Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Cristina Domenech - Dar a mão

O sujeito lírico, provavelmente uma mulher e mãe, fala-nos dos sentimentos do que é perder um filho, quando se espera, pela natural ordem das coisas, que os rebentos venham a realizar o rito mortuário de seus genitores: sente a falante uma espécie de punhalada do destino, sem ter meios de escapar para um território de pura abstração.

 

Somente na perda é que os supérstites percebem a completude do mundo pré-morte, arrimado nos laços que os mantinham com os que se foram. Agora a vida, para a enunciadora do discurso, transcorre envolta em palavras, numa espécie de refluxo a turbilhonar a mente, até que, por fim, se atenue, de algum modo, a dor da ausência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cristina Domenech

(n. 1954)

 

Dar la mano

 

Cuando se muere un hijo

abren las compuertas de los ríos

y los ojos son caballos furiosos

que galopan un mundo sin cabeza

De lo que queda recojo los pedazos

y comienzo el ritual a dentelladas

El cuerpo busca un pájaro

para escapar del territorio

Pero no hay aves que carguen a los hombres

que saben masticar la puñalada

Cuando se muere un hijo

no hay más remedio

que cortar el tiempo con los brazos

llevarlo de la mano y dejarlo

en medio de la ausencia

Advierto entonces

que el mundo estaba entero

 

Ahora soy la vida

que envuelven las palabras

 

Mãe e Filho

(William A. Bouguereau: pintor francês)

 

Dar a mão

 

Quando morre um filho

abrem-se as comportas dos rios

e os olhos são cavalos furiosos

que galopam por um mundo sem cabeça

Do que resta recolho os pedaços

e começo o ritual a dentadas

O corpo busca um pássaro

para escapar do território

Mas não há aves que carreguem homens

que saibam mastigar a punhalada

Quando morre um filho

não há outra escolha

senão cortar o tempo com os braços

tomá-lo pela mão e deixá-lo

no meio da ausência

Percebo então

que o mundo estava inteiro

 

Agora sou a vida

envolta em palavras

 

Referência:

 

DOMENECH, Cristina. Dar la mano. In: COCO, Emilio (Comp.). Il fiore della poesia latinoamericana d’oggi. Secondo volume – America meridionale – I. Edizione trilingue: spagnolo/portoghese x italiano. Rimini, IT: Raffaelli Editore, ottobre 2016. p. 278 e 280. (‘Poesia Presente’; v. 6)

domingo, 25 de setembro de 2022

Carlos Drummond de Andrade - Os pacifistas

Tendo ao redor o belo cenário da Cinelândia, no Rio de Janeiro (RJ), demarcado por prédios com arquitetura de outros tempos – lembro-me, particularmente, de quatro deles, nomeadamente, o Teatro Municipal, o Museu de Belas Artes, a Biblioteca Nacional e a Câmara Municipal –, Drummond nos fala de um estado de paz dos homens simples, ali presentes, acompanhados pelos inúmeros pombos, contumazes frequentadores da área.

 

Veja-se: o poema é datado de 28.10.1962, e o “pacifismo” que então se observa, de um Rio de Janeiro que até pouco tempo era a capital da República, já não se convalida nos dias que correm, muito mais abespinhados: a Cinelândia, hoje, inspira certa insegurança aos passantes, como, de resto, o centro da pólis – tomado pelos incontáveis moradores de rua e por outras tantas “tribos” urbanas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

Os pacifistas

 

Na Cinelândia, pela tarde,

em bancos vulgares e amigos,

sentam-se homens mal vestidos.

Não mostram pressa de voltar

para casa ou para o trabalho.

Sentam-se em honra de uma vida

que vige dentro de suas vidas

corriqueiras, pardas e tristes,

e lá ficam a ver as pombas

em torno à estátua de Floriano

catando milho distribuído

por um deus amigo das aves,

o deus que no baixar à Terra

preferiu o simples disfarce

de empregado administrativo.

Bicam as pombas, esvoaçam

por entre mármores do Teatro,

do Museu e da Biblioteca.

Não que lhes interessem óperas,

livros, telas, artes humanas.

Brincam as pombas: pena, cor,

lampejo entre árvores, tranquilo

ser-existir infenso ao trágico

mundo que se foi modelando

entre gritos, gagos regougos,

lágrimas, cóleras, solércias,

à custa do mundo essencial.

Libertados de todo peso,

deixam-se os homens existir

desprevenidos junto às pombas.

Silenciosos e circunspectos,

são talvez os homens melhores

de nosso tempo assim parados.

Não pleiteiam bens ou poderes

mais que o bem e o poder de um banco

alteado no chão de pedrinhas.

Não transportam a guerra n’alma,

não vendem ódio, não tocaiam

nem sofismam quem tem razão

entre sem-razões deste instante.

O voo não viageiro basta-lhes

para alimento das retinas

e, ao mirar as pombas, remiram

uma harmonia que perdemos.

Na Cinelândia, aves e homens

redescobrem a paz, em vida.

 

[28.10.1962]

 

Cinelândia – RJ

(Thiago Castro: pintor carioca)

 

Referência:

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Os pacifistas. In: ANDRADE, Carlos Drummond de [et al.]. O melhor da poesia brasileira: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes. 9. ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 2005. p. 38-39.

sábado, 24 de setembro de 2022

Alfonso Reyes - O Jardim Botânico

O poeta, ensaísta e tradutor mexicano pertenceu ao corpo diplomático de seu país, condição que lhe permitiu conhecer a cidade do Rio de Janeiro (RJ), tendo-lhe dedicado o poemário “Romances del Río de Enero y otros poemas” (1933), de onde transcrevi o poema abaixo.

 

Consigne-se que o título – “El Botánico” – subentende, em sua literalidade, algo distinto ou mesmo aquém do que, por fim, assumi como versão do designativo ao português – “O Jardim Botânico” (no caso, o que foi fundado no Rio, em 1808, por decisão do então príncipe regente Dom João).

 

De qualquer modo, como quer que se traduza ao português o precitado título, o conteúdo do poema extrapola as regiões lindeiras do que, em sentido estrito, diz-lhe respeito, bastando ver, v.g., as descrições de pinturas do Brasil colonial – como as de Debret e Rugendas –, ou mesmo de relações sociais entre nobres e aldeões (reinterprete-se: em Pindorama, espelhadas no binômio Casa-Grande & Senzala, de Freyre).

 

J.A.R. – H.C.

 

Alfonso Reyes

(1889-1959)

 

El Botánico

 

El-Rey Don Juan VI trajo

una palmera de Cuba.

Para besarle los pies

todas las plantas se juntan.

 

De los indianos lanceros

– al cielo el morrión de pluma –

las guardias trazan la senda,

la senda corre entre juncias.

 

Las randas de samambaya

levanta un bambú de alcurnia.

Los democráticos cactos

se entre-palpan con las púas.

 

Yace un tapiz de nenúfares

sobre el agua que se oculta,

pero el agua se estremece

sabiendo que está desnuda.

 

La hoja del papagayo

de tantos colores muda,

que ya flamea en granates

o llora de nieve pura.

 

Un hidalgo, el alcanfor;

una villana, la ruda:

Don Alonso exhala esencias,

y Aldonza Lorenzo suda.

 

Victoria Regia, de bronce

ofrece a Moisés la cuna:

bandeja sobre el estanque,

blanca flor toda de bruma.

 

Y hay otras, latiniparlas

como las preciosas cultas,

hijas de cien apellidos

que ni ellas mismas pronuncian.

 

Cola de pavo real,

toda la flora fulgura,

y la luz cambia de cálices

como el día de postura.

 

De codos en la montaña,

señora desde su altura,

con su escuadrón de furrieles

la noche espera y escucha.

 

– Los pájaros la consigna

gritaban de punta a punta.

Ya se han cerrado las rejas.

Ya sólo queda la luna.

 

Jardim Botânico do Rio de Janeiro

(Pieter G. Bertichen: pintor holandês)

 

O Jardim Botânico

 

El-Rei Dom João VI trouxe

uma palmeira de Cuba.

Para beijar-lhe os pés,

todas as plantas se juntam.

 

Dos indígenas lanceiros

– ao céu o morrião emplumado –

os guardas traçam a senda;

a senda corre entre caniços.

 

Um bambu imperial ergue

guarnições de samambaias.

Os democráticos cactos

entrelaçam-se aos espinhais.

 

Um tapete de nenúfares repousa

sobre a água que se oculta,

mas a água se agita

sabendo que está nua.

 

A folha do papagaio

de tantas cores muda,

que já flameja em grenás

ou chora de neve pura.

 

Um fidalgo, a cânfora;

Uma aldeã, a rude:

Don Alonso exala essências,

e Aldonza Lorenzo transpira.

 

A vitória-régia oferece

a Moisés o berço de bronze:

bandeja sobre a lagoa,

branca flor toda de névoa.

 

E há outras, latiniparlas, (*)

como as cultas beldades,

filhas de cem sobrenomes

que nem elas mesmas pronunciam.

 

Cauda de pavão-real,

toda a flora fulgura,

e a luz muda os seus cálices,

como o dia a postura.

 

De cotovelos na montanha,

muito senhora de sua altura,

com seu esquadrão de intendentes

a noite espera e escuta.

 

– Os pássaros gritavam

a senha de ponta a ponta.

Já se fecharam os gradeados.

Agora só resta a lua.

 

Nota:

 

(*). Latiniparla – Diz-se de pessoa que ostenta o seu conhecimento de latim ou que tem a presunção de bem falar tal idioma.

 

Referência:

 

REYES, Alfonso. El botánico. In: __________. Romances del Río de Enero y otros poemas. Selección y nota de Paola Velasco. 1. ed. Bogotá, CO: Universidad Externado de Colombia - Decanatura Cultural, mayo de 2017. p. 36-38. (‘Un libro por centavos’; Poemario n. 134)