Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

James Oppenheim - O Escravo

Um poema que retrata a dura realidade dos escravos que, de uma hora para outra, foram libertados por um dispositivo legal, mas sem qualquer meio para se manterem, de fato, livres, como cidadãos íntegros, capazes de viver uma vida no sentido mais genuíno da palavra.

Uma realidade que também foi a brasileira, de tal forma que até hoje se veem os efeitos da pobreza muito mais acentuados no componente negro da população, em combinação com a discriminação que lhe é direcionada pelo grupo mais aquinhoado.

Oppenheim vai mais além, quando alude a um tipo de escravidão que não é só física, mas sobretudo mental: somos fisicamente livres, mas mentalmente escravizados! E muito mais escravos somos quanto menos somos capazes de dar rumo independente em nossas vidas!

J.A.R. – H.C.

James Oppenheim
(1882-1932)

The Slave

They set the slave free, striking off his chains...
Then he was as much of a slave as ever.

He was still chained to servility,
He was still manacled to indolence and sloth,
He was still bound by fear and superstition,
By ignorance, suspicion, and savagery...
His slavery was not in the chains,
But in himself....

They can only set free men free...
And there is no need of that:
Free men set themselves free.

O Senhor é o meu Pastor
(Eastman Johnson: pintor norte-americano)

O Escravo

Libertaram o escravo quebrando-lhes as correntes
E ele ficou mais escravo do que nunca.

Trazia consigo os ferros do servilismo,
As algemas da indolência e da preguiça,
as cadeias do temor e da superstição,
da ignorância, da desconfiança, da barbárie...
Sua escravidão não estava nas correntes,
mas nele próprio.

Somente os homens livres se libertam...
E nem isso é necessário:
Os homens livres libertam-se sozinhos.

Referências:

Em Inglês

OPPENHEIM, James. The slave. In: UNTERMEYER, Louis (Ed.). Modern american poetry and modern british poetry. Combined Mid-Century Edition. New York, NY: Harcourt, Brace and Company, 1950. 1st section: p. 298.

Em Português

OPPENHEIM, James. O escravo. Tradução de Sérgio Milliet. In: MILLIET, Sérgio (Seleção e Notas). Obras-primas da poesia universal. 3. ed. São Paulo, SP: Livraria Martins Editora, 1957. p. 273.
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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cassiano Ricardo - Ode Pastoril

Ricardo associa os polos do binômio espaço x tempo, tão explorado na Física, às experiências, respectivamente, da vida e da morte. Diz ele que esparge entre cada um desses extremos o rebanho de estrelas de que é detentor.

Há somente manhãs e amanhãs no dicionário lírico do poeta, nascer e porvir que, desse modo, não libera tempo para olhares retrospectivos: tudo são experiências próprias, de primeira mão, num firme avançar que só há de terminar com o ocaso.

J.A.R. – H.C.

Cassiano Ricardo
(1895-1974)

Ode Pastoril

A paisagem é minha
só porque tenho olhos.
O pássaro é meu
só porque tenho ouvidos.

Amo com a mão as coisas
que o estar aqui me deu.
No universal verde,
sou meu ser, não sou eu.

Em meu léxico lírico
só existem duas palavras,
e uma é irmã da outra:
a manhã e o amanhã.

Sinto que o espaço é a vida
e que o tempo é a morte.
E ponho, entre uma e outra,
Meu rebanho de estrelas.

Torres de Rocamadour (França)
(Thomas Wells Schaller: pintor norte-americano)

Referência:

RICARDO, Cassiano. Ode pastoril. In: __________. O arranha-céu de vidro. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 105.
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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Stéphane Mallarmé - O Castelo da Esperança

Neste sugestivo poema, Mallarmé se compraz em apenas tocar o cabelo de sua musa, desatando as tranças em ondas, para transformá-lo em bandeira da vitória, depois de atravessar terríveis paisagens, para fazer cerco ao fortificado castelo da esperança.

Retornando à lucidez de seu precipitado arrebatamento, o poeta percebe, ao fim, que a esperança é apenas um velado e estéril espectro sitiado num baluarte, a lamuriar-se apaticamente, entre arrepios e mansuetudes, sem que um pálido astro irrompa como um gato preto na noite escura.

J.A.R. – H.C.

Stéphane Mallarmé
(1842-1898)

Le Château de l’Espérance

Ta pâle chevelure ondoie
Parmi les parfums de ta peau
Comme folâtre un blanc drapeau
Dont la soie au soleil blondoie.

Las de battre dans les sanglots
L’air d’un tambour que l’eau défonce,
Mon coeur à son passé renonce
Et, déroulant ta tresse en flots,

Marche à l’assaut, monte, – ou roule ivre
Par des marais de sang, afin
De planter ce drapeau d’or fin
Sur un sombre château de cuivre

– Où, larmoyant de nonchaloir,
L’Espérance rebrousse et lisse
Sans qu’un astre pâle jaillisse
La Nuit noire comme un chat noir.

Jardim do castelo à noite com a Lua
refletindo sobre as águas do porto de Nova York
(Jasper Francis Cropsey: pintor norte-americano)

O Castelo da Esperança

Teu flavescente cabelo ondula
Por entre os aromas de tua pele
Como meneia uma bandeira branca
Cuja seda tem reflexos louros ao sol.

Cansado de percutir em meio a soluços
O ar de um tambor que o pranto avariou,
Meu coração renuncia ao seu passado
E, desatando tuas tranças em ondas,

Parte ao ataque, monta, – ou rola ébrio
Por pântanos de sangue, a fim de
Cravar essa bandeira do ouro mais fino
Sobre um sombrio castelo de cobre.

– Ali onde, chorando apaticamente,
A Esperança se encrespa e se anedia
Sem que um pálido astro irrompa
Como um gato preto na noite escura.

Referência:

MALLARMÉ, Stéphane. Le château de l’espérance. In: __________. Collected poems and other verse. New translation by E. H. and A. M. Blackmore with parallel french text. With an introduction by Elizabeth McCombie. Oxford, UK: Oxford University Press, 2006. p. 188 and 190.
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sábado, 18 de fevereiro de 2017

José Saramago - Azinhaga do Ribatejo

 
AZINHAGA DO RIBATEJO
  
“Devemos reconhecer que a literatura não transforma socialmente o mundo, que o mundo é que vai transformando, e não só socialmente, a literatura. É ingênuo incluir a literatura entre os agentes de transformação social. Reconheçamos que as obras dos grandes criadores do passado não parecem ter originado, em sentido pleno, nenhuma transformação social efetiva, embora tendo uma forte influência em comportamentos individuais e de geração. A humanidade seria hoje exatamente a mesma que é se Goethe não tivesse nascido. A literatura é irresponsável, mas não se pode imputar-lhe nem o bem nem o mal da humanidade. Pelo contrário, ela atua como um reflexo mais ou menos imediato do estado das sociedades e de suas sucessivas transformações”. (SARAMAGO, 2010, p. 182)

“Saramago: ‘La posibilidad de lo imposible, los sueños e ilusiones, son la materia de mi escritura’”, ABC, Madri, 20 de abril de 1989 [Entrevista a Jesús Fonseca].

José Saramago
(1922-2010)

Referência:

SARAMAGO, José. As palavras de Saramago: catálogo de reflexões pessoais, literárias e políticas. Organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2010.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Emily Dickinson - Para as assombrações, desnecessária é a alcova

Um poema de Emily Dickinson e duas traduções: uma um pouco mais livre em relação ao original, atendo-se ao sentido e à interpretação que Ivo Bender extraiu das palavras da poetisa; e outra bem mais literal, retirada de livro sobre a vida e a obra de Dickinson.

Trata-se de um poema com matizes góticos, em que E. D. nos faz ver que a alma muitas vezes é paralisada por medos fantasmagóricos, que a mantêm cativa e sempre à busca de escapar de sua própria prisão.

Afinal, o cérebro pode ser tão mal-assombrado quanto qualquer casa antiga e abandonada, neste caso, com muito mais razões para sê-lo. E que tortura vagar pelos cantos e labirintos de nossa mente, de onde poderemos sair pelo caminho da loucura ou da paralisia ou, ainda, quem sabe?, da iluminação!

J.A.R. – H.C.

Emily Dickinson
(1830-1886)

One need not be a chamber – to be Haunted

One need not be a Chamber − to be Haunted −
One need not be a House −
The Brain has Corridors − surpassing
Material Place −

Far safer, of a Midnight Meeting
External Ghost
Than its interior Confronting −
That Cooler Host.

Far safer, through an Abbey gallop,
The Stones a’chase −
Than Unarmed, one’s a’self encounter −
In lonesome Place −

Ourself behind ourself, concealed −
Should startle most −
Assassin hid in our Apartment
Be Horror's least.

The Body − borrows a Revolver −
He bolts the Door −
O’erlooking a superior spectre −
Or More −

Casa Abandonada
(Bill Joseph Markowski: pintor norte-americano)

Para as assombrações, desnecessária é a alcova

Para as assombrações, desnecessária é a alcova,
Desnecessária, a casa –
O cérebro tem corredores que superam
Os espaços materiais.

Mais seguro é encontrar à meia-noite
Um fantasma,
Que enfrentar, internamente,
Aquele hóspede mais pálido.

Mais seguro é galopar cruzando um cemitério,
Por pedras tumulares ameaçado,
Que, ausente a lua, encontrar-se a si mesmo
Em desolado espaço.

O “eu”, por trás de nós oculto,
É muito mais assustador,
E um assassino, escondido em nosso quarto,
Dentre os horrores, é o menor.

O homem prudente leva consigo uma arma
E cerra os ferrolhos da porta,
Sem perceber um outro espectro,
Mais ínfimo e maior.

(Tradução de Ivo Bender)

(Título e Autoria Desconhecidos)

A gente não precisa ser uma câmara para ser
mal-assombrada

A gente não precisa ser uma câmara para ser
mal-assombrada;
A gente não precisa ser uma casa.
A mente tem corredores que ultrapassam
Lugares de pedra e cal.

Muito melhor à meia-noite encontrar
Um fantasma de fora
Do que o seu interior enfrentar –
Esse mais frio anfitrião.

Muito melhor o cemitério atravessar
Por entre as lajes
Que desarmado se defrontar,
Em lugar ermo,

Nós mesmos atrás de nós, ocultos,
Deveríamos assustar-nos mais
Que um assassino, em nossos aposentos
Escondido.

O corpo arma-se com um revólver,
Passa o ferrolho na porta
E não se lembra de um espectro superior,
Ou de mais.

(Tradução de Vera das Neves Pedroso)

Referências:

Em Inglês

DICKINSON, Emily. One need not be a chamber − to be haunted. In: __________. Poemas Escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Edição bilíngue. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011. p. 56 e 58. (Coleção L&PM Pocket; v. 436)

Em Português

DICKINSON, Emily. Para as assombrações, desnecessária é a alcova. In: __________. Poemas Escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Edição bilíngue. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011. p. 57 e 59. (Coleção L&PM Pocket; v. 436)

DICKINSON, Emily. A gente não precisa ser uma câmara para ser mal-assombrada. Tradução de Vera das Neves Pedroso. In: JOHNSON, Thomas H. Mistério e solidão: a vida e a obra de Emily Dickinson. Tradução de Vera das Neves Pedroso. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Lidador, 1965. p. 147.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

E. E. Cummings - o amor é de todos o único deus

Como o leitor do bloguinho já pode ter percebido, os poemas de Cummings são permeados por frases familiares, revertidas ou tomadas pelo fim: nomes, substantivos, verbos, adjetivos e advérbios são livremente intercambiados, tudo pontuado de forma criativa, com inusitadas quebras de linhas e fraseado invulgar, para que as ideias quotidianas possam ser percebidas por uma nova luz ou por inauditas perspectivas.

Imbricado na supramencionada técnica de Cummings, o poema ora postado abraça a ideia de um amor tão erótico quanto espiritual, a hipótese do sonho como verdadeira realidade, de sorte que, partindo da metáfora carnal, transcenda-se ao mundo evanescente do espírito.

J.A.R. – H.C.

E. E. Cumming
(1894-1962)

love is the every only god

who spoke this earth so glad and big
even a thing all small and sad
man, may his mighty briefness dig

for love beginning means return
seas who could sing so deep and strong

one querying wave will whitely yearn
from each last shore and home come young

so truly perfectly the skies
by merciful love whispered were,
completes its brightness with your eyes

any illimitable star

In: “50 Poems” (1940)

Sonho Azul
(Cebarre: artista francês)

o amor é de todos o único deus

quem descreveu esta terra tão vasta e festiva
mesmo sendo coisa de todo pequena e triste
homem, tenta perscrutar a sua intensa brevidade

pois o começo do amor significa retorno
mares capazes de cantar tão profunda e fortemente

uma inquiridora onda suspirará brancamente
de cada derradeira praia e o lar se torna jovem

tão verdadeira e perfeitamente estavam
os céus sussurrando pelo compassivo amor,
que completa o seu brilho com os teus olhos

cada ilimitada estrela

Em: “50 Poemas” (1940)

Referência:

CUMMINGS, E. E. love is the every only god. In: __________. Complete poems: 1904-1962. Edited by George James Firmage. New York, NY: Liveright Publishing Corporation, 1991. p. 526.
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Pablo Neruda - Ode a um albatroz viajante

Não há como deixar de associar este poema de Neruda ao “Albatroz” de Baudelaire, muito embora as diferenças entre as imagens empregadas pelos dois poetas para esta grande ave marinha, pode ser, de fato, bem mais relevantes do que as aparentes semelhanças.

E não passe ao largo o fato de o vocativo empregado por Neruda em relação à ave muito lembrar a passagem de um famoso poema de Whitman... “Capitão, meu capitão!” Mas não só: a leitura atenta do poema revela que Neruda é um ávido apreciador dos pássaros. Fique, leitor, como esta obra-prima da sensibilidade humana!

J.A.R. – H.C.

Pablo Neruda
(1904-1973)

Ode a un albatros viajero

Un gran albatros
gris
murió aquel día.
Aquí cayó
en las húmedas
arenas.
En este
mês
opaco, em
este día
de otoño plateado
y lloviznero,
parecido
a una red
con peces fríos
y agua
de mar.
Aquí
cayó
muriendo
el ave magna.

Era
en
la muerte
como una cruz negra.
De punta a punta de ala
tres metros de plumaje
y la cabeza curva
como un gancho
con los ojos ciclónicos
cerrados.

Desde Nueva Zelandia
cruzó todo el océano
hasta
morir en Chile.

Por qué? Por qué? Qué sal,
qué ola, qué viento
buscó en el mar?
Qué levantó su fuerza
contra todo
el espacio?
Por qué su poderío
se probó en las más duras
soledades?
O fue su meta
la magnética rosa
de una estrella?
Nadie
podrá saberlo, ni decirlo.

El océano en este
ancho sendero
no tiene
isla ninguna,
y el albatros errante
en la interplanetaria
parábola
del victorioso vuelo
no encontró sino días,
noches, agua,
soledades,
espacio.

Él, con sus alas, era
la energía,
la dirección, los ojos
que vencieron
sol y sombra:
el ave
resbalaba en el cielo
hacia
la más
lejana
tierra
desconocida.

Pájaro extenso, inmóvil
perecías
volando
entre los continentes
sobre mares perdidos,
un solo
temblor de ala,
un ágil
golpe de campana y pluma:
así cambiaba apenas
tu majestad el rumbo
y triunfante seguías
fiel en el implacable,
desierto
derrotero.

Hermoso eras girando
apenas
entre la ola y el aire,
sumergiendo la punta
de tu ala en el océano
o sentándote en medio
de la extensión marina
con las alas cerradas como un cofre
de secretas alhajas,
balanceado
por las
solitarias
espumas
como uma profecia
muda
en el movimiento de los salmos.

Ave albatros, perdón,
dije, en silencio,
cuando lo vi extendido,
agarrotado
en la arena, después
de la inmensa
travesía.
Héroe, le dije, nadie
levantará sobre la tierra
en uma
plaza de pueblo
tu arrobadora
estatua,
nadie.
Allí tendrán en medio
de los tristes laureles
oficiales
al hombre de bigotes
con levita o espada,
al que mató
en la guerra
a la aldeana,
al que con un solo
obús sangriento
hizo polvo
una escuela
de muchachas,
al que usurpó
las tierras
de los indios,
o al cazador
de palomas, al
exterminador
de cisnes negros.

Sí,
no esperes,
dije,
al rey del viento
al ave de los mares,
no esperes
un túmulo
erigido
a tu proeza,
y mientras
tétricos ciudadanos
congregados en torno a tus despojos
te arrancaban
una pluma, es decir,
un pétalo, un mensaje
huracanado,
yo me alejé
para que,
por lo menos,
tu recuerdo,
sin piedra, sin estatua,
en estos versos vuele
por vez postrera contra
la distancia
y quede así cerca del mar tu vuelo.

Oh, capitán oscuro,
derrotado en mi patria,
ojalá que tus alas
orgullosas
sigan volando sobre
la ola final, la ola de la muerte.

(1956)

Albatroz
(Andrew McIlroy: artista australiano)

Ode a um albatroz viajante

Um grande albatroz
cinzento
morreu naquele dia.
Aqui caiu
nas úmidas
areias.
Neste
mês
opaco,
neste dia
de outono prateado
e chuviscante,
parecido
a uma rede
com peixes frios
e água
de mar.
Aqui
caiu
morrendo
a ave magna.

Assemelhava-se
na
morte
a uma cruz negra.
De ponta a ponta da asa
três metros de plumagem
e a cabeça curva
como um gancho
com os olhos ciclônicos
fechados.

Desde a Nova Zelândia
cruzou todo o oceano
até
morrer no Chile.

Por quê? Por quê? Que sal,
que onda, que vento
buscou no mar:
O que levantou sua força
contra todo
o espaço?
Por que seu poderio
se provou nas mais duras
solidões?
Ou foi sua meta
a magnética rosa
de uma estrela?
Ninguém
poderá sabê-lo, nem dizê-lo.

O oceano nesta
ampla senda
não tem
ilha nenhuma,
e o albatroz errante
na interplanetária
parábola
do vitorioso voo
não encontrou senão dias,
noites, água,
solidões,
espaço.

Ele, com suas asas, era
a energia,
a direção, os olhos
que venceram
sol e sombra:
a ave
resvalava no céu
até
a mais
distante
terra
desconhecida.

Pássaro extenso, imóvel
perecias
voando
entre os continentes
sobre mares perdidos,
um só
tremor de asa,
um ágil
golpe de sino e pluma:
assim mudava apenas
tua majestade o rumo
e triunfante seguias
fiel na implacável,
deserta
rota.

Belo eras girando
apenas
entre a onda e o ar,
submergindo a ponta
de tua asa no oceano
ou sentando-te em meio
à extensão marinha
com as asas fechadas como um cofre
de secretas joias,
balanceado
pelas
solitárias
espumas
como uma profecia
muda
no movimento dos salmos.

Ave albatroz, perdão,
disse, em silêncio,
quando o vi estendido,
retesado
na areia, depois
da imensa
travessia.
Herói, lhe disse, ninguém
levantará sobre a terra
numa
praça de povoado
tua arrebatadora
estátua,
ninguém.
Ali haverá em meio
aos tristes louros
oficiais
o homem de bigodes
com fraque ou espada,
o que matou
na guerra
a aldeã,
o que com um só
obus sangrento
transformou em pó
uma escola
de meninas,
o que usurpou
as terras
dos índios,
ou o caçador
de pombas, o
exterminador
de cisnes negros.

Sim,
não esperes,
disse,
ao rei do vento,
à ave dos mares,
não esperes
um túmulo
erigido
à tua proeza,
e enquanto
tétricos cidadãos
congregados em torno aos teus despojos
te arrancavam
uma pluma, isto é,
uma pétala, uma mensagem
impetuosa,
eu me distanciei
para que,
pelo menos,
tua recordação,
sem pedra, sem estátua,
neste versos voe
pela derradeira vez contra
a distância
e fique assim o teu voo próximo do mar.

Oh, sombrio capitão,
derrotado em minha pátria,
oxalá que tuas asas
orgulhosas
sigam voando sobre
a onda final, a onda da morte.

(1956)

Referência:

NERUDA, Pablo. Oda a un albatros viajero. In: __________. Tercer libro de las odas. 2. ed. Buenos Aires, AR: Losada, 1972. p. 22-27. (Biblioteca Clásica y Contemporánea)
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