Este blog adota o nome de personagem do romance “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, em homenagem a um dos maiores escritores do Século XX. Conhecer a obra de Mann é navegar, intensamente, no melhor que a mente humana foi capaz de produzir, em termos literários, na primeira metade da centúria passada: da imersão em sua obra jamais você, leitor, sairá do mesmo jeito que entrou. Certamente, poucos autores estarão à mesma altura para lhe oferecer ideias e o encanto da beleza!
Para os amantes do rock, como este que
vos escreve, vai aqui uma interpretação de Toto para a clássica “While My
Guitar Gently Weeps”, de George Harrison (The Beatles, 1968), meio ao estilo “rock ballad”.
Cox nos fala das falsas amizades que temos, ou melhor, daquelas que só
permanecem ao nosso lado para usufruir alguma coisa que derive de nossas
posses, pela temporada que, no alto, perdurar a espiral de afluxo de riqueza e
bens em nosso favor. Passada essa fase, você permanecerá sozinho, até pôr-se
novamente de pé – quando, então, todos quererão ser o velho amigo que esteve
sumido por muito tempo!
De fato, este poema é uma letra para uma composição tantas vezes gravada
e regravada, desde que o seu autor a lançou em 1923. No vídeo abaixo, pode-se
ver o cantor e compositor inglês Eric Clapton interpretando-a, com pequenas
variações no conteúdo da letra da canção.
J.A.R. – H.C.
Jimmie Cox
(1882-1925)
Nobody Knows You When You’re Down and
Out
Once I lived my life
as a millionaire
Spending my money and
I didn’t care
Taking my friends out
for a mighty fine time
Drinking high-priced
liquor, champagne, and wine
When I began to fall
low
I didn’t have a
friend and no place to go
If I ever get my
hands on a dollar again
I’m gonna hold it
till the eagle grins
Nobody knows you
When you’re down and
out
In your pocket, not
one penny
And your friends, you
haven’t any
But as soon as you
get on your feet again
Everybody wants to be
your long lost friend
It’s might strange,
without a doubt
Nobody knows you when
you’re down and out
Arruinado depois de 1898
(László Mednyánszky:
pintor húngaro)
Ninguém Te Conhece Quando Estás
Arruinado
Uma vez gozei a vida
como um milionário,
Gastando meu dinheiro
sem dar-lhe importância,
Levando meus amigos a
passar por muito bons momentos,
Bebendo licor,
champanhe e vinho caros.
Logo comecei a cair ao
nível mais baixo,
Não tinha nenhum
amigo, nem lugar aonde ir.
Se alguma vez voltar
a ter um dólar em minhas mãos,
Vou mantê-lo até que
a águia (*) exiba o seu sorriso.
Ninguém te conhece
Quando estás
arruinado.
Em teu bolso nenhum
centavo,
De teus amigos,
nenhum te resta;
Porém assim que voltares
a te levantar,
Todo mundo quererá
ser teu amigo sumido
há bastante tempo.
É deveras estranho,
sem dúvida:
Ninguém te conhece quando
estás arruinado.
Nota:
(*). Faz-se referência à águia presente
no papel-moeda do dólar, do que se deduz que a expressão queira dizer, mais ou
menos, “até que a sorte volte a sorrir para mim”.
Referência:
COX, Jimmie. Nobody knows you when
you’re down and out. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin
Books, 2003. p. 262.
Mais um poeta desamparado pela perda de
um ente querido (rs): o irlandês Kavanagh caminha pelos logradouros da cidade, e
em todos os homens de idade avançada vê a figura de seu próprio pai, já
ausente.
É um estado mental que revela a não
assimilação completa do fenômeno da perda, a morte como experiência capaz de
provocar ranhuras indeléveis no espírito de quem ficou: faz ou não lembrar o eloquente
exemplo da letra de “Canção da América” (1980), de Milton Nascimento e Fernando
Brant?!
J.A.R. – H.C.
Patrick Kavanagh
(1904-1967)
Memory of My Father
Every old man I see
Reminds me of my
father
When he had fallen in
love with death
One time when sheaves
were gathered.
That man I saw in
Gardiner Street
Stumble on the kerb
was one,
He stared at me
half-eyed,
I might have been his
son.
And I remember the
musician
Faltering over his
fiddle
In Bayswater, London,
He too set me the
riddle.
Every old man I see
In October-coloured
weather
Seems to say to me:
“I was once your
father”.
Ancião com uma
corrente de ouro
(Rembrandt: pintor
holandês)
Lembrança de Meu Pai
Cada velho que vejo
Faz-me lembrar de meu
pai
Quando se afeiçoou
pela morte
Certa vez quando se
recolhiam as gavelas.
Aquele homem que vi
em Gardner Street
A tropeçar no
meio-fio era um deles,
Olhou-me com olhos
semicerrados;
Eu poderia ter sido
seu filho.
E me recordo do
músico
Vacilante sobre o seu
violino
Em Bayswater,
Londres;
Ele também me impôs o
enigma.
Cada velho que vejo
No tempo colorido de
outubro
Parece me dizer:
“Uma vez já fui seu
pai”.
Canção da América
Álbum: Sentinela (1980)
(Milton Nascimento e
Fernando Brant)
Referência:
KAVANAGH, Patrick. Memory of my father.
In: BENSON, Gerard; CHERNAIK, Judith; HERBERT, Cicely (Eds.). Best poems on the
underground. 1st. publ. London, EN: Weidenfeld & Nicolson, 2009. p. 146.
Este belo poema do poeta em epígrafe –
note-se, de vida curta, eis que faleceu aos 23 anos, de uma hipertrofia
cardíaca – é todo voltado à representação de passagens imortalizadas na ópera “A
Valquíria”, de Richard Wagner, uma das que compõem a tetralogia “O Anel de
Nibelungo”.
Percebe-se a ênfase que Almeida atribui
ao ressurgimento da lenda nórdica das amazonas no trabalho de recriação
artística do compositor alemão, lenda que, a bem dizer, também se encerra nos
grandes veios da cultura dos povos germânicos.
Cavalgada das
Valquírias
(Richard Wagner)
J.A.R. – H.C.
Moacir de Almeida
(1901-1924)
Cavalgada das
Valquírias(1)
Ouve-se o resfolgar
das Valquírias radiosas,
Soluçando através das
músicas violentas;
E arrojam-se os
corcéis nas nuvens procelosas,
Acordando os trovões
e arrastando as tormentas.
As Valquírias! Há um
luar de seios e de braços
Passando em
turbilhões de lírios... Há um clamor
Nas montanhas... É o
sol que atravessa os espaços,
Amortalhando o céu no
manto abrasador.
E elas voam, soltando
as louras cabeleiras
Nas músicas,
prendendo as notas nos cabelos...
E os cascos dos
corcéis abrem nas cordilheiras
Renos (2)
de estrelas, entre as pedras e entre os gelos.
Da boca dos clarins,
das cordas dos violinos,
Elas surgem, revoando
e constelando o azul:
São tantas que, nos
céus, os seus vultos divinos
Cobrem o espaço como
os galhos da Ermensul.(3)
As Valquírias! Lá
vão, entre dilúvios de astros,
Com os gládios a
escorrer de raios fulminantes.
E as águias brancas,
no ar, vão-lhe seguindo os rastros,
Abrindo à aurora roxa
as asas coruscantes.
E os deuses do
Valhala(4) elevam-se, clamando.
Tor(5)
fulgura: – “Quem ousa acordar o trovão?”
– “Nós já morremos” –
brame Odin(6) no azul nefando.
(E uivam, brancos de
luz, os lobos da amplidão.)
“Quem vos
ressuscitou, fantasmas de harmonia,
– carne de luz e som,
no turbilhão superno?(7)
Que braço vos arrasta
à vastidão sombria?
Que mão vos arrancou
do crepúsculo eterno?”
E elas rugem,
correndo em seus corcéis de bruma:
– “Viemos do coração
de Wagner...” E os clarões
Dos seus corpos de
som abrem os astros, numa
Via-Láctea infernal
de gládios e visões...
Cavalgada das
Valquírias
(William T. Maud:
pintor britânico)
Elucidário:
(1) Na mitologia nórdica, as Valquírias
eram amazonas montadas em corcéis que tinham por missão transportar as almas
dos guerreiros mortos nas batalhas para o Palácio de Odin (Valhala);
(2) Flexão sobre a palavra Reno, o rio que
corta vários países da Europa, entre eles a Alemanha;
(3) Símbolo religioso dos pagãos saxônicos
da Westfália, representado por um carvalho ou por pilares de madeira;
(4) Palácio onde as almas dos guerreiros
mortos em combate eram recebidas para servir ao deus Odin;
(5) Tor ou Thor, filho de Odin, é a divindade
nórdica pagã que rege os trovões e as batalhas;
(6) Deus principal do clã dos deuses Asses
(Æsir), o mais importante entre os da mitologia nórdica;
(7) Que tem poder absoluto, supremo.
Referência:
ALMEIDA, Moacir de. Cavalgada das
Valquírias. In: __________. Gritos bárbaros. Rio de Janeiro: Benjamim
Costallat & Miccolis Editores, 1925. p. 114-115.
Já aqui postamos um
belo poema de Ferreira Gullar, musicado pelo cantor Fagner, no álbum de 1981.
Agora o repetimos com um finíssimo soneto da poetisa portuguesa Florbela
Espanca, abaixo transcrito.
A arte de Florbela é quase toda um
espasmo de erotismo, feminilidade e panteísmo, em meio a uma vida conturbada,
tanto mais por sua rejeição aos costumes provinciais e à sensação de perda e
abandono ao longo de sua curta vida.
J.A.R. – H.C.
Florbela Espanca
(1894-1930)
Fumo
Longe de ti são ermos
os caminhos,
Longe de ti não há
luar nem rosas,
Longe de ti há noites
silenciosas,
Há dias sem calor,
beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois
velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites
invernosas...
Abertos, sonham mãos
cariciosas,
Tuas mãos doces,
plenas de carinhos!
Os dias são outonos:
choram... choram...
Há crisântemos roxos
que descoram...
Há murmúrios dolentes
de segredos...
Invoco o nosso sonho!
Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor,
pelos espaços,
Fumo leve que foge
entre os meus dedos!...
Em: Livro de “Sóror
Saudade” (1923)
“Fumo”: musicado e
interpretado por Fagner
(Álbum de 1982)
Referência:
ESPANCA, Florbela. Fumo. In:
__________. Poemas. Estudo introdutório, organização e notas de Maria
Lúcia Dal Farra. 1. ed., 5. tiragem (2010). São Paulo, SP: Martins Fontes,
1996. p. 173.
Hoje é o dia oficial de aniversário da cidade do Rio de Janeiro, a “Cidade
Maravilhosa”, ex-capital da república (assim, com “r” minúsculo), para a sua
felicidade!, pois, desse modo, se viu livre de toda essa escória que fica a
menos de 4 (quatro) km de onde resido (rs)...
E para homenageá-la, deixo abaixo o “link” para um vídeo com o álbum
integral “Bênção, Bossa Nova”, de 1989, gravado pela paraense – como este que
vos escreve – Leila Pinheiro. Afinal, há alguma coisa mais carioca do que a Bossa
Nova?!...
O álbum é simplesmente espetacular, com uma seleta do que, certamente,
há de melhor sobre o precitado movimento, com muitas composições, v.g., de Tom
Jobim – um carioca que amou a cidade como ninguém!
Na década de 80, o cantor e compositor Fagner musicou belos poemas de
alguns nomes da literatura, como, v.g., Fernando Pessoa, Florbela Espanca e
Ferreira Gullar – sendo da autoria deste último o poema que a seguir se
transcreve.
O poema, em sua temática, revela a inconstância do ser, que migrando de
um polo a outro, põe em questão a estrutura mesma da realidade. Pergunta-se
então no poema: será arte a habilidade de traduzir, de uma à outra ponta, as
manifestações duais que nos assolam? Ou de outra forma: converter em linguagem aquilo
que nos desassossega?
J.A.R. – H.C.
Ferreira Gullar
(n. 1930)
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão;
outra parte
estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
Será arte?
Traduzir-se
Fagner (1981)
Referência:
GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. In:
__________. Os melhores poemas de
Ferreira Gullar. 2. ed. São Paulo, SP: Global, 1985. p. 144-145. (‘Os Melhores Poemas’; v. 3)
Tristeza a permear a mente de Manuel Alegre. Contradição?! (rs). Brincadeira
à parte, o que o poeta de fato retrata é o sentimento que dá fluxo aos
vaticínios com os quais se instrumentaliza o Fado, para ir bem fundo na alma
lusitana...
E para acompanhar tamanha tristeza, nada melhor do que um fado bem
popular – “Tudo isto é Fado” – na voz de uma intérprete lá de Belém do Pará,
ela própria proveniente de uma família de portugueses: Fafá.
J.A.R. – H.C.
Manuel Alegre
(n. 1936)
Soneto
É preciso saber
porque se é triste
é preciso dizer esta
tristeza
que nós calamos
tantas vezes mas existe
tão inútil em nós tão
portuguesa.
É preciso dizê-la é
preciso despi-la
é preciso matá-la
perguntando
porquê esta tristeza
como e quando
e porquê tão submissa
tão tranquila.
Esta tristeza que nos
prende em sua teia
esta tristeza aranha
esta negra tristeza
Que não nos mata nem
nos incendeia
Antes em nós semeia
esta vileza
e envenena o nascer
de qualquer ideia.
É preciso matar esta
tristeza.
Em: “Praça da Canção” (1965)
Tudo isto é Fado
(Frederico Carvalho e
Aníbal Nazaré)
Interpretação de Fafá
de Belém
Referência:
ALEGRE, Manuel. Soneto. In: __________. Corazón polar y otros poemas: antología poética. Edición bilingüe.
Prólogo de João de Melo. Traducción al español de María Tecla Portela Carreiro.
Madrid, ES: Huerga y Fierro Editores, 2003. p. 72.
Eis aqui um poema de Goethe no qual uma pastora descuidada acaba por
destruir uma bela violeta que em seu caminho estava, numa evidente metáfora de
seu descaso pelo afeto manifestado pelo jovem poeta.
O poema foi musicado por Mozart, com pequenas alterações. Alterada do
mesmo modo, como se vê, a tradução ao português, de autoria do escritor brasileiro
Múcio Leão, que de um original em três estrofes, transformou o poema em seis estrofes
de quatro versos.
J.A.R. – H.C.
Johann Wolfgang von Goethe
(1749-1832)
Retrato de Angelica Kauffmann
Das Veilchen
Ein Veilchen auf der Wiese stand
Gebückt in sich und unbekannt;
Es war ein herzigs Veilchen.
Da kam eine junge Schäferin
Mit leichtem Schritt und munterm Sinn
Daher, daher,
Die Wiese her, und sang.
Ach! denkt das Veilchen, wär ich nur
Die schönste Blume der Natur,
Ach, nur ein kleines Weilchen,
Bis mich das Liebchen abgepflückt
Und an dem Busen matt gedrückt,
Ach nur, ach nur
Ein Viertelstündchen lang!
Ach! aber ach! das Mädchen kam
Und nicht in acht das Veilchen nahm,
Ertrat das arme Veilchen.
Es sank und starb und freut’ sich noch:
Und sterb ich denn, so sterb ich doch
Durch sie, durch sie
Zu ihren Füßen doch.
Violeta
(Ysabel LeMay: artista canadense)
Violeta
Esquecida no prado,
debruçada
Sobre si mesma,
humilde e dolorosa
A violeta vivia e era
ignorada
Da noite negra e da
manhã radiosa.
Eis que na curva do
caminho breve
Uma linda visão de
mulher passa.
Vem, vai chegando,
alegre, suave e leve
Uma pastora toda
encanto e graça.
“Ai de mim!” – pensa
a flor – “Ai se eu pudesse
Ser a mais bela flor
da natureza
Para que a doce amada
me colhesse
E no seio me
trouxesse presa!
Ai se somente por um
breve instante
Sobre o seu seio
claro eu repousasse!
Se eu lhe beijasse a
carne palpitante
E com o seu doce
aroma a perfumasse!”
Mas ah! Veio a pastora
indiferente
Nem atentou para a
florzinha escrava!
Pisou a pobre... E a
pobre alegremente
Ao ser calcada,
trêmula, pensava:
“Ai que delícia, a de
morrer agora,
A de morrer, cheia de
amor infindo,
Pisada assim pela
gentil pastora.
Pisada assim pelo seu
pé tão lindo!”
Arleen Auger
(“Das Veilchen”: W. A.
Mozart)
Referências:
Em Alemão
GOETHE, Johann Wolfgang von. Das veilchen. In: __________. 103 great poems / 103 meistergedichte.
A dual-language book. Edited and translated by Stanley Appelbaum. Mineola, NY:
Dove Publications Inc., 1999. p. 24.
Em Português
GOETHE, Johann Wolfgang von. A violeta. Tradução de Múcio Leão. In: JACKSON, W. M., INC. (Eds.). Tesouro da juventude: livro da poesia.
São Paulo, SP: Gráfica Editora Brasileira Ltda., 1956. Vol. XI, p. 190.