Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Medbh McGuckian - Lapsos

A memória pessoal – em conexão com a história mais ampla de uma nação, a Irlanda, terra-mãe da poetisa –, aqui se espelha em detalhes, ‘prima facie’, aparentemente desconexos, mas que traduzem uma experiência de frescura e de regeneração, digo melhor, certa elegância discreta e austera em meio à vida rural ou tradicional.

 

A mente é o ‘locus’ da guarda imperfeita de nossas recordações, tantas vezes entrelaçadas por associações ou conexões que, vezes sem conta, não fazem jus aos fatos tal como estes realmente aconteceram, muito embora possam constituir narrativas plenas de sentidos para as nossas experiências a cada momento.

 

O individual e o coletivo se mesclam para dar ênfase à ideia de pertencimento a um povo: belas nostalgias que carregam imagens quiçá idealizadas, as quais, seja como for, são potentes meios para a falante firmar a sua feminilidade e identidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Medbh McGuckian

(n. 1950)

 

Slips

 

The studied poverty of a moon roof,

The earthenware of dairies cooled by apple trees,

The apple tree that makes the whitest wash...

 

But I forget names, remembering them wrongly

Where they touch upon another name,

A town in France like a woman’s Christian name.

 

My childhood is preserved as a nation’s history,

My favourite fairytales the shells

Leased by the hermit crab.

 

I see my grandmother’s death as a piece of ice,

My mother’s slimness restored to her,

My own key slotted in your door –

 

Tricks you might guess from this unfastened button,

A pen mislaid, a word misread,

my hair coming down in the middle of a conversation.

 

(1982)

 

Mulher e menina à porta de entrada

(August Eiebakke: pintor norueguês)

 

Lapsos

 

A estudada pobreza de um teto panorâmico,

As cerâmicas de laticínios resfriadas junto às macieiras,

A macieira que torna mais branca a caiação...

 

Mas esqueço-me dos nomes, deles mal me lembrando

Quando se confundem com outro nome,

Uma cidade em França como o nome de batismo

de uma mulher.

 

Minha infância está preservada como a história

de uma nação,

Meus contos de fadas favoritos feito conchas

Arrendadas pelo caranguejo-ermitão.

 

Vejo a morte da minha avó como um pedaço de gelo,

A esguiez de minha mãe a ela restituída,

Minha própria chave inserida em tua porta.

 

Truques que podes adivinhar a partir deste botão aberto,

Uma caneta extraviada, uma palavra mal lida,

Meus cabelos a desprender no meio de uma conversa.

 

(1982)

 

Referência:

 

McGUCKIAN, Medbh. Slips. In: BLACK, Joseph Laurence et alii (Eds.). The broadview anthology of british literature. The twentieth century and beyond: volume 6B, from 1945 to the twenty-first century. Toronto, CA: Broadview Press, 2008. p. 1049.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Rainer Maria Rilke - Os Anjos

A retratar os anjos de um modo inusitado e sugestivo, este poema de Rilke descreve-os como tendo “lábios cansados” e “almas brilhantes sem orlas”, espelhando, a um só tempo, a previsível forma de pureza e de transcendência, conjugada a algum desgaste ou fadiga, como se cansados de seu papel de intermediários entre o divino e o mundo.

 

Como partes integrantes do vasto plano de Deus, os anjos preenchem os espaços entre as notas do Criador, esse escultor a moldar o mundo por meio daqueles “despertadores de vento” – um conceito que, como sabemos, ressoa a valer em nossa tradição religiosa –, isto quando os anjos não resolvem ascender a alturas nunca dantes descortinadas...

 

É que há algo nos versos do poeta a insuflar a ideia de que os anjos experimentam anseios que, em certo sentido, assemelham-se à busca por pecado, revelando-lhes um desejo inerente, que lhes é próprio – ainda que, em essência, sejam eles celestiais –, como se reconhecessem que têm o potencial – “humano, demasiado humano” – para seguirem o mesmo caminho trilhado por Satã!

 

J.A.R. – H.C.

 

Rainer Maria Rilke

(1875-1926)

 

Die Engel

 

Sie haben alle müde Münde

und helle Seelen ohne Saum.

Und eine Sehnsucht (wie nach Sünde)

geht ihnen manchmal durch den Traum.

 

Fast gleichen sie einander alle;

in Gottes Gärten schweigen sie,

wie viele, viele Intervalle

in seiner Macht und Melodie.

 

Nur wenn sie ihre Flügel breiten,

sind sie die Wecker eines Winds:

als ginge Gott mit seinen weiten

Bildhauerhänden durch die Seiten

im dunklen Buch des Anbeginns.

 

In: “Das Buch der Bilder” (1902 und 1906)

 

Cupido e Psiquê, infantes

(William-Adolphe Bouguereau: pintor francês)

 

Os Anjos

 

Têm todos bocas cansadas

e almas claras, sem orla.

E passa-lhes por vezes pelos sonhos

uma saudade (como de pecado).

 

Parecem-se quase todos uns aos outros;

estão calados nos jardins de Deus,

como muitos, muitos intervalos

no seu poderio e melodia.

 

Só quando desdobram as asas

é que despertam qualquer vento:

como se Deus, com as suas largas

mãos de estatuário, passasse

as folhas do escuro Livro dos Princípios.

 

Em: “O Livro das Imagens” (1902 e 1906)

 

Referências:

 

Em Alemão

 

RILKE, Rainer Maria. Die engel. In: __________. Gesammelte gedichte. Frankfurt am Main, DE: Insel-Verlag, 1962. s. 136-137.

 

Em Português

 

RILKE, Rainer Maria. Os anjos. Tradução de Paulo Quintela. In: QUINTELA, Paulo. Obras completas. Vol. 3: Traduções II. Introdução de Ludwig Scheidl. Organização de Ludwig Scheidl et alii, 1. ed. Lisboa, PT: Fundação Calouste Gulbenkian; Serviço de Educação, 1998. p. 64.

domingo, 25 de agosto de 2024

John Montague - Deixar

O poeta irlandês propõe-nos a questão do que representaria deixarmos de ser humanos, cessando de viver a única vida de que estamos cientes, tentando ser donos de nossos próprios destinos: em vez de buscarmos autodeterminação no mundo, por que não nos expormos às suas vontades e aos seus caprichos, nem que seja para conhecermos como o tempo afeta os objetos – naturais ou artificiais, quedos ou inorgânicos – à nossa volta, apartados que estão de quaisquer ponderações de ordem axiológica?!

 

Veja-se que o título sugere a conduta de parar, de deter, de pôr fim a um determinado modo de pensar ou de agir, sendo o poema dedicado ao dramaturgo Samuel Beckett (1906-1989) – irlandês como Montague –, bastante conhecido por explorar temas existenciais e filosóficos em suas obras, com aquele seu peculiar pessimismo acerca do fenômeno humano.

 

Com alguma conexão com o mote do poema, lembrei-me do artigo “Como é ser um morcego?”, por meio do qual o filósofo sérvio Thomas Nagel (n. 1937) nos incita a especular sobre experiências com as quais jamais entraremos em contato direto, por exemplo, como seria “enxergar” uma coisa com os ouvidos, uma vez que os morcegos têm o dom da ecolocalização que nós, humanos, não possuímos?!... Em linha com Nagel: “Como é ser uma árvore?”, nos indagaria o poeta!

 

J.A.R. – H.C.

 

John Montague

(1929-2016)

 

To cease

 

for Samuel Beckett

 

To cease

to be human.

 

To be

a rock down

which rain pours,

a granite jaw

slowly discoloured.

 

Or a statue

sporting a giant’s beard

of verdigris or rust

in some forgotten

village square.

 

A tree worn

by the prevailing winds

to a diagram of

tangled branches:

gnarled, sapless, alone.

 

To cease

to be human

and let birds soil

your skull, animals rest

in the crook of your arm.

 

To become

an object, honoured

or not, as the occasion demands;

while time bends you slowly

back to the ground.

 

A praça da aldeia

(Frank Thompson: artista inglês)

 

Deixar

 

A Samuel Beckett

 

Deixar

de ser humano.

 

Ser

uma pedra por onde

a chuva resvala,

um cânion de granito

a descolorir lentamente.

 

Ou uma estátua

a ostentar uma barba de gigante

erodida por azinhavre ou ferrugem

em alguma esquecida

praça de aldeia.

 

Uma árvore desgastada

pelos ventos dominantes

reduzida a um diagrama de

galhos emaranhados:

retorcida, desseivada, solitária.

 

Deixar

de ser humano

e permitir que os pássaros sujem

teu crânio, os animais pousem

na dobra de teu braço.


Tornar-te

um objeto, honrado

ou não, a depender da ocasião;

enquanto o tempo te inclina lentamente

de volta à terra.

 

Referência:

 

MONTAGUE, John. To cease. In: __________. Selected poems. Toronto, CA: Exile Editions, 1991. p. 73.

sábado, 24 de agosto de 2024

Sylvia Plath - Colher amoras

Como se tivesse uma força vital ou essência compartilhada com as amoras que, aos poucos, vai colhendo, a falante dá-nos conta de uma sensação de perturbação ou de inquietação que então lhe desconforta: em meio ao irresistível fascínio pelos prazeres da vida, não deixa ela de reconhecer o efeito corrosivo do tempo, com a consequente impermanência de tudo quanto existe.

 

Os versos justapõem imagens contrastantes, fornecendo ao leitor a ideia de um misto de assombro, contemplação e introspecção, ante o encontro de um simples agir humano em concomitância ao correr das forças da natureza – como a da vastidão do mar – e, mais extensivamente, do mundo ao redor, o que nos leva a refletir sobre a nossa agridoce e enigmática jornada, sempre permeada por imprevistos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sylvia Plath

(1932-1963)

 

Blackberrying

 

Nobody in the lane, and nothing, nothing but blackberries,  

Blackberries on either side, though on the right mainly,

A blackberry alley, going down in hooks, and a sea

Somewhere at the end of it, heaving. Blackberries

Big as the ball of my thumb, and dumb as eyes

Ebon in the hedges, fat

With blue-red juices. These they squander on my fingers.

I had not asked for such a blood sisterhood; they must love me.

They accommodate themselves to my milkbottle, flattening their sides.

 

Overhead go the choughs in black, cacophonous flocks –

Bits of burnt paper wheeling in a blown sky.

Theirs is the only voice, protesting, protesting.

I do not think the sea will appear at all.

The high, green meadows are glowing, as if lit from within.

I come to one bush of berries so ripe it is a bush of flies,

Hanging their bluegreen bellies and their wing panes in a Chinese screen.

The honey-feast of the berries has stunned them; they believe in heaven.  

One more hook, and the berries and bushes end.

 

The only thing to come now is the sea.

From between two hills a sudden wind funnels at me,  

Slapping its phantom laundry in my face.

These hills are too green and sweet to have tasted salt.

I follow the sheep path between them. A last hook brings me  

To the hills’ northern face, and the face is orange rock  

That looks out on nothing, nothing but a great space  

Of white and pewter lights, and a din like silversmiths  

Beating and beating at an intractable metal.

 

Colheita de amoras

(Elizabeth Forbes: artista canadense)

 

Colher amoras

 

Ninguém nas veredas e nada, nada além das amoras,

Amoras de ambos os lados, embora mais à direita

Uma aleia de amoras descendo em curva e um mar

Se alçando lá no fim. Amoras

Grandes como o meu polegar e a silenciar como olhos

De ébano nas sebes, gordas

De sumo azul-vermelho. O sumo esbanjam entre meus dedos.

Eu não pedira esta fraternidade de sangue: – elas na certa me amam.

E se acomodam em meu jarro, achatando-se os lados.

 

No alto, as gralhas negras, revoada cacofônica

– Pedaços de papel queimado girando num céu a pleno.

E delas a única voz protestando, protestando...

Acho que o mar não aparecerá.

As campinas altas e verdes resplandecem como acesas por dentro.

Chego a um arbusto cheio de amoras tão maduras que o arbusto é de moscas

Pendentes, suas barrigas verde-azuladas e os vitrais das asas numa tela chinesa.

A festa de mel das amoras alvoroçou-as. Elas acreditam no céu.

Uma curva mais: amoras e arbustos terminam.

 

Tudo o que vem agora é o mar.

De entre dois morros uma súbita brisa se afunila em direção a mim

E me esbofeteia a face.

Esses montes são muito verdes e doces para quem provou sal.

Entre eles, sigo a trilha das ovelhas. Numa última curva

Alcanço a face norte dos montes, cor de laranja e rocha

E a face olha para nada, nada exceto um grande espaço

De luzes brancas metálicas; nada exceto um ruído de ferramentas sobre a prata,

Os golpes e golpes contra um metal intratável.

 

Referência:

 

PLATH, Sylvia. Blackberrying / Colher amoras. Tradução de Jorge Wanderley. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção, tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 278 e 280; em português: p. 279 e 281.