Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

José Luis García Herrera - Sob a luz das estrelas

Os versos deste poema retratam a presença simultânea de sentimentos antinômicos no discurso do falante, como a tristeza e a felicidade, especialmente em um contexto tão significativo como o do Natal, uma época que nos convida tanto a rememorar os parentes e amigos ausentes – ou, mais amplamente, tudo o que já se foi e o que se conquistou –, quanto a olhar para o futuro com a esperança de dias melhores.

 

Mesmo diante das perdas e das mudanças, há sempre algo permanente e reconfortante no universo, algo que nos fortalece para ir em frente, seguindo a trilha pontilhada pela memória dos que iluminaram – e iluminam – os nossos passos, sobretudo quando se faz noite em nossas vidas e as turbulências ameaçam adernar o batel dessa insegura travessia.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Luis García Herrera

(n. 1964)

 

Bajo la luz de las estrelas

 

En el silencio de la estancia vacía,

con restos de la cena aún sobre la mesa,

recuerda los abrazos, los besos y las risas,

los brindis por todo lo bueno que vendrá

pese al dolor en el corazón por las ausencias,

los brindis por todo lo hermoso que se fue

y vivirá en nuestro corazón toda la vida.

Apaga la luz y en la oscuridad serena,

con el frío en la ventana posando sus huellas,

mira hacia el cielo y sonríe al comprovar

que jamás se apaga la luz de las estrellas.

En el silencio de la noche llora, es feliz y es

Navidad.

 

Sobras da ceia sobre a mesa

(Arte digital: autoria desconhecida)

 

Sob a luz das estrelas

 

No silêncio da sala vazia,

com sobras da ceia ainda sobre a mesa,

relembre os abraços, os beijos e os risos,

os brindes por todas as coisas boas que virão

apesar da dor no coração pelas ausências,

os brindes por todas as coisas belas que se foram,

mas preservadas em nossos corações por toda a vida.

Apague a luz e na escuridão serena,

com o frio da janela a deixar os seus vestígios,

olhe para o céu e sorria ao comprovar

que a luz das estrelas jamais se apaga.

No silêncio da noite chore, sinta-se feliz: é

Natal.

 

Referência:

 

HERRERA, José Luis García. Bajo la luz de las estrelas. In: ALENCART, A. P.; CRUZ-VILLALOBOS, Luis (Eds.). Carne del cielo: versos de navidad. Antología de poetas iberoamericanos de hoy. Pinturas de Miguel Elías. Santiago, CL: Hebel Ediciones, 2015. p. 140. Disponível neste endereço. Acesso em: 30 nov. 2025.

  

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Romeu Jobim - O Menino e a Estrela

Eis um poema que é tanto uma bela evocação da magia do Natal, quanto também um chamado à compaixão e à solidariedade em favor dos açoitados pelos infortúnios da solidão e da pobreza: para além dos regalos e das celebrações que são levados a efeito no aconchego dos lares, há o desamparo daqueles expostos à exclusão social, à vulnerabilidade extrema, sem um lar para chamar de seu, e a quem somente resta a esperança de dias melhores, fomentada por uma estrela que em tudo evoca o áster-guia dos magos no relato bíblico.

 

Com efeito, sendo o Natal uma festividade que se direciona, de modo muito especial, a fazer a alegria das crianças, nada mais contrastante, ou até mesmo cruel, do que deixar muitas delas à margem, sem quaisquer atenuantes capazes de servir como luz e sonho de uma fé intrépida na bem-aventurança do futuro.

 

J.A.R. – H.C.

 

Romeu Jobim

(1927-2015)

 

O Menino e a Estrela

 

Porque é Natal,

quanta festa e alegria,

nos corações,

nos lares,

no mundo!

 

Mas um menino,

mais parece um bichinho,

sujinho, sozinho,

está dormindo,

num canto da calçada.

 

Eis que um raio

de estrela se alonga

e incide no rosto

do menino que, em seu sono,

sorri.

 

Sonha que outro menino,

como ele,

desceu pela estrela

e os dois brincam,

de roda.

 

Brasília - DF, 12/1999.

Em: “Cantos do Caminho”

 

Criança dormindo na rua

(Autoria desconhecida)

 

Referência:

 

JOBIM, Romeu. O menino e a estrela. Em: __________. Cantos do caminho: poesia. Brasília, DF: Edições Trianas, 2003. p. 128.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

D. H. Lawrence - Noite do Nascimento

Jogando com a metáfora em torno do mito de Adão e Eva, Lawrence explora a ideia do renascimento como um processo íntimo e universal, marcado por uma conexão profunda entre dois seres que se fundem para além dos gêneros ou papéis, num lídimo ato de criação divina a transcender as categorias convencionais.

 

Não mais um passado de sofrimento, de lágrimas, senão um porvir purificado e renovado, pleno de expectativas, de extraordinárias esperanças – como as suscitadas pelo Natal –, no qual a mulher em gestação dentro do homem ganha novas forma e identidade, num exercício inusitado de paternidade, configurado a partir de um enlace sincrônico entre o visceral e o poético.

 

J.A.R. – H.C.

 

D. H. Lawrence

(1885-1930)

 

Birth Night

 

This fireglow is a red womb

In the night, where you’re folded up

On your doom.

 

And the ugly, brutal years

Are dissolving out of you.

And the stagnant tears.

 

I the great vein that leads

From the night to the source of you

Which the sweet blood feeds.

 

New phase in the germ of you;

New sunny streams of blood

Washing you through.

 

You are born again of me.

I, Adam, from the veins of me

The Eve that is to be.

 

What has been long ago

Grows dimmer, we both forget,

We no longer know.

 

You are lovely, your face is soft

Like a flower in bud

On a mountain croft.

 

This is Noel for me.

To-night is a woman born

Of the man in me.

 

A Adoração dos Pastores

(Guido Reni: pintor italiano)

 

Noite do Nascimento

 

Este fulgor ígneo é útero rubro

Na noite, onde te encontras cingida

Ao teu fado.

 

E os anos brutais, cruéis,

Dissolvem-se em ti.

E estancam-se as lágrimas.

 

Eu, a grande veia a conduzir

A noite à fonte que te sustenta

E de onde mana o teu doce sangue.

 

Nova fase no embrião que tu és;

Novos fluxos radiosos de sangue

Banham-te por completo.

 

Nasces outra vez de mim.

Eu, Adão, de minhas veias

A Eva que está por vir.

 

O que pertence ao passado

Torna-se pálido, indistinto; foge-nos

À memória e já não o recordamos.

 

És bela, teu rosto tão suave

Quanto uma flor em botão

Num sítio montanhoso.

 

Eis o meu Natal.

Esta noite é uma mulher nascida

Do homem que há em mim.

 

Referência:

 

LAWRENCE, D. H. Birth night. In: __________. The complete poems. Collected and edited with an introduction and notes by Vivian de Sola Pinto and F. Warren Roberts. 7th print. New York, NY: Penguin Books, 1988. p. 239-240. (“The Penguin Poets”)

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Jorge de Lima - Poema de Natal

O poeta detém-se sobre o tema da solidão no mundo contemporâneo, bem assim sobre a busca de sentidos em um contexto aparentemente vazio, convidando-nos a refletir sobre a importância da conexão humana e da espiritualidade num mundo cada vez mais fragmentado, no qual, nada obstante, os “sinos de Cristo” ainda se fazem presentes para manter acesa a luz da esperança, da redenção, do amor e da conexão com o divino.

 

Transcender o lado mais tangível, mais material, do mundo; superar o trato frio e hostil, as conexões superficiais de nossas cidades superpovoadas; romper o isolamento e a alienação das grandes metrópoles; tudo para fazer valer, não só no calor da celebração natalina, o que há de mais humano em cada um de nós, nutrindo razões palpáveis para se continuar no afã da lida quotidiana!

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Lima

(1893-1953)

 

Poema de Natal

 

Numa certa noite de Natal,

aquele homem de uma grande metrópole

queria um abrigo para passar a noite;

um reveillon, uma mulher ou mesmo um bar servia.

Mas todas essas coisas tinham muitos corações

por dentro delas.

E, entretanto, todas essas coisas estavam muito vazias.

O homem foi, então, passear pelas ruas;

mas o povo era tanto que o homem

já pedia um abrigo para se livrar dos outros.

E o homem fugiu da metrópole

e buscou os caminhos que vão ter

às pequenas aldeias.

Mas o povo que vinha nos caminhos

para a grande metrópole

esbarrou no homem sem abrigo.

E foi então que os sinos de Cristo

começaram a chamar o homem fugitivo

para o novo caminho em que Jesus seguia.

 

Estado da Bahia, Salvador, 24.12.1938.

 

Em: “Poemas Dispersos”

 

Celebrando o Natal

(Margaret Loxton: artista inglesa)

 

Referência:

 

LIMA, Jorge de. Poema de Natal. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização de Alexei Bueno. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1997. p. 833. (Biblioteca Luso-brasileira; Série brasileira)