005)

 

Ele estava à procura do Cavaleiro da Fé, o prodígio verdadeiro. Esse prodígio verdadeiro, tendo equacionado as suas relações com o infinito, encontrava-se inteiramente à vontade no finito. Apto a carregar a joia da fé, fazendo os movimentos do infinito, e por isso não precisando nada mais além do finito, do costumeiro. Enquanto outros ainda andavam à procura do extraordinário no mundo. Havia também aqueles que queriam transformar-se naquilo diante do que os demais ficavam boquiabertos. Estes queriam ser os pássaros de penas lindas ou os peixes de formas esquisitas, as criaturas humanas cômicas. (BELLOW, 1982, p. 62-63)

 

Grandeza sem modelos? Era inconcebível. Ninguém podia ser a coisa em si – realidade. Era necessário contentar-se com símbolos. Faça disso o objeto da imitação e libere as qualidades mais altas. Estabeleça, pois, a paz com os intermediários e a representação. Mas escolha as representações mais altas, mais dignas, do contrário o indivíduo transformar-se-á no fracasso que agora vê e sabe que é. (BELLOW, 1982, p. 147)

 

A humanidade, embriagada pelo terror, poderia acalmar-se, recuperar o seu juízo. Embriagada pelo terror? Sim, e os fragmentos [...] compreenderiam; esta terra era um túmulo. Nossa vida estava emprestada a ela por seus próprios elementos, que tinham de lhe ser devolvidos: viria um tempo em que os elementos simples pareceriam demorar demais na libertação das formas mais complicadas de viver, quando cada elemento, cada célula, diria: “Agora chega!” O planeta era nossa mãe e a terra onde seríamos sepultados. Não havia como ficar admirado de que a humanidade quisesse deixá-lo. Quisesse abandonar o ventre prolífero, deixando ao mesmo tempo essa imensa sepultura. A paixão pelo infinito causada pelo terror, pelo timor mortis, tinha necessidade de acalmar-se materialmente. Timor mortis conturbat me. Dies iræ. Quid sum miser tunc dicturus [1]. (BELLOW, 1982, p. 178)

 

Todo mundo precisa ter as suas recordações. São elas que mantêm o lobo da insignificância afastado da porta. E tudo isso deverá continuar. Simplesmente continuará. Haverá mais seis bilhões de anos de vida da humanidade. Chega a paralisar o coração o contemplar tamanhas cifras. Seis bilhões de anos antes que o Sol venha a explodir. Seis bilhões de anos. E o que será de nós? Das outras espécies e de nós? Como chegaremos àquele fim? E quando tivermos de abandonar a Terra para seguir em direção a outro sistema solar, que dia mais portentoso será esse! Mas, então, a espécie humana terá se tornado muito diferente, pois a evolução continua. Olaf Stapledon [2] calculou que cada indivíduo do futuro viverá milhares de anos. A pessoa do futuro, de tamanho colossal, seria de um lindo colorido verde, com uma mão que terá evoluído, transformando-se numa espécie de caixa de instrumentos, ferramenta forte e sutil, o polegar e o dedo indicador capazes de exercer uma pressão de milhares de libras. Cada intelecto pertenceria a uma maravilhosa, analítica e coletiva mente, estudando e resolvendo seus problemas matemáticos e físicos, participando de um todo sublime. Seria uma raça de gigantes semi-imortais, esses nossos verdes descendentes, parentes e aparentados, levando, porém, em si, inevitavelmente, alguma forma das nossas amargas características, tanto como dos nossos poderes espirituais. A revolução científica estava apenas com trezentos anos. Como ficaria dentro de um milhão ou um bilhão de anos? E Deus? Continuaria escondido, mesmo destes irmãos poderosos no espírito, continuaria fora de alcance? (BELLOW, 1982, p. 186)

 

“Abençoados são os pobres de espírito. Pobre é aquele que nada tem. Aquele que é pobre de espírito torna-se receptivo a todo espírito. Ora, Deus é o Espírito dos espíritos. O fruto do espírito é o amor, a alegria e a paz. Procure libertar-se das criaturas, de toda consolação proveniente das criaturas. Pois, com certeza, enquanto as criaturas têm o poder de confortá-lo, nunca há de encontrar o verdadeiro conforto. Mas se ninguém mais pode dar-lhe conforto exceto o próprio Deus, então verdadeiramente Deus o confortará”. (MEISTER ECKHART apud BELLOW, 1982, p. 245) 

 

Capa da Obra
(Abril Cultural, 1982)


Notas:

[1] Segundo a tradutora Denise Vreuls, trata-se de excerto de um hino entoado em missas fúnebres, composto, provavelmente, pelo frade católico italiano Tomas de Celano (1185-1260) (BELLOW, 1982, n.r. 1, p. 178). Em tradução literal: “Timor mortis conturbat me. Dies iræ. Quid sum miser tunc dicturus.” [O temor da morte inquieta-me. Dia da ira. O que eu, miserável, hei de dizer.”]

[2] William Olaf Stapledon (1886-1950), filósofo inglês, famoso por suas obras de ficção científica, cujos protagonistas atormentam-se com seus conflituosos impulsos “superiores” e “inferiores”.

Referência:

BELLOW, Saul. O planeta do Sr. Sammler. Tradução de Denise Vreuls. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1982. (Série ‘Grandes Sucessos’)

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terça-feira, 10 de agosto de 2021

Erich M. Remarque - Nada de Novo no Front

Ao dar uma rearrumada no acervo de livros de que disponho em meu apartamento, deparei com um exemplar da obra em referência que já não sei quando e onde o adquiri, muito embora, certamente, há algumas décadas. Li-o em três dias e, julgando oportuno, sublinhei as passagens abaixo transcritas, uma vez que oferecem interessantes pensamentos e ‘insights’ do protagonista-narrador – Paul Bäumer – e de seus companheiros de luta, numa frente alemã em território francês, ao longo da Primeira Guerra Mundial.

“Nada de Novo no Front”, publicado originalmente em 1929, tem em seus capítulos finais – são 10 (dez) ao todo – a parte mais reflexiva da obra, quando Paul, pressentindo a morte próxima, entra num estado de ansiedade profunda em face de haver presenciado, aos poucos, a morte de cada um de seus colegas de companhia, a maior parte dos quais oriunda de uma mesma turma de certa instituição de ensino.

As descrições de cenas de combate são excruciantes, levando a crer que Remarque tenha-as presenciado de perto, pois muitas delas encerram estratégias que os combatentes costumam empregar em conflitos bélicos. No fim, contudo, somente a camaradagem do mesmo destino mortal a todos abraça.

Mesmo os laços íntimos com a família acabam por se romper, nesse jogo ilusório de brutalidade e de hipocrisia, travestido de patriotismo, glória, heroísmo, honra e dever para com a nação, ou que tais. Razão mesmo deve-se conceder a Wilfred Owen (1893-1918), poeta que tendo lutado por sua Inglaterra no mesmo conflito – e nele sucumbido aos 25 (vinte e cinco) anos –, logo vislumbrou as falácias de todos os discursos cívicos e ufanistas, redigindo um poema sobre a “velha mentira”: “Dulce et Decorum Est pro Patria Mori” (“Doce e honroso é morrer por seu país”).

Sem ser um livro que marque o leitor em definitivo sobre o tema dos conflitos bélicos, decerto o deixa mais permeável aos argumentos antiguerra. As pretensas razões para os embates distinguem-se das razões dos que, de fato, destinam-se aos campos de batalha: veja-se abaixo a solução jocosa sugerida pelo soldado Albert Kropp (em azul) – a semelhar-se ao circo dos combates reservados a gladiadores e guerreiros no Coliseu de Roma –, mas que bem se presta a apontar uma lança sobre o peito daquele que, pessoalmente, decide-se a dar início a uma guerra (outra coisa, bem diversa, é defender-se de um ataque armado!) – quando, então, haveria de expor a sua própria cabeça a prêmio, e não a de terceiros.

J.A.R. – H.C.

Eric M. Remarque
(1898-1970) 

Este livro não pretende ser um libelo nem uma confissão, e menos ainda uma aventura, pois a morte não é uma aventura para aqueles que se deram face a face com ela. Apenas procura mostrar o que foi uma geração de homens que, mesmo tendo escapado às granadas, foram destruídos pela guerra. (REMARQUE, 1981, p. 5)

 

Recebemos dez semanas de instrução militar; nesse período sofremos uma transformação mais radical do que em dez anos de escola. Aprendemos que um botão bem polido é mais importante do que quatro livros de Schopenhauer. No princípio, surpreendidos, depois amargurados e, finalmente, indiferentes, reconhecemos que o espírito não era o essencial, mas sim a escova de limpeza; não o pensamento, mas o “sistema”; não a liberdade, mas o exercício. Foi com entusiasmo e boa vontade que nos tornamos soldados; mas fizeram tudo para que perdêssemos a ambos. Depois de três semanas, não era de todo incompreensível que um canteiro, cheio de galões, tivesse mais autoridade sobre nós do que antigamente nossos pais, nossos professores e todos os gênios da cultura, de Platão a Goethe. (REMARQUE, 1981, p. 24)

 

Kropp, ao contrário, é um pensador. No seu entender, uma declaração de guerra deve ser uma espécie de festa do povo, com entradas e músicas, como nas touradas. Depois, os ministros e os generais dos dois países deveriam entrar na arena de calção de banho e, armados de cacetes, investirem uns sobre os outros. O último que ficasse de pé seria o vencedor. Seria mais simples e melhor do que isto aqui, onde quem luta não são os verdadeiros interessados. (REMARQUE, 1981, p. 39)

 

Para mim [Paul Bäumer], a frente é um redemoinho sinistro. Quando se está em águas calmas, ainda longe de seu centro, já se lhe sente a força de aspiração que nos arrasta, lenta e implacavelmente, sem encontrar muita resistência. Mas a terra e o ar fornecem-nos forças defensivas; principalmente a terra. Para nenhum homem a terra é tão importante quanto para um soldado. Quando ele se comprime contra ela demoradamente, com violência, quando nela enterra profundamente o rosto e os membros, na angústia mortal do fogo, ela é seu único amigo, seu irmão, sua mãe. Nela ele abafa o seu pavor e grita no seu silêncio e na sua segurança; ela o acolhe e o libera para mais dez segundos de corrida e de vida, e volta a abrigá-lo: às vezes, para sempre! (REMARQUE, 1981, p. 50)

 

Não somos mais a juventude. Não queremos mais conquistar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra. (REMARQUE, 1981, p. 76)

 

Estou agitado, mas não é isso que desejo, pois não está certo. Quero sentir novamente aquele deslumbramento calmo, aquela sensação poderosa e inexplicável que me envolvia quando me voltava para os livros. O vento dos desejos que então se desprendia das capas coloridas dos livros deve se apossar de mim novamente, para derreter o pesado bloco morto de chumbo que se encontra em algum lugar dentro de mim, e despertar de novo a impaciência do futuro, a alegria alada do mundo dos pensamentos; deve devolver-me a perdida disposição de minha juventude. Aqui estou, e espero. (REMARQUE, 1981, p. 140-141)

 

– Companheiro, não queria matá-lo. Se saltasse novamente aqui para dentro, não o faria, se você também fosse razoável. Mas, antes, você era apenas um pensamento, uma dessas abstrações que povoam meu cérebro e que exigem uma decisão... Foi essa abstração que apunhalei. Mas agora, pela primeira vez, vejo que é um ser humano como eu. Pensei nas suas granadas, na sua baioneta e no seu fuzil. Agora, vejo sua mulher, seu rosto e o que temos em comum. Perdoe-me, companheiro. Só vemos as coisas tarde demais. Por que não nos repetem sempre que vocês são também uns pobres-diabos como nós, que suas mães se inquietam como as nossas e que temos o mesmo medo da morte e morremos do mesmo modo, sentindo a mesma dor?... (REMARQUE, 1981, p. 179-180)

 

Como é inútil tudo quanto já foi escrito, feito e pensado, quando não se conseguem evitar estas coisas! Devem ser mentiras e insignificâncias, quando a cultura de milhares de anos não conseguiu impedir que se derramassem esses rios de sangue e que existam aos milhares estas prisões, onde se sofrem tantas dores. Só o hospital mostra realmente o que é a guerra. (REMARQUE, 1981, p. 209)

 

Sou jovem, tenho vinte anos, mas da vida conheço apenas o desespero, o medo, a morte e a mais insana superficialidade que se estende sobre um abismo de sofrimento. Vejo como os povos são insuflados uns contra os outros e como se matam em silêncio, ignorantes, tolos, submissos e inocentes. Vejo que os cérebros mais inteligentes do mundo inventam armas e palavras para que tudo isto se faça com mais requintes e maior duração. E, como eu, todos os homens de minha idade, tanto deste quanto do outro lado, no mundo inteiro, veem isto; toda a minha geração sofre comigo. Que fariam nossos pais se um dia nós nos levantássemos e nos apresentássemos a eles, para exigir que nos prestassem contas? Que esperam de nós, se algum dia a guerra terminar? Durante todos esses anos, nossa única preocupação foi matar. Nossa primeira profissão na vida. Nosso conhecimento da vida limita-se à morte. Que se pode fazer, depois disto? Que será de nós? (REMARQUE, 1981, p. 209-210)

Primeira Guerra Mundial: Trincheira Alemã
(Felix Schwormstaedt: ilustrador alemão)


Referência:

REMARQUE, Erich Maria. Nada de novo no front. Tradução de Helen Rumjanek. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1981. 232 p. (Série ‘Grandes Sucessos’)

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A banca nacional: a arte de comprar o mundo

Posto abaixo, excerto de uma entrevista que teria sido concedida, sob condição de anonimato, por CEO de um grande banco em São Paulo (SP) a Jessé Souza, renomado sociólogo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), autor também de “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Leya; 2017).

A entrevista completa aparece na obra recém-lançada “A classe média no espelho” (Estação Brasil, 2018), inserindo-se num contexto de caracterização de nova proposta, sugerida pelo autor, para as classes sócio-econômicas no país, uma vez que, segundo lhe parece, as classes comumente empregadas pelo IBGE em suas estatísticas, nomeadamente “A”, “B”, “C”, “D” e “E”, conforme a faixa de renda familiar, pouco dizem sobre o os elementos que as tipificam, diferenciando-as das demais.

Com efeito, Jessé levou à frente um rol de mais de 300 (trezentas) entrevistas para o seu trabalho, selecionando algumas delas para compor a obra, eis que verdadeiros tipos ideais, segundo o conceito weberiano, de cada uma das classes preconizadas, uma das quais a de que se trata neste momento.

Como o livro encontra-se no mercado editorial pátrio, à disposição de qualquer pessoa que se habilite em adquiri-lo, imagino que as instituições detentoras da competência para investigar o que ocorre ficam na obrigação de agir (Comissão de Ética Pública e Controladoria-Geral da União), assim como o próprio Banco Central, a quem não se dispensa de ter que se explicar para convencer o público em geral, de que os fatos não são assim como despontam na entrevista.

Para quem se dispuser a assistir, apresento abaixo o vídeo da entrevista concedida por Jessé Souza ao repórter Paulo Henrique Amorim, debatendo sobre as grandes linhas de argumentação tratadas na precitada obra.

Jessé Souza e P.H.A.
(23.10.2018)

J.A.R. – H.C.
Ω

SÉRGIO: O CEO DE UM BANCO EXPLICA
COMO SE COMPRA O MUNDO

E o que eles querem? [os maiores clientes dos bancos, que têm os seus recursos por eles geridos]
(...)
Todo mundo tem um preço. Até hoje não conheci quem não tivesse. E para todo negócio é necessário uma informação privilegiada aqui, um amigo no Banco Central ali, uma sentença comprada ali ou a influência de um ministro em Brasília acolá.
Além da compra direta, em dinheiro vivo ou depósito no exterior, a gente tem que paparicar constantemente os caras. Uma forma eficaz são os presentes constantes, sem a expectativa imediata de contrafavores. Isso gera simpatia. Às vezes você ganha até um “amigo”.
(...)
E o pagamento direto por serviços específicos?
Hoje em dia existem meios ainda mais eficazes de eliminar os riscos, mas este é nosso pulo do gato, e não posso lhe contar. Mas não fica rastro, posso assegurar. Esta, afinal, é a nossa mercadoria: a segurança no investimento. E, sendo um banco, tudo fica mais fácil. Não é só no caso do nosso banco: todos os bancos, inclusive os maiores, fazem a mesma coisa.
A mina de ouro de qualquer banco comercial ou de investimento é o Banco Central. Ali só entra gente nossa. E o país é gerido a partir do Banco Central, que decide tudo de importante na economia.
É lá que a zona cinzenta entre legalidade e ilegalidade define a vida de todos. Isso não aparece em nenhum jornal.
Podemos fazer qualquer tipo de especulação com o câmbio, como nos swaps cambiais, por exemplo. Se der errado, o Banco Central cobre o prejuízo. Não existe negócio melhor. Se der errado, o famoso Erário paga a conta. Quem controla toda a economia somos nós e a nosso favor, o Congresso nem apita sobre isso. Quando, muito eventualmente, decide sobre algo, apenas assina o que nós mandamos, essa é verdade que ninguém conhece porque não sai em nenhuma TV.
Claro que tudo é justificado como mecanismo de combate à inflação, e não para enriquecer os ricos. Para quem vê isso tudo funcionar a partir de dentro, como no meu caso, é até engraçado.
Essa é a estrutura legalizada pela opacidade do Banco Central e da dívida pública. Mas e os negócios ilegais mesmo?
Não existe negócio que não seja intermediado por um banco, seja legal ou ilegal. Essa história de operador e doleiro é coisa da Lava Jato e da imprensa para desviar a atenção da participação dos agentes financeiros.
Os bancos são completamente blindados porque inventaram um meio infalível de distribuir dinheiro para quem já tem muito poder e dinheiro. Falam de todo mundo menos de nós, que comandamos tudo.
Para mim, aí é que está o poder real, o poder do dinheiro. Na verdade, são os bancos os operadores e os doleiros, e todo o dinheiro sai de bancos, seja dinheiro limpo – na realidade, sempre dinheiro que foi tornado limpo –, seja dinheiro sujo. A não ser que você fabrique dinheiro em casa.
Aliás, parte do lucro dos bancos vem de lavar dinheiro e intermediar transações. Mas o grosso da grana vem do Banco Central, das remunerações de sobras de caixa – que são ilegais, mas sobre as quais ninguém diz nada –, das operações de swap cambial, dos títulos da dívida – enfim, o Banco Central é nossa mãe. É tudo escancarado, mesmo com inflação zero e o país na ruína.
Nosso lucro é legal, ou seja, legalizado, já que somos intocáveis e ninguém se mete conosco. Boa parte dos juízes e ministros de tribunais superiores, como todo mundo no meio sabe, advogam por interposta pessoa, e nós somos os principais clientes de alguns e de quem paga melhor. São os bancos que pagam as eleições do Congresso quase inteiro. Aí você pode legalizar qualquer coisa, qualquer papel sujo que a gente mande ao Congresso os caras assinam. Nesse contexto, onde se pode tudo, as operações abertamente ilegais são uma parte menor dos lucros, mas obviamente existem.
Se ninguém imprime notas de dinheiro no quintal, é óbvio que todo o dinheiro, inclusive todo dinheiro sujo, vem dos bancos, que retiram parte do seu lucro real intermediando essas relações e lavando esse dinheiro. Os bancos controlam o que você vai fazer com o dinheiro e todo dinheiro pode ser rastreado.
Toda transferência bancária tem um chip e, se você quiser saber de onde o dinheiro vem, dá para saber. Inclusive nas transações internacionais. Se a transferência é em dólar, tudo passa por Nova York e recebe um número. Mas ninguém quer saber, essa é a verdade.
Como os bancos mandam na imprensa, nos juízes e nos políticos, a intermediação de todo dinheiro ilegal jamais é denunciada. E se for denunciar, você é que acaba preso. Isso eu garanto.

Referência:

SOUZA, Jessé. Sérgio: o CEO de um banco explica como se compra o mundo. In: A classe média no espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Rio de Janeiro, RJ: Estação Brasil, 2018. p. 169-180.
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terça-feira, 28 de julho de 2015

W. G. Sebald - Austerlitz

Considerado por muitos como um dos grandes romances produzidos neste início de terceiro milênio, “Austerlitz”, do alemão W. G. Sebald, é leitura ao mesmo tempo árdua e fascinante. Ele trata, sem angústia ou sentimentalismo, a história de Jacques Austerlitz, contada por seu amigo, o narrador dos eventos do livro que, por inferência, bem pode ser o próprio Sebald.

Austerlitz, um historiador da arte em Londres, mais precisamente da Arquitetura, parte em busca de suas raízes, uma vez que desconhece as circunstâncias de sua infância. Nascido em 1939, em Praga, de pais judeus, foi mandado ainda criança, com quatro ou cinco anos, ao Reino Unido, para que pudesse ser salvo dos alemães.

O fato é que Austerlitz foi criado por pais adotivos no País de Gales, com o nome de Dafydd Elias, completando seus estudos em Oxford, após o que passou à carreira acadêmica.

Foi em suas andanças como pesquisador que ele, casualmente, se encontrou com o narrador, na Estação Central de Antuérpia, mais tarde, em Bruxelas, e, posteriormente, num passeio marítimo em Zeebrugge, oportunidades em que narrou os fatos que compõem a parte mais significativa do romance de que se trata.

Já adulto, Austerlitz volta à sua cidade natal, onde revê a sua antiga babá (Vera), que lhe fala sobre sua mãe (Ágata), presa num campo de concentração, e sobre o seu pai (Maximilian), desaparecido na França. Visita ainda Terezín, local onde sua mãe passou os seus derradeiros dias e onde há um museu em memória dos mortos, que quase ninguém frequenta.

A obra mescla texto com imagens, gravuras, fotos, fazendo o livro parecer um pequeno documentário, cuja pesquisa centra-se na própria memória dos acontecimentos. As imagens que perduram na mente do leitor são as estações de trem, paredes e arcos decorados, capitéis de colunas, cemitérios, água e muita névoa. Daí a sensação de hipnotismo que perpassa o livro. São particularmente belas as fotos da Estação Central de Antuérpia e do Palácio da Justiça de Bruxelas, ambos na Bélgica.

Uma observação final: tal como nas obras de José Saramago, o número de parágrafos existentes no livro de Sebald pode ser contado com apenas alguns dedos das mãos.

Nossa cotação para a obra (0-10): 8,5.

J.A.R. – H.C.

W. G. Sebald
Wertach, Alemanha: 1944
Norfolk, Reino Unido: 2001

Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mas me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos do mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera (SEBALD, 2008, p. 182).

Wertach
(Bavária - Alemanha)

Referência:

SEBALD, W. G. Austerlitz. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
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