Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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sábado, 17 de outubro de 2026

John L’Heureux - O Que Se Passa com os Gatos

Mais que um poema sobre a natureza misteriosa e inquietante dos gatos, estes versos são uma bem-humorada reflexão sobre a introspecção e a autoconsciência, a partir de um olhar externo, persistente e inescrutável, que obriga o ser humano a voltar-se para dentro de si mesmo, sobretudo em seus momentos mais vulneráveis ou íntimos.

 

Perceba-se que o autor norte-americano, ao categorizar os olhares dos bichanos, está, na realidade categorizando os incômodos que provocam nos humanos: os astutos, ícones da duplicidade e da falta de confiança, com os seus olhares furtivos, mas constantes; os inseguros, que nos levam a sentir pena ou desconforto; e os diretos, frontais e intensos, cujos olhares não podem ser ignorados, uma vez que paralisantes, forçando-nos à autorreflexão.

 

A pergunta final, arrogando a natureza catalisadora (talvez involuntária) do olhar felino – ainda que o falante negue explicitamente que o gato seja uma consciência moral – coloca-nos frente ao espelho de nossas próprias inseguranças, impondo-nos o encargo de questionar nossas ações e pensamentos, ou ainda melhor, obrigando-nos a manter em estado de alerta as nossas antenas, quer para o que contemplamos no mundo externo, quer para o que nos habita os escaninhos mais abstrusos do ser.

 

J.A.R. – H.C.

 

John L’Heureux

(1934-2019)

 

The Thing about Cats

 

Cats hang out with witches quite a lot;

that’s not it.

 

The thing about cats is

they’re always looking at you.

Especially when you’re asleep.

 

Some cats pretend they’re not looking

until you’re not looking.

They are not to be trusted.

 

Some cats scowl because they’re wearing

imitation fur. They feel inferior.

 

Some other cats look at you straight on

so that you can’t drink your drink

or make love

but keep thinking

that cat’s looking at me straight on.

 

But all cats do the same:

they look at you

and you look out

and in.

 

A cat is not a conscience; I’m not

saying that.

 

What I’m saying is

why are they looking?

 

Um gato malhado

(Abraham Cooper: pintor inglês)

 

O Que Se Passa com os Gatos

 

Os gatos convivem bastante com bruxas;

mas não é esse o ponto.

 

O problema com os gatos é

que sempre estão a te olhar.

Especialmente enquanto dormes.

 

Alguns gatos fingem que não te olham

até que deixes de os olhar.

Eles não são confiáveis.

 

Alguns gatos franzem o cenho porque usam

peles artificiais. Sentem-se inferiores.

 

Outros te olham fixamente,

de sorte que não consigas sorver a tua bebida

ou fazer amor,

mas que fiques a pensar

que mantêm-se a te olhar de frente.

 

Contudo, todos os gatos fazem o mesmo:

olham para ti

e tu olhas para fora

e para dentro.

 

Um gato não é uma consciência; não estou

dizendo isso.

 

O que estou dizendo é:

por que te olham?

 

Referência:

 

L’HEUREUX, John. The thing about cats. In: FRAGOS, Emily (Sel. & Ed.). The great cat: poems about cats. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2005. p. 57-58. (Everyman’s Library Pockets Poets)

ö

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Denise Levertov - O Gato como Gato

Este poema vai bem além do que falar de um gato no colo de sua dona, pois que tenciona levantar a tese de que o felino, mais que um símbolo de independência ou mistério, simplesmente é um gato – e esse ser se mostra suficiente em sua condição de ser o outro, em sua inabarcável integridade e autonomia.

 

Explico-me melhor: o tema à volta do qual são os versos suscitados diz respeito à essência do real e aos limites da linguagem humana para capturá-la. Para tanto, a poetisa emprega duas metáforas contrapostas para caracterizar o bichano, uma de natureza estética – “crisântemo de pétalas peludas” –, outra mais especificamente instintiva e mortal – “algoz de esquilos”.

 

Mas tenha-se em mente que Levertov questiona esse recurso à metáfora – ferramenta fundamental do poeta! –, pois que lhe parece ser uma espécie de filtro que nos separa da realidade imediata: o olhar de um gato é um umbral fechado que não nos devolve uma imagem de nós mesmos, como se parelha ao nosso cogitar romântico, a vislumbrar a alma nos olhos de um animal.

 

Ao final, deliberadamente ou não, a poetisa lança mão de um termo que se tornou título de uma das obras mais referenciadas do pensador austro-israelense Martin Buber (1878-1965) – “Eu e Tu”, de 1923 –, mediante o qual personaliza o felino como um “Tu” completo, um ser com o qual se encontra num plano de igualdade ontológica, não como um “Isso”, numa relação de uso, experiência ou objetificação – a exemplo de quando “forçamos” o gato a ser uma metáfora, para nosso deleite poético ou intelectual.

 

J.A.R. – H.C.

 

Denise Levertov

(1923-1997)

 

The Cat as Cat

 

The cat on my bosom

sleeping and purring

– fur-petalled chrysanthemum,

squirrel-killer –

 

is a metaphor only if I

force him to be one,

looking too long in his pale, fond,

dilating, contracting eyes

 

that reject, mirrors, refuse

to observe what bides

stockstill.

 Likewise

 

flex and reflex of claws

gently pricking through sweater to skin

gently sustain their own tune,

not mine. I-Thou, cat, I-Thou.

 

O Gato Branco

(Franz Marc: pintor alemão)

 

O Gato como Gato

 

O gato em meu colo,

adormecido e ronronante

– crisântemo de pétalas peludas,

algoz de esquilos –

 

só é uma metáfora se eu

o forçar a sê-lo,

fitando por muito tempo os seus olhos

pálidos, afetuosos, que se dilatam e se contraem,

 

que rejeitam, espelham, recusam-se

a observar o que permanece

imóvel.

Do mesmo modo,

 

o fletir e o retrair das garras,

que delicadamente perfuram o suéter até a pele,

sustentam o passo leve de sua própria melodia,

não a minha. Eu-Tu, gato, Eu-Tu.

 

Referência:

 

LEVERTOV, Denise. The cat as cat. In: __________. The life around us: selected poems on nature. 2nd print. New York, NY: New Directions, 1997. p. 4.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Walmir Ayala - Poema a um Gato

Ayala nos mostra o quanto o gato tem um lugar único no imaginário poético, com uma presença algo etérea – naturalmente elegante e fluida – a encarnar a verdadeira natureza do noturno – o mistério, o intangível, o que está para além do visível –, como se detentor fosse de um conhecimento, último e silencioso, que as palavras humanas não conseguem expressar.

 

O gato teria, com efeito, uma natureza sigilosa e não intrusiva, à maneira de um sentimento de remorso, eis que nos costuma assaltar de modo espontâneo e silencioso, porém intenso – e amiúde na solidão da noite: vê-se, no caso, uma associação do felino com a dinâmica da introspecção humana, sitiada por pensamentos que a visitam na escuridão e pousam sobre a consciência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walmir Ayala

(1933-1991)

 

Poema a um Gato

 

Te encontramos na noite,

e eras maior que a noite,

mais integral e sombrio.

 

Eras de seda derramada em movimento

e me buscavas sempre com olhar e silêncio

como se quisesses dizer a última palavra,

a única.

 

Tu vieste na noite

sem luz e sem rumor

como o pensamento de remorso.

 

E te estendeste esguiamente sobre a minha solidão.

 

Mulher dormindo com um gato

(Władysław Ślewiński: pintor polonês)

 

Referência:

 

AYALA, Walmir. Poema a um gato. In: ___________. Antologia poética. Rio de Janeiro, GB: Editora Leitura, ago. 1965. p. 16.

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Maurice Rollinat - Asseio

O poeta captura os gestos quotidianos de um gato em seu protocolo de asseio, com um toque de humor e admiração: Rollinat vai bem além da mera descrição dos movimentos e da entrega completa do felino a esse ritual quase sagrado, pois que, com um olhar percuciente, tenta apreender o lado mais manifesto de seu refinamento e natural magnetismo.

 

Trata-se de um ato não somente funcional, mas também estético, já que o bichano busca melhorar a sua aparência, ainda que tal preocupação possa ter algo de instintivo, notadamente ao vivenciar os seus momentos de liberdade, autonomia e intimidade – neste último caso, alinhando-o a um bom estado para o flerte que costuma empreender em suas caminhadas sobre as telhas cobertas de musgo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Maurice Rollinat

(1846-1903)

 

Toilette

 

À l’œuvre maintenant! Toilette et gratterie

L’absorbent tout entier. Le chat,

Si propre tel qu’il est, si bien peigné déjà,

Se lisse avec coquetterie.

 

Que par hasard un poil se colle sur sa langue,

Pour l’avaler, le miauleur

Grimace en mâchonnant, fait comme un beau parleur

Qui s’empêtre dans sa harangue.

 

A piochement de tête onduleux, brusque et drôle,

II se râpe le bas du cou;

Des griffes et des dents il insiste beaucoup

Aux démangeaisons de l’épaule.

 

Son opération, d’un arrêt s’entrecoupe:

II tend son regard et son flair,

Et le col et les reins en arc, et la cuisse en l’air,

Lèche les abords de sa croupe.

 

Sans voir ce que la pluie en tapotant gribouille

Sur la crasse de son carreau,

II humecte longtemps le caoutchouc noiraud

De sa patte, et se débarbouille.

 

Éveillée à présent, mutine se détache

Sur un fond d’ombre vague aux clairs-obscurs tremblants,

Sa frimousse qui montre espacés et tout blancs

Les poils raides et droits lui servant de moustache.

 

Mais la pluie a cessé. Quelqu’un entre soudain.

Le matou sort d’un bond, gagne cour et jardin,

Et bientôt on le voit marchant à pas tranquilles

Au long du vieux chenal, sur la mousse des tuiles.

 

Dans: “Les Bêtes” (1911)

 

Um gatinho lambendo a pata

(Henriëtte Ronner-Knip: artista belgo-holandesa)

 

Asseio

 

Mãos à obra! O asseio e o afiar das garras

Absorvem-no por inteiro. O gato,

Limpo assim como está, já bem desemaranhado,

Lustra-se todo com sobejo donaire.

 

Se por acaso um pelo se lhe agarra à língua,

Para o engolir, o bichano

Careteando ao mastigá-lo, age como um loquaz prosista

Que se enreda em sua arenga.

 

Com um menear ondulante da cabeça, brusco e cômico,

Põe-se a lustrar a base do pescoço;

Com as garras e os dentes, muito se obstina

Em fazer cessar a comichão em seu ombro.

 

Sua operação interrompe-se por uma pausa:

Apura o olhar e o olfato,

E com o colo e os lombos em arco, e o fêmur no ar,

Lambe as bordas de seu traseiro.

 

Sem se dar conta do salpicar da chuva ao cair

Sobre a fuligem dos ladrilhados por onde vagueia,

Umedece por bastante tempo os coxins enegrecidos

De suas patas e os lava.

 

Desperto agora, destaca-se amotinado

Contra um fundo de sombras vagas em trêmulos claros-escuros,

Com o rosto a mostrar os pelos lisos e retos

Que lhe compõem o bigode, espaçados e brancos por inteiro.

 

Entrementes a chuva cessou. Alguém entra de repente.

O gato sai de um salto, chega ao pátio e ao jardim,

E logo o vemos a caminhar tranquilamente

Ao longo da velha calha, sobre o musgo das telhas.

 

Em: “Os Animais” (1911)

 

Referência:

 

ROLLINAT, Maurice. Toilette. In: NOVARINO-POTHIER, Albine (Éd.). Le chat em 60 poèmes. Paris, FR: Omnibus, 2013. p. 16-17.

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