Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 28 de janeiro de 2023

Maya Angelou - Mulher Fenomenal

Um poema de autoafirmação, de amor próprio de uma mulher – negra no caso, tantas vezes discriminada, sobretudo no mercado de trabalho, no qual subsiste no “pior dos mundos possíveis”, sendo negra e mulher: seu “mistério interior” a transforma num fenômeno de atração, numa “colmeia” enxameada de pretendentes à volta.

 

E note-se que a falante reconhece nem mesmo ter o porte ou o encanto de uma modelo. E nem necessita de tais predicados, diante dos muitos atrativos, melhor dizendo, atributos físicos e comportamentais descritos ao longo das quatro estrofes do poema: não há por que abaixar a cabeça, pois a honradez que a falante nutre por si mesma supera quaisquer adversidades!

 

J.A.R. – H.C.

 

Maya Angelou

(1928-2014)

 

Phenomenal Woman

 

Pretty women wonder where my secret lies.

I’m not cute or built to suit a fashion model’s size

But when I start to tell them,

They think I’m telling lies.

I say,

It’s in the reach of my arms,

The span of my hips,

The stride of my step,

The curl of my lips.

I’m a woman

Phenomenally.

Phenomenal woman,

That’s me.

 

I walk into a room

Just as cool as you please,

And to a man,

The fellows stand or

Fall down on their knees.

Then they swarm around me,

A hive of honey bees.

I say,

It’s the fire in my eyes,

And the flash of my teeth,

The swing in my waist,

And the joy in my feet.

I’m a woman

Phenomenally.

Phenomenal woman,

That’s me.

 

Men themselves have wondered

What they see in me.

They try so much

But they can’t touch

My inner mystery.

When I try to show them,

They say they still can’t see.

I say,

It’s in the arch of my back,

The sun of my smile,

The ride of my breasts,

The grace of my style.

I’m a woman

Phenomenally.

Phenomenal woman,

That’s me.

 

Now you understand

Just why my head’s not bowed.

I don’t shout or jump about

Or have to talk real loud.

When you see me passing,

It ought to make you proud.

I say,

It’s in the click of my heels,

The bend of my hair,

The palm of my hand,

The need for my care.

‘Cause I’m a woman

Phenomenally.

Phenomenal woman,

That’s me.

 

In: “And Still I Rise” (1978)

 

Mulher com bandolim

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Mulher Fenomenal

 

Mulheres bonitas se perguntam onde está o meu segredo.

Não sou bela nem tenho o porte de uma modelo,

Mas quando começo a lhes falar,

Pensam que estou a contar mentiras.

Digo-lhes

Que está no alcance de meus braços,

Na largura de meus quadris,

No ritmo de meus passos,

No traçado sinuoso de meus lábios.

Sou uma mulher

De talhe fenomenal.

Mulher fenomenal.

Essa sou eu.

 

Entro num recinto

Tão calma quanto se queira,

E, unanimemente,

Os caras ficam de pé ou

Caem de joelhos.

Logo enxameiam à minha volta,

Uma colmeia de abelhas.

Digo-lhes

Que está no fogo de meus olhos,

No brilho de meus dentes,

Na cadência de minha cintura,

Na alegria de meus pés.

Sou uma mulher

De talhe fenomenal.

Mulher fenomenal.

Essa sou eu.

 

Os próprios homens têm-se perguntado

O que veem em mim.

Muito eles tentam,

Mas não conseguem alcançar

Meu mistério interior.

Quando lhes tento mostrar,

Afirmam que ainda não são capazes de vê-lo.

Digo-lhes

Que está na curvatura de minhas costas,

No sol de meu sorriso,

Na ondulação de meus seios,

Na graça de meu estilo.

Sou uma mulher

De talhe fenomenal.

Mulher fenomenal.

Essa sou eu.

 

Agora todos podem compreender

Exatamente por que minha cabeça não se abaixa.

Não grito nem me exalto

Nem tenho que falar bem alto.

Quando me virem passar,

Todos deveriam se sentir orgulhosos.

Digo-lhes

que está no estalido de meus saltos,

no anelado de meus cabelos,

Na palma de minha mão,

Na necessidade de meus cuidados.

Porque sou uma mulher

De talhe fenomenal.

Mulher fenomenal.

Essa sou eu.

 

Em: “Ainda Assim Eu me Levanto” (1978)

 

Referência:

 

ANGELOU, Maya. Phenomenal woman. In: __________. The complete collected poems of Maya Angelou. New York, NY: Random House, 1994. p. 130-131.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Frank O’Hara - Poema

Num tom confessional, a discorrerem sobre sentimentos que podem ter provocado desgaste emocional ao ente lírico, as linhas deste poema retratam certa renúncia ao controle absoluto de humores e de emoções tóxicas, como o ódio e as ofensas, tendo eles, de qualquer maneira, algum potencial para serem canalizados a algo positivo.

 

Isto porque não se descuida de que o amor e o ódio operam em linhas conexas, sendo coabitáveis numa mesma criatura, sem prejuízo de que outros sentimentos, como a mágoa, sigam a suscitar desconforto naqueles que se julgam mais atingidos: com efeito, quando o conflito é legítimo, o melhor a fazer é mesmo “discutir a relação”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Frank O’Hara

(1926-1966)

 

Poem

 

Hate is only one of many responses

true, hurt and hate go hand in hand

but why be afraid of hate, it is only there

 

think of filth, is it really awesome

neither is hate

don’t be shy of unkindness, either

it’s cleansing and allows you to be direct

 

like an arrow that feels something

out and out meanness, too, lets love breathe

you don’t have to fight off getting in too deep

you can always get out if you’re not too scared

 

an ounce of prevention’s

enough to poison the heart

don’t think of others

until you have thought of yourself, are true

 

all of these things, if you feel them

will be graced by a certain reluctance

and turn into gold

 

if felt by me, will be smilingly deflected

by your mysterious concern

 

Amor e Ódio

(Elena DeRosa: artista italiana)

 

Poema

 

Ódio é apenas uma de muitas reações

verdadeiras, ofensa e ódio andam de mãos dadas,

mas por que temer o ódio, ele existe – e pronto

 

pense no lixo, ele é de fato terrível

e assim é o ódio

não se envergonhe da crueldade, também

em processo de limpeza, e que lhe permite ser direta

 

qual flecha que sente alguma coisa

francamente torpe, deixe o amor respirar

você não terá de repelir se for muito ao fundo

sempre poderá sair se não estiver assustado

 

uma pitada de cautela

basta para envenenar o coração

não pense nos outros

antes de pensar em si mesmo, são legítimas

 

todas essas coisas, se você as sentir

será agraciado por certa relutância

e transformando em ouro

 

se sentindo por mim, sorridentemente desviado

por sua misteriosa preocupação

 

Referências:

 

Em Inglês

 

O’HARA, Frank. Poem. In: __________. Collected poems of Frank O’Hara. Edited by Donald Allen with an introduction by John Ashbery. First paperback printing. Berkeley (CA): University of California Press, 1995. p. 333-334.

 

Em Português

 

O’HARA, Frank. Poema. Tradução de Hélio Pólvora. In: KOSTELANETZ, Richard. (Org.). Viagem à literatura americana contemporânea. Tradução de Jaime Bernardes et alii. Rio de Janeiro, RJ: Nórdica, 1985. p. 283.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Maria Lúcia Dal Farra - Max Ernst

Nestes versos, a poetisa paulista plasma em palavras aquilo que se depreende das enigmáticas – e por vezes excêntricas – telas do artista franco-alemão (v. aqui), em grande parte a expressar valores ou ideias do cânone surrealista, ao qual veio a aderir depois que se estabeleceu em Paris (FR), metrópole onde também viveu os seus últimos dias.

 

Pássaros com mãos humanas e a se beijar, cenas de bárbaros marchando para o oeste, representações invulgares de ninfas ou de elefantes, e tantas outras criações denotando nítidas técnicas experimentais que poderiam ser tomadas como oriundas de um espírito profundamente irrequieto, face ao qual a voz lírica se pergunta, como se do próprio artista fosse: “Que micróbios atravessam meu temperamento?”

 

J.A.R. – H.C.

 

Maria Lúcia Dal Farra

(n. 1944)

 

Max Ernst

 

A memória de Robert Dierckx

 

Ele sonda a floresta, o sol, o pássaro,

o mar –

sempre à deriva, empunha o punhal

contra os emblemas.

 

Nada há a perceber

antes a ver: hordas de quimeras

pedem abluções antigas e explodem a ótica

(irritam o olhar)

que rasura o azul – alucinação

esfregada contra o chumbo

(por entre dobraduras visionárias).

 

Matéria interrogada até o inesperado.

Magnetizante pestanejar da cegueira

onde me pratico espectador –

corolário, decalque, sequela.

 

Que micróbios atravessam meu temperamento?

 

Tentação de Santo Antônio

(Max Ernst: artista franco-alemão)

 

Referência:

 

FARRA, Maria Lúcia Dal. Max Ernst. In: __________. Alumbramentos. 1. ed. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. p. 99.