Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Affonso Romano de Sant'Anna - Novo Gênesis

Na primeira parte deste poema, Romano faz uma paródia do Gênesis 1-2, na qual Satã aparece como o criador de todas as mazelas que assolam a humanidade, dos pecados capitais – “sete virtudes capitais”, claro está, para Lúcifer! – às guerras e epidemias, das mentiras aos mecanismos de opressão, e viu que “tudo isso era bom”, coroando a sua grande mediante o exílio de Deus “na pior parte do Inferno – os Céus”.

 

Desde então, a história da humanidade tem refletido o seu êxito, com raros contratempos aqui e ali, mas nada que abale o curso “natural” dos acontecimentos, pois o mal infligido pelo Demo segue firme em seu protagonismo na orientação dos “negócios universais”.  Afinal, como diz a máxima latina: “Daemonium vendit, qui daemonium prius emit.” (“Quem com o demo semeia, com o demo colhe.”).

 

J.A.R. – H.C.

 

Affonso R. de Sant'Anna

(n. 1937)

 

Novo Gênesis

 

No primeiro dia

o Demônio criou o universo e tudo o que nele há

e viu que era bom.

 

No segundo dia

criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça,

a soberba e a ira

a que chamou de sete virtudes capitais

e viu que era bom.

 

No terceiro dia criou as guerras.

No quarto dia criou as epidemias.

No quinto dia criou a opressão.

No sexto dia criou a mentira

e no sétimo dia, quando ia descansar,

houve uma rebelião na hierarquia dos anjos

e um deles, de nome Deus,

quis reverter a ordem geral das coisas,

mas foi exilado

na pior parte do Inferno – os Céus.

 

Desde então

o Demônio e suas hostes continuam firmes

na condução dos negócios universais,

embora volta e meia um serafim, um querubim

e algum filho de Deus, desencadeiem protestos,

milagres, revoluções

querendo impingir o Bem onde há o Mal.

 

Porém não têm tido muito êxito até agora,

exceto em alguns casos particulares

que não alteraram em nada a marcha geral da história.

 

Em: “Textamentos” (1999)

 

Satã no Paraíso

(Gustave Doré: ilustrador francês)

 

Referência:

 

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Novo gênesis. In: COCO, Emilio. Il fiori della poesia latinoamericana d’oggi. Secondo volume: America meridionale – 1. Rimini, IT: Raffaelli Editore, 2012. p. 34 e 36. (v. 6)

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Galway Kinnell - Últimos Deuses

Descrevendo um ato de amor em plena natureza, num tom abertamente erótico e artístico, não menos sacralizado, o poeta norte-americano interpreta-o como um legado dos deuses que se recusaram a partir, deixando-nos na boca os gemidos que agora se estendem por longas noites de prazer.


A seção de versos onde se descreve o amante a deitar bagas de mirtilos nos lábios da amada levou-me a associá-la a imagens do filme “Tess” (1979), do diretor Roman Polanski – baseado no romance “Tess of the d’Ubervilles” (1891), de Thomas Hardy –, ao longo das quais Alec d’Urberville (Leigh Lawson) dá início à sedução de Tess (Nastassja Kinski) apondo-lhe cerejas na boca, numa cena de sensualidade à flor da pele.

 

J.A.R. – H.C.

 

Galway Kinnell

(1927-2014)

 

Last Gods

 

She sits naked on a rock

a few yards out in the water.

He stands on the shore,

also naked, picking blueberries.

She calls. He turns. She opens

her legs showing him her great beauty,

and smiles, a bow of lips

seeming to tie together

the ends of the earth.

Splashing her image

to pieces, he wades out

and stands before her, sunk

to the anklebones in leaf-mush

and bottom-slime – the intimacy

of the geographical. He puts

a berry in its shirt

of mist into her mouth.

She swallows it. He puts in another.

She swallows it. Over the lake

two swallows whim, juke, jink,

and when one snatches

an insect they both whirl up

and exult. He is swollen

not with ichor but with blood.

She takes him and talks him

more swollen. He kneels, opens

the dark, vertical smile

linking heaven with the underearth

and murmurs her smoothest flesh more smooth.

On top of the rock they join.

Somewhere a frog moans, a crow screams.

The hair of their bodies

startles up. They cry

in the tongue of the last gods,

who refused to go,

chose death, and shuddered

in joy and shattered in pieces,

bequeathing their cries

into the human mouth. Now in the lake

two faces float, looking up

at a great maternal pine whose branches

open out in all directions

explaining everything.

 

In: “When One Has Lived a Long Tome Alone” (1990)

 

Gênese Espiral

(Mark Henson: artista norte-americano)

 

Últimos Deuses

 

Ela se senta nua sobre uma rocha

a alguns metros na água.

Ele está à margem,

também nu, colhendo mirtilos.

Ela o chama. Ele se vira. Ela abre

as pernas mostrando-lhe sua grande beleza,

e sorri, uma flexão de lábios que parece unir

os confins da terra.

Salpicando sua imagem

em pedaços, ele chapinha

e se coloca diante dela, submerso

até os tornozelos num junco de folhas

e no lodo do leito – a intimidade

do geográfico. Ele pega

uma baga de sua embaçada

camisa e a põe em sua boca.

Ela a engole. Ele põe outra.

Ela a engole. Sobre o lago

duas andorinhas dançam, bolem em volutas,

e quando uma delas arrebata

um inseto, ambas rodopiam

e exultam. Ele intumescido

não com icor, mas com sangue.

Ela o envolve e o induz a um estado

de mais intumescência. Ele se ajoelha e abre

um sorriso escuro e vertical

ligando o céu ao subtérreo

e sussurra por mais maciez às suas carnes mais macias.

Em cima da rocha eles se unem.

Algures, um sapo coaxa, um corvo crocita,

os pelos de seus corpos

se eriçam. Eles gemem

na língua dos últimos deuses,

que se recusaram a partir,

escolheram a morte, estremeceram

de alegria e se despedaçaram,

legando seus vagidos

à boca humana. Agora no lago

duas faces flutuam, olhando para cima,

rumo a um grande e maternal pinheiro, cujos ramos

se abrem em todas as direções,

tudo explicando.

 

In: “Quando Se Viveu Muito Tempo Sozinho” (1990)

 

Referência:

 

KINNELL, Galway. Last gods. In: __________. A new selected poems. First Mariner Books edition. New York, NY: Mariner Books (Houghton Mifflin Co.), 2001. p. 142-143.

domingo, 24 de setembro de 2023

José Miguel Silva: Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

Extraídos de uma coletânea de poemas de Miguel Silva, a qual, toda ela, é uma prodigiosa sucessão de écfrases atinentes a grandes obras da sétima arte – o cinema –, estes versos nada mais são do que uma imersão nos temas existenciais que caracterizam a quase totalidade dos trabalhos do grande diretor sueco: a mortalidade, a incomunicação, a crise da fé e a infrutuosa busca por significados.

 

Por trás dos vestígios de vulnerabilidade e de pessimismo instilados ao correr da pena, vibram no íntimo do falante as cordas de um desejo por estar equivocado quanto aos vislumbres do vazio que reverbera pelo efeito das estreitezas da condição humana: deseja ele, como o professor Isak Borg na película de Bergman, um sinal de redenção, uma prova de bondade, beleza ou amor que seja verdadeira e duradoura. Que essa esperança tenha força para perdurar!

 

J.A.R. – H.C.

 

José Miguel Silva

(n. 1969)

 

Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957)

 

Para a Berta Neto

 

Um ser humano é um combinado de egoísmo,

sofrimento e necedade. Não comove ninguém.

Uma pedra não comove ninguém. A beleza

é um acidente banal e pressupõe a morte;

muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,

chega a ser assustador. A inteligência, refrescante

como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,

que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir

à inteligência? O de criada de servir nos aposentos

da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.

A bondade, sim, comove. Mas é tão débil

e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,

assim, encontrar algo que possamos amar. Eu

tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:

tudo me parece, até a música, produto de uma falha.

Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer

quem me convença que bem outra poderia ser

a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,

tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,

não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto,

que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

 

Cartaz do Filme

“Morangos Silvestres”, de 1957

 

Referência:

 

MIGUEL SILVA, José. Morangos Silvestres - Ingmar Bergman (1957). In: __________. Movimentos no escuro. Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2005. p. 31.

sábado, 23 de setembro de 2023

Gregorio Duvivier - se o leite desnatado por acaso caísse

O falante faz as vezes de ‘lobo mau’, com a sua envolvente retórica, tentando lançar redes para capturar ‘chapeuzinho vermelho’ – ocupada em fazer compras num dado supermercado, transitando entre as seções de laticínios, frutas e limpeza: para tanto, o orador, deixando voar a imaginação, constrói réplicas oportunas para eventuais contratempos que poderiam se obviar à moça, durante o périplo pelas alas do estabelecimento comercial.

 

Mas o fato é que tudo não passou de meras cogitações na mente do ente lírico, pois a garota logo se desembaraçou entre as gôndolas do comércio, fazendo passar pelo caixa os produtos que então escolhera, numa sucessão de apitos bastante parecida com a de um eletrocardiograma, fazendo arrefecer, desse modo, o ritmo acelerado do coração do ‘lobo mau’.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gregorio Duvivier

(n. 1986)

 

se o leite desnatado por acaso caísse

 

se o leite desnatado por acaso caísse

da sua mão no chão da seção de laticínios

bastava para eu perguntar seu nome e fazer

alguma piada envolvendo a expressão chorar

pelo leite derramado e nós dois teríamos

uma longa vida eu e você mas você já está

no setor de limpeza e eu penso que se a água

sanitária espirrasse no seu vestido eu poderia

dizer sou advogado e isso vale um processo

ou se você tivesse dúvidas quanto à validade

de um queijo minas eu sei tudo sobre queijo

minas ou a madureza de um abacaxi basta

puxar uma folha da coroa mas agora

é tarde você já está no caixa passando produtos

que apitam como um eletrocardiograma

 

No supermercado

(Abigail L. Dela Cruz: ilustradora filipina)

 

Referência:

 

DUVIVIER, Gregorio. In: CALCANHOTO, Adriana (Org.). É agora como nunca: antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017. p. 25.