Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 26 de março de 2021

Sarah Kirsch - Vida de Gato

Os gatos povoam a literatura mundial – de Heine a Joyce, de Elitot a Borges –, porque encantam os seus donos, fascinados pela complexa personalidade, elegância, flexibilidade, independência, imprevisibilidade e misteriosa natureza. Por consequência, os felinos acabam por incorporar valores simbólicos ou metafóricos em inúmeras obras literárias dedicadas a crianças e adultos.

No âmbito da poesia, já vão lá mais de 120 (cento e vinte) poemas postados somente neste blog – e, agora, mais um, em específico, da pena da poetisa alemã Sarah Kirsch: da enorme pachorra dos bichanos, da natureza avessa aos perros, à notória errância noturna – tais são as imagens delimitadas nos versos deste curto poema.

J.A.R. – H.C.

 

Sarah Kirsch

(1935-2013)

 

Katzenleben

 

Aber die Dichter lieben die Katzen

Die nicht kontrollierbaren sanften

Freien die den Novemberregen

Auf seidenen Sesseln oder in Lumpen

Verschlafen verträumen stumm

Antwort geben sich schütteln und

Weiterleben hinter dem Jägerzaun

Wenn die besessenen Nachbarn

Immer noch Autonummern notieren

Der Überwachte in seinen vier Wänden

Längst die Grenzen hinter sich ließ.

 

O esconde-esconde

(Henriette Ronner-Knip: pintora holando-belga)

 

Vida de Gato

 

Decerto, os poetas amam os gatos:

Os livres e amistosos fora de controle

Que, sob a chuva de novembro ao longe,

Em poltronas de seda ou sobre andrajos,

Dormem, sonham e, em silêncio,

Reagem em frêmitos, levando a vida

Por trás do gradil do cão de caça.

Enquanto os obcecados vizinhos

Ainda anotam as placas dos veículos,

O monitorado, em suas quatro paredes,

Há muito deixou as fronteiras para trás.


Referência:

KIRSCH, Sarah. Katzenleben. In: __________. Katzenleben / Catlives. Translated and edited from German to English by Marina Roscher and Charles Fishman. Lubbock, TX: Texas Tech University Press, 1991. p. 140.

ö

quinta-feira, 25 de março de 2021

Earl L. Miner - Reflexões sobre a linguagem e a apreensão da realidade

Earl Roy Miner, falecido professor na Universidade de Princeton e notável estudioso da literatura oriental, sobretudo a japonesa, empreende um arguto e persuasivo estudo no domínio da poética comparada (v. referência bibliográfica, no campo abaixo), apondo as suas distinções e similitudes, de um ao outro lado do mundo.

Em meio a tais especificidades, há, na precitada obra, outras tantas ponderações que, pululando à margem do tema central, encantam o leitor pelo poder de sua abstração ou formulação teorética, a exemplo das que, a seguir, transcrevo, todas elas alusivas à apreensão da realidade sob a forma de conhecimento por intermédio da linguagem – e da controversa força probante do que isso representaria.

J.A.R. – H.C.

 

Earl L. Miner
(1927-2004)
 

Reflexões sobre a linguagem e a apreensão da realidade

 

A transferência de conhecimento de uma área para outra envolve alguns obstáculos importantes e variáveis. A matemática o demonstra. Provavelmente nenhuma outra área do saber humano é tão largamente usada pelos outros ramos do conhecimento, e, possivelmente, nenhuma outra considera as demais tão inúteis. Somente a lógica, da qual é quase irmã gêmea, é radicalmente útil à matemática. A história oferece uma sugestiva contrapartida. Desde que tudo o que existe teve que passar por uma fase inicial e um desenvolvimento, tudo tem, então, uma história. Inclusive a matemática. Mas a utilidade dessas várias histórias para as outras categorias do conhecimento não é tão grande quanto a da matemática. A utilidade da literatura é ainda menor (embora ainda longe de ser desprezível), ao passo que é um tipo de conhecimento que parece ser capaz de incorporar – em certos aspectos ou em determinado grau – todos os outros ramos do saber. (MINER, 1996, p. 31)

 

Fundamentalmente, não há resposta para a alegação dos céticos de que a existência do mundo não pode ser provada. Fundamentalmente, também, há um eloquente testemunho em favor do mundo, na questão da sua existência ou não, no procedimento dos céticos, na sua conduta diária de vida. Em qualquer circunstância, somente podemos conhecer o mundo se estivermos equipados para tanto, e se dominarmos suficientemente a linguagem, para aprender sobre ele por meio da leitura e da conversação com as outras pessoas. Falar sobre a existência ou não do mundo é, portanto, tocar num ponto passível de discussão. No entanto, nosso comportamento e o uso que fazemos da linguagem leva-nos constantemente a supor que seria mais eficiente assumir que o mundo existe, do que o contrário. (MINER, 1996, p. 34-35)

 

A linguagem não é necessária nem para se assumir a existência do mundo, nem para se referir à questão. Enquanto pratico uma das minhas distrações favoritas, a jardinagem, posso estar pensando sem palavras, como faço em geral dois terços do meu tempo. O restante do pensamento, em forma de linguagem, é, como o exercício físico, um benefício terapêutico fundamental. (MINER, 1996, p. 35, n.r. nº 6)

 

A Dança da Vida
(Edvard Munch: pintor norueguês)


Referência:

MINER, Earl. Poética comparada: um ensaio intercultural sobre teorias da literatura. Tradução de Angela Gasperin. Brasília (DF): Editora da UnB, 1996.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Adolfo Casais Monteiro - Permanência

Sobre a condição de ser poeta, Casais Monteiro afirma-nos tratar-se de incorporar um exílio, no qual se percorre terreno sem qualquer acerto no domínio do espaço e do tempo – sem que, por conseguinte, se reconheçam as suas representações carto ou cronográficas –, razão por que não se traduzem as fronteiras em sua língua específica, uma vez que pautada em voos que pairam em toda parte.

O vate seria um “morto redivivo”. E “cego” perante as interfaces da realidade – v.g., com se diz do aedo Homero –, sendo capaz tão somente de ler “os sinais da terra”, quase sempre sem outorgar-lhes certezas – e isto num plano único do que já se passou, em passos a deslindar “distâncias de amor e de presença”.

J.A.R. – H.C.

 

Adolfo Casais Monteiro

(1908-1972)

 

Permanência

 

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta

não sabe nada de geografia

celestial. Anda

aos encontrões da realidade

sem acertar o tempo com o espaço.

Os relógios e as fronteiras não têm

tradução na sua língua. Falta-lhe

o amor da convenção em que nas outras

as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais

da terra. Seus passos cobrem

apenas distâncias de amor e

de presença. Sabe

apenas inúteis palavras de consolo

e mágoa pelo inútil. Conhece

apenas do tempo o já perdido; do amor

a câmara escura sem revelações; do espaço

o silêncio de um voo pairando

em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe

– morto redivivo.

 

Aristóteles com um busto de Homero

(Rembrandt van Rijn: pintor holandês)


Referência:

MONTEIRO, Adolfo Casais. Permanência. In: SEABRA, José Augusto (Organización y Estudio Introductorio). Poetas portugueses y brasileños: de los simbolistas a los modernistas. Edición bilingüe: Portugués x Español. Buenos Aires, AR: Instituto Camões; Brasília, BR: Thesaurus, 2002. p. 200.

terça-feira, 23 de março de 2021

Carol Ann Duffy - Educação para o Tempo Livre

Ninguém em sã consciência passe em frente ao ente lírico: ele está propenso a matar o que quer que apresente vida, a pretexto de que é um “gênio” ou “Deus”, tendo poder de vida ou morte sobre as criaturas. Aliás, para cada loucura que empreende, o falante parafraseia o enunciado divino a constar no Gênesis: “Viu que aquilo era bom”! E o pior: depois de pôr fim à vida em tudo o quanto havia em casa, agora põe-se a expor em perigo os passantes na rua e um incauto que lhe cortou a palavra num contato pelo rádio.

Shakespeare, para o ente lírico, mostrava-se, à altura de seus estudos, ininteligível no idioma inglês, assim como a mosca há pouco esmagada contra a vidraça passara a subsistir em um outro idioma, aos vivos não inteiramente decifrável: “Como moscas para meninos devassos, somos nós para os deuses; / Eles nos matam por esporte” (“Rei Lear”).

É de se presumir que o falante sofra de um problema de desconexão com a realidade, tornando-se fantasioso e narcisista. Talvez seja um (ou uma) rebelde sem causa (rs), à procura de intimidade ou de alguém que lhe dê ouvidos e lhe rompa o evidente e asfixiante isolamento.

A propósito, o toque mencionado no derradeiro verso do poema diz muito sobre o desejo de conexão, capaz de romper o estado de alienação do(a) presumível adolescente – um problema que, vez por outra, explode em casos de violência nas escolas daqui e de alhures: um dia sim e outro sim, um guri entre em sala de aula e tira a vida a muitos que ali se encontram!

J.A.R. – H.C.

 

Carol Ann Duffy

(n. 1955)

 

Education for Leisure

 

Today I am going to kill something. Anything.

I have had enough of being ignored and today

I am going to play God. It is an ordinary day,

a sort of grey with boredom stirring in the streets.

 

I squash a fly against the window with my thumb.

We did that at school. Shakespeare. It was in

another language and now the fly is in another language.

I breathe out talent on the glass to write my name.

 

I am a genius. I could be anything at all, with half

the chance. But today I am going to change the world.

Something’s world. The cat avoids me. The cat

knows I am a genius, and has hidden itself.

 

I pour the goldfish down the bog. I pull the chain.

I see that it is good. The budgie is panicking.

Once a fortnight, I walk the two miles into town

for signing on. They don’t appreciate my autograph.

 

There is nothing left to kill. I dial the radio

and tell the man he’s talking to a superstar.

He cuts me off. I get our bread-knife and go out.

The pavements glitter suddenly. I touch your arm.

 

Periquito Azul

(Clare McCartney: artista australiana)

 

Educação para o Tempo Livre

 

Hoje, vou matar algo. Não importa o quê.

Estou farto de ser ignorado e, hoje,

vou brincar de ser Deus. É um dia qualquer,

com céu acinzentado e o tédio a invadir as ruas.

 

Esmago uma mosca contra a janela com o polegar.

Fazíamo-lo na escola. Shakespeare. Era outro

idioma e, agora, a mosca está em outro idioma.

Expiro talento no vidro para escrever meu nome.

 

Sou um gênio. Poderia ser qualquer coisa, com chances

à metade. Mas, hoje, vou mudar o mundo.

O mundo de algo. O gato me evita. O gato,

sabendo que sou um gênio, escondeu-se.

 

Verto o peixe dourado na retrete e puxo a descarga.

Vejo o quanto é bom. O periquito está em pânico.

Uma vez por quinzena, caminho duas milhas até a cidade

para subscrever subsídios. Não apreciam o meu autógrafo.

 

Já não há mais nada a matar. Sintonizo o rádio

e digo ao homem que está a falar com um superstar.

Corta-me a palavra. Pego nossa faca de cortar pão e saio.

As calçadas brilham de repente. Toco em seu braço.


Referência:

DUFFY, Carol Ann. Education for leisure. In: DRAPER, Dave; SUTCLIFFE, Chris; PILGRIM, Imelda; THOMAS, Peter (Eds.). Carol Ann Duffy and Simon Armitage: working with the literature. Anthology for AQA-A-2004-6. Consultant Peter Buckroyd. First publication. Oxford, EN: Heinemann, 2004. p. 38.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Robert Morgan - π

Sobre o número π, detentor, sem dúvida, de um status de celebridade, o poeta ressalta, ademais, a sua natureza transcendental, a que acrescemos a “irracionalidade” matemática e os atributos esotéricos, neste caso – insuspeitavelmente –, pelo fato de que o perímetro de uma pirâmide, dividido por sua altura, equivale a, aproximadamente, duas vezes o número em comento. E, obviamente, não houve civilização no mundo – com exceção àquela concernente aos astecas mexicanos –, que tenha se dedicado tanto às pirâmides quanto a egípcia, claro está, em expressa conexão com o lado metafísico da existência!

O número π, tantas vezes aplicado a equações que buscam retratar o comportamento do mundo físico, acaba por servir de mote rutilante ao olhar do poeta, porque, em sua infinidade de dígitos, expressa, antiteticamente, uma racionalidade presente no centro do universo. Ou por outra: se o universo é um “locus” racional e bem disposto, então qual o móbil para a necessidade de um número irracional capaz de descrevê-lo?

É sobre esse dilema que, vez por outra, os vates se debruçam: a beleza do mundo é parte do mistério que o envolve – como diria Pascal, desde a sua escala infinita até a infinitesimal –, ainda que, desafortunadamente, derrapemos erradios pelas curvas e retas de suas estradas, enquanto continuamos em nossa vã persecução de reconciliar mente e matéria.

J.A.R. – H.C.

 

Robert Morgan

(n. 1944)

 

π

 

The secret relationship

of line and circle, progress

and return, is always known,

transcendental and yet

a commonplace. And though

the connection is written

it cannot be written out

in full, never perfect, but

is exact and constant, is

eternal and everyday

as orbits of electrons,

chemical rings, noted here

in one brief sign as gateway

to completed turns and

the distance inside circles,

both compact and infinite.

 

Ritmos Circulares nº 4

(Suzy Abrahams: artista inglesa)

 

π

 

A relação secreta

entre linha e círculo, avanço

e retrocesso, é sempre conhecida,

transcendental e, no entanto,

lugar-comum. Ainda que

a ligação seja escrita,

não pode ser escrita

na íntegra, nunca perfeita, mas

é exata e constante, é

eterna e cotidiana

como órbitas de elétrons,

anéis químicos, vistos aqui

num breve sinal como porta

para voltas completas e

distância dentro dos círculos,

ambos compactos e infinitos.


Referência:

MORGAN, Robert. π / π. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. In: O’SHEA, José Roberto (Org.). Antologia de poesia norte-americana contemporânea. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1997. Em inglês: p. 134; em português: p. 135.

domingo, 21 de março de 2021

Sérgio Milliet - O Sol Adolescente

O ente lírico põe-se a lembrar da época em que, adolescente, contemplava a sua aldeia numa ampla mirada, acomodável nas palmas de suas mãos: sente mágoas pelo espinho afigurado pela torre da igreja, pois que lhe evoca nostálgicos momentos. Com efeito, os versos espelham o idílio vivenciado pelo poeta, moldado em versos que humanizam estados ou eventos da natureza.

“Adolescente” não é propriamente o sol, senão a conjuntura sob a qual se manifestam os elementos contingentes memorados pelo falante. Afinal, sempre temos uma história feliz – ou, desafortunadamente, nem tanto – de quando éramos adolescentes ou ainda crianças, instantes nos quais nossas personalidades ainda estavam sendo moldadas pelos encontros e desencontros da vida.

J.A.R. – H.C.

 

Sérgio Milliet

(1898-1966)

 

O Sol Adolescente

 

O sol adolescente

banha os campos retangulares.

Sopra o vento cuidadoso

para que as folhas não caiam.

E brinca o riacho leviano

brinca de sela com as pedras redondas.

Os galhos dos pinheiros

abanam-se mutuamente

e nos flancos das colinas

as cerejeiras brotam de vasos negros.

 

Essa aldeia cabe nas minhas mãos abertas.

Mas a torre da igreja

fere-me as palmas

como um espinho de nostalgia.

 

Em: “Alguns Poemas Entre Muitos” (1957)

 

A velha torre nos campos

(Vincent van Gogh: pinto holandês)


Referência:

MILLIET, Sérgio. O sol adolescente. In: PONTIERO, Giovanni (Notes and Introduction). An anthology of brazilian modernist poetry. 1st. ed. Oxford, EN: Pergamon Press, 1969. p. 59.

sábado, 20 de março de 2021

Hyam Plutzik - O Sonho com o Nosso Mestre, William Shakespeare

O ente lírico sonha com Shakespeare, redundando num relato que parece ter saído a uma das peças do bardo, v.g., “Sonho de uma noite de verão”, mas, tal como ocorre em quase todo sonho, há contratempos que impedem-no de chegar a termo a um de seus mais alentados intentos – no caso em comento, de travar contato direito com Shakespeare, “tête-à-tête”.

A casa senhorial vislumbrada bem poderia ser a representação onírica do “Globe Theatre” em seu formato original, espaço de arte em que Shakespeare encenou, em primeira mão, muitas de suas peças, a exemplo de Hamlet e Rei Lear. Do meio de um “denso bosque” que tomou-lhe o recinto, eis que, mais recentemente – sejamos precisos, em 1997 –, o “Globe” foi reinaugurado pelas mãos da Rainha Elizabeth II.

J.A.R. – H.C.

 

Hyam Plutzik

(1911-1962)

 

The Dream About Our Master, William Shakespeare

 

This midnight dream whispered to me:

Be swift as a runner, take the lane

Into the green mystery

Beyond the farm and haystack at Stone.

You leave tomorrow, not to return.

 

Hands that were fastened in a vise,

A useless body, rooted feet,

While time like a bell thundered the loss,

Witnessed the closing of the gate.

Thus sleep and waking both betrayed.

 

I had one glimpse: In a close of shadow

There rose the form of a manor-house,

And in a corner a curtained window.

All was lost in a well of trees,

Yet I knew for certain this was the place.

 

If the hound of air, the ropes of shade,

And the gate between that is no gate,

Had not so held me and delayed

These cowardly limbs of bone and blood,

I would have met him as he lived.

 

Uma mansão no campo

(Sujit Sudhi: pintor indiano)

 

O Sonho com o Nosso Mestre, William Shakespeare

 

Este sonho de meia-noite sussurrou-me:

Sê rápido como um corredor, pega a pista

Rumo ao misterioso verde

Para além da quinta e da meda de feno em Stone.

Parte amanhã, para não regressares.

 

Mãos que estavam presas a um torno,

Um corpo inútil, pés enraizados

Testemunharam o fechamento do portão,

Enquanto o tempo, como um sino, troava o revés.

Assim, sonho e vigília restaram ludibriados.

 

Tive um vislumbre: em uma zona de sombra

Erguia-se a forma de uma casa senhorial

E, a um canto, uma janela com cortinas.

Tudo estava abandonado num adensado de árvores,

Mas eu tinha a certeza de que aquele era o lugar.

 

Se o portão a meio caminho não fosse um portão,

Se o cão de caça, se os cordames da sombra

Não houvessem me embaraçado e atrasado

Estes covardes membros de ossos e sangue,

Tê-lo-ia conhecido ainda quando vivo.


Referência:

PLUTZIK, Hyam. The dream about our master, William Shakespeare. In: HEANEY, Seamus; HUGHES, Ted (Eds.). The rattle bag. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1982. p. 135.