Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 22 de setembro de 2019

Tom Disch - Um Marcador

A leitura de “Em Busca do Tempo Perdido”, do francês Marcel Proust, levou a um dispêndio de, no mínimo, quatro anos pelo autor do poema de hoje (isto se formos otimistas). E do que se deduz de suas palavras, o poeta julgou tediosa a obra, que em seu conjunto, sublinhe-se, soma sete volumes.

A passagem mencionada no poema, a envolver Albertine, a musa por quem o francês se apaixonara, salvo engano, pertence ao volume cinco, cujo título é “La Prisonnière” (“A prisioneira”). Seja como for, Disch, à altura dos fatos, ainda estava a setecentas páginas, com letras miúdas, para chegar ao fim da narrativa... e, como nos anuncia, esquecê-la por completo!

J.A.R. – H.C.

Tom Disch
(1940-2008)

A Bookmark

Four years ago I started reading Proust.
Although I’m past the halfway point, I still
Have seven hundred pages of reduced
Type left before I reach the end. I will
Slog through. It can’t get much more dull than what
Is happening now: he’s buying crepe-de-chine
Wraps and a real, well-documented hat
For his imaginary Albertine.
Oh, what a slimy sort he must have been –
So weak, so sweetly poisonous, so fey!
Four years ago, by God! – and even then
How I was looking forward to the day
I would be able to forgive, at last,
And to forget Remembrance of Things Past.

Em busca do tempo perdido
(Carmen Aurariu: pintora romena)

Um Marcador

Há quatro anos comecei a ler Proust.
Embora já tenha passado da metade do caminho,
Ainda me faltam setecentas páginas com letras
Reduzidas antes de chegar ao fim. Farei um árduo
Percurso por elas. Não pode ser muito mais monótono
Do que está agora a ocorrer: ele está comprando xales
De crepe da china e um real, bem documentado chapéu
Para a sua imaginária Albertine.
Oh, que tipo maçante deve ter sido –
Tão débil, tão docemente venenoso, tão excêntrico!
Faz quatro anos, por Deus! – e, mesmo assim,
Como ansiava pelo dia
Em que poderia relevar e, por fim,
Esquecer Em Busca do Tempo Perdido.

Referência:

DISCH, Tom. A bookmark. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 276.

sábado, 21 de setembro de 2019

Hermann Hesse - Jovem Noviço num Mosteiro Zen II

Hesse expressa, neste poema, a alegria daquele que conseguiu se desvencilhar dos excessos de um ego sem limites, entregando-se a um reino de iluminação que, aos olhos do zen-budismo, advém de experiência interior levada a efeito com ênfase e seriedade, para que, desse modo, se alcance a essência mesma do mundo.

Há certo pendor ao minimalismo em relação às coisas materiais, favorecendo o aperfeiçoamento espiritual do noviço: a compreensão do mundo das aparências (Maya) dá-se pelo emprego de suas qualidades naturais ou instintivas, permitindo-lhe elevar o poder de Maya à própria essência do mundo real.

J.A.R. – H.C.

Hermann Hesse
(1877-1962)

Junger Novize im Zen-Kloster II

Ist auch alles Trug und Wahn
Und die Wahrheit stets unnennbar,
Dennoch blickt der Berg mich an
Zackig und genau erkennbar.

Hirsch und Rabe, rote Rose,
Meeresblau und bunte Welt:
Sammle dich – und sie zerfällt
Ins Gestalt – und Namenlose.

Sammle dich und kehre ein,
Lerne schauen, lerne lesen!
Sammle dich – und Welt wird Schein.
Sammle dich – und Schein wird Wesen.

(Februar 1961)

Jovem noviço budista
(Candi Parshall: artista norte-americana)

Jovem Noviço num Mosteiro Zen II

Seja tudo ilusão e fantasia,
permanecendo a verdade indizível:
entretanto, a montanha me contempla
com seu contorno bem reconhecível.

Cervo e corvo, rosa rubra e lilás,
azul de mar e mundo variegado:
se te concentras, tudo se desfaz
no grande Uno amorfo e inominado.

Recolhe-te ao mais fundo do teu ser
e assim aprende a ver, aprende a ler!
Concentra-te... e o mundo faz-se aparência.
Concentra-te... e a aparência faz-se essência.

(Fevereiro 1961)

Referências:

Em Alemão

HESSE, Hermann. Junger Novize im Zen-Kloster II. In: __________. Die gedichte: 1892-1962. 19. auflage. Frankfurt am Main, DE: Suhrkamp, 1977. s. 720.

Em Português

HESSE, Hermann. Jovem noviço num mosteiro zen II. Tradução de Geir Campos. In: ______. Andares: antologia poética. Tradução de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1976. p. 235.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Florbela Espanca - O teu livro

A poetisa torna-se desesperançada ao perceber que no livro de amor do seu querido não há qualquer referência que lhe diga respeito, senão a toda a gente com quem se relaciona. E a julgar que um livro nunca “mente” sobre o estado anímico de quem o elabora, certamente o seu redator não pensa em dar retorno a tal sentimento.

Florbela afirma que o autor desfolha as suas rosas, “rubros beijos de bocas mentirosas”, a todas as mulheres que lhe passam em vida. Mas ela ainda assim se dispõe a recolhê-las, ainda que pisadas, caso seja do proveito do destinatário de sua, aparentemente, infecunda paixão.

De repente, não sei nem por quais razões inconscientes, vieram-me à mente as palavras de Amália Rodrigues, no fado “Confesso”: “Convences as mulheres, convences / Estou farta de o saber, estou farta”. E o arremate?: “De rastos a teus pés / Perdida te adorei / Até que me encontrei, perdida / Agora já não és / Na vida o meu senhor / Mas foste o meu amor, na vida”. Seria ou não um lídimo fado esse amor?!

J.A.R. – H.C.

Florbela Espanca
(1894-1930)

O teu livro

Li o teu livro, Amor, sofregamente;
Li-o, e nele em vão me procurei!
No teu livro d’amor não me encontrei,
Tendo lá encontrado toda a gente.

Um livro é a nossa alma, nunca mente!
Um livro somos nós, eu bem o sei...
E se em teus lindos versos não me achei
E que a tua alma nem sequer me sente!

As rosas do teu livro! As tuas rosas!
Rubros beijos de bocas mentirosas,
Desfolhaste-as por todas as mulheres!

Mas deixa, meu Amor, mesmo pisadas,
As tuas lindas rosas desfolhadas,
Eu apanho-as do chão, se tu quiseres...

Jovem lendo um livro
(Jean-Baptiste Camille Corot: pintor francês)

Referência:

ESPANCA, Florbela. O teu livro. In: __________. Poemas. Estudo introdutório, organização e notas de Maria Lúcia Dal Farra. 1. ed., 5. tiragem (2010). São Paulo, SP: Martins Fontes, 1996. p. 319.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Tess Gallagher - Paro de Escrever o Poema

A mulher poetisa deixa a labuta com as palavras para mais tarde, depois de cumprir os seus deveres de esposa: nesse mister, ela está ciente de que é objeto da observação de sua filha, a aprender com ela e, quem sabe mais tarde, a seguir o seu exemplo. Ou não: porque nos dias que correm as mulheres são muito mais donas de seus destinos!

Seja como for, o poema reforça a ideia de que, indubitavelmente, os pais são os principais exemplos para os filhos. Ademais, a poetisa põe em relevo o fato de que seu esposo – o também poeta Raymond Carver – já não lhe acompanha em vida, embora nada lhe impeça de continuar cuidando de suas roupas, talvez para manter vívidos os belos momentos do extinto relacionamento.

J.A.R. – H.C.

Tess Gallagher
(n. 1943)

I Stop Writing the Poem

to fold the clothes. No matter who lives
or who dies, I’m still a woman.
I’ll always have plenty to do.
I bring the arms of his shirt
together. Nothing can stop
our tenderness. I’ll get back
to the poem. I’ll get back to being
a woman. But for now
there’s a shirt, a giant shirt
in my hands, and somewhere a small girl
standing next to her mother
watching to see how it’s done.

Aia passando roupa
(Henry R. Morland: pintor inglês)

Paro de Escrever o Poema

para dobrar as roupas. Não importa quem viva
ou quem morra, ainda sou uma mulher.
Sempre terei muito o que fazer.
Trago unidos os braços de sua
camisa. Nada pode deter
nossa ternura. Regressarei
ao poema. Voltarei a ser
uma mulher. Mas, por enquanto,
há uma camisa, uma gigantesca camisa
em minhas mãos e, em algum lugar, uma pequena garota
parada ao lado de sua mãe
observando para ver como se faz.

Referência:

GALLAGHER, Tess. I stop writing the poem. In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 184.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

W. B. Yeats - A Rosa do Mundo

Yeats vai de encontro à ideia de que a beleza passa como um sonho, pois esta também faz interface com grandes enredos da violência humana, tais como os imortalizados nos desenlaces do saque de Troia ou na morte dos filhos de Usna. Por conseguinte, a beleza de sua amada, a atriz e feminista irlandesa Maud Gonne, teria, do mesmo modo, potencial para inspirar voragens de destruição.

O poeta até sugere que os entes imortais, como os arcanjos, persignem-se frente à inalterável beleza de Gonne, pois lhe parece que ela sempre existiu, ao lado de Deus, antes de começar este mundo, mundo esse, aliás, que teria sido concebido, antes de tudo, para que ela o pudesse altaneiramente trilhar.

J.A.R. – H.C.

W. B. Yeats
(1865-1939)

The Rose of the World

Who dreamed that beauty passes like a dream?
For these red lips, with all their mournful pride,
Mournful that no new wonder may betide,
Troy passed away in one high funeral gleam,
And Usna’s children died.

We and the labouring world are passing by:
Amid men’s souls, that waver and give place
Like the pale waters in their wintry race,
Under the passing stars, foam of the sky,
Lives on this lonely face.

Bow down, archangels, in your dim abode:
Before you were, or any hearts to beat,
Weary and kind one lingered by His seat;
He made the world to be a grassy road
Before her wandering feet.

O duplo secreto
(René Magritte: artista belga)

A Rosa do Mundo (1)

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por esses lábios rubros, de orgulho tristonho
Por um assombro novo não acontecer,
Troia passou, alto vislumbre funeral,
E os filhos de Usna vieram a morrer. (2)

Nós e o mundo que lida estamos a passar:
Entre almas de homens, que oscilando dão lugar
Como as pálidas águas na invernal corrida,
Sob estrelas em fuga, espuma celestial.
Esta face sozinha leva a sua vida.

Inclinai-vos, arcanjos, na turva morada:
Antes que fôsseis, ou pulsasse um coração, já antes,
Ela era ao pé do Trono, amável e cansada;
Fez Ele o mundo para ser relvosa a estrada
Ante seus pés errantes.

Notas do Tradutor:

(1). Neste poema, de The Rose (1893), Yeats compara a bem-amada (Maud Gonne) a Helena de Troia e a Deirdre. A mulher – frisa Ellmann, logo se torna a própria beleza ante o trono de Deus, “concepção familiar a Shelley e Spenser, e que deve à teoria cabalística e neoplatônica de que a Shekhinah ou eterno feminino é coevo de Deus”.

(2) “Os filhos de Usna: Naisi, que amava Deirdre, a qual devia casar com o rei Conchubar, e os irmãos do moço, Ardan e Anly. Os três morreram por ela. Deirdre era moça de extrema formosura.

Nota de Alerta:

Péricles Eugênio da Silva Ramos emprega, na introdução e em muitas de suas traduções, referências à obra abaixo, a exemplo da menção contida na Nota 1 supra.

ELLMANN, Richard. The identity of Yeats. 3rd. ed. London, EN: Faber and Faber, 1983.

Quanto aos personagens citados na Nota 2, pertencem à peça “Deirdre of the Sorrows”, do dramaturgo irlandês John Millington Synge.

Referência:

YEATS, W. B. The rose of the world / A rosa do mundo. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: __________. Poemas de W. B. Yeats. Tradução, introdução e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo, SP: Art Editora, 1987. Em inglês: p. 52; em português: p. 53.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Mia Couto - Sementeira

A escrita da poesia é uma semeadura ao final da qual não resulta colheita proveitosa, senão apenas o que não se pode colher – a aridez, talvez, da paisagem desértica, porque as sementes, decerto, caíram em terreno infértil – a se associar o sentido dos versos à metáfora do semeador, contida em (Mateus, 13).

Couto suspeita que o malogro da colheita – ainda que haja recolhido ao poema tudo o quanto sobre a terra existe – decorreu verdadeiramente do fato de que o próprio poeta desconhecia a vida que alhures se manifestava, e em si próprio, mesmo à vista de toda a acuidade verbal de que é detentor.

J.A.R. – H.C.

Mia Couto
(n. 1955)

Sementeira

O poeta
faz agricultura às avessas:
numa única semente
planta a terra inteira.

Com lâmina de enxada
a palavra fere o tempo:
decepa o cordão umbilical
do que pode ser um chão nascente.

No final da lavoura
o poeta não tem conta para fechar:
ele só possui
o que não se pode colher.

Afinal,
não era a palavra que lhe faltava.

Era a vida que ele, nele, desconhecia.

Em: “Tradutor de chuvas” (2011)

O semeador
(Vincent van Gogh: pintor holandês)

Referência:

COUTO, Mia. Sementeira. In: __________. Poemas escolhidos. Seleção do autor. Apresentação de José Castello. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2016. p. 164.

Série “A” 2019 – Fim do 1º Turno – Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Findo o primeiro turno do Brasileirão 2019, vão aqui as novas projeções obtidas a partir das métricas do MEM, à luz do ocorrido nas últimas 10 (dez) rodadas, a saber, da 9ª até a 19ª.

Nesse ínterim, despontam os números de gols marcados pelo Flamengo – 27, bem à frente do segundo colocado, o Santos com 18 –, e de gols sofridos pelo Bahia – 5 ao todo –, seguido pelo Corinthians e o Athletico-PR, com 7.

Na parte de baixo da tabela há certa alternância entre os times, embora o Avaí lá se mantenha desde a primeira projeção, seguido pelo Fluminense e a Chapecoense, nas duas mais recentes (15º e 19º rodadas).

Retornaremos ao final da 25ª rodada, quando os números já começam a apresentar maior sedimentação em relação ao que, de fato, vem a ocorrer ao final do campeonato.

J.A.R. – H.C.

Fontes:

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Anna Swir - Leitura de Poesia

Apresento aqui uma versão ao português, por mim levada a efeito a partir da tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan, do polonês ao inglês: trata-se de uma criação da poetisa Anna Świrszczyńska, cuja obra é muito pouco difundida por estas plagas.

Nota-se nos versos de Anna uma breve reflexão sobre a dúvida acerca do que representam os objetivos da própria poesia, quase a tangenciar as mesmas reflexões de que cuida a filosofia: “essa monstruosidade chamada vida”, a nos atordoar sobre o real sentido da existência.

Leituras de poesia não são comuns em alguns países. Em outros, entre eles a Polônia, elas atraem uma audiência que não trata a poesia apenas como uma experiência estética. Pelo contrário, de uma forma ou de outra, tais audiências trazem ao evento suas múltiplas perguntas sobre a vida e a morte. Este poema capta bem a ignorância e o desamparo tanto da poetisa quanto de seus ouvintes. (MILOSZ, 1998, p. 259)

J.A.R. – H.C.

Anna Świrszczyńska
(1904-1984)

Poetry Reading

I’m curled into a ball
like a dog
that is cold.

Who will tell me
why I was born,
why this monstrosity
called life.

The telephone rings. I have to give
a poetry reading.

I enter.
A hundred people, a hundred pairs of eyes.
They look, they wait.
I know for what.

I am supposed to tell them
why they were born,
why there is
this monstrosity called life.

Tantos olhos sobre mim
(Autoria Desconhecida)

Leitura de Poesia

Estou enrolada numa bola
como um cão
sentindo frio.

Quem me dirá
por que nasci,
por que essa monstruosidade
chamada vida.

O telefone toca. Tenho que organizar
uma leitura de poesia.

Eu entro.
Cem pessoas, cem pares de olhos.
Eles observam, esperam.
Bem sei por quê.

Presume-se que lhes deveria dizer
por que nasceram,
por que existe
esta monstruosidade chamada vida.

Referência:

SWIR, Anna. Poetry reading. Translated from the Polish by Czeslaw Milosz and Leonard Nathan. In: MILOSZ, Czeslaw (Ed.). A book of luminous things: an international anthology of poetry. 1st. ed. New York, NY: Houghton Mifflin Harcourt, 1998. p. 259.

domingo, 15 de setembro de 2019

Wisława Szymborska - Uma ideia

Uma ideia personalizada tem uma conversa bem-humorada com a poetisa polonesa, fazendo-a crer tratar-se de um belo estímulo à escrita de um poema. Mas Szymborska não se dá por satisfeita e a replica vezes sem conta, até que, por fim, ela se desfaz no espaço, contrafeita.

De fato, o que Szymborska pretende nos alertar é que nem sempre uma suposta inspiração vem a se manifestar, no texto escrito, num poema que faça alguma diferença. Desse modo, o poeta é chamado a repensar e reelaborar as linhas do poema, para que este não caia no mais completo esquecimento.

J.A.R. – H.C.

Wisława Szymborska
(1923-2012)

Pomysł

Przyszedł mi pewien pomysł
na wierszyk? na wiersz?
To dobrze – mówię – zostań, pogadamy.
Musisz mi więcej o sobie powiedzieć.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Ach, o to chodzi – mówię – to ciekawe.
Od dawna już te sprawy leżą mi na sercu.
Ale żeby wiersz o nich? Nie, na pewno nie.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Tak ci się tylko zdaje – odpowiadam –
przeceniasz moje siły i zdolności.
Nawet bym nie wiedziała, od czego mam zacząć.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Mylisz się – mówię – wiersz zwięzły i krótki
o wiele trudniej napisać niż długi.
Nie męcz mnie, nie nalegaj, bo to się nie uda.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Niech ci będzie, spróbuję, skoro się upierasz.
Ale z góry uprzedzam, co z tego wyniknie.
Napiszę, przedrę i wyrzucę do kosza.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Masz rację – mówię – są przecież inni poeci.
Niektórzy zrobią to lepiej ode mnie.
Mogę ci podać nazwiska, adresy.
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
Tak, naturalnie, będę im zazdrościć.
My sobie zazdrościmy nawet wierszy słabych.
A ten chyba powinien… chyba musi mieć…
Na co on szeptem kilka słów na ucho.
No właśnie, mieć te cechy które wyliczyłeś.
Więc lepiej zmieńmy temat.
Napijesz się kawy?

Na co on westchnął tylko.

I zaczął znikać.

I zniknał.

(“Tutaj”, 2009)

À espera de uma ideia
(Jiri Petr: artista tcheco)

Uma ideia

Me veio uma ideia
para um versinho? para um poema?
Está bem – digo – fique, vamos bater um papo.
Você tem de me contar mais sobre si mesma.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Ah, então é isso – digo – interessante.
Faz tempo que estas coisas me pesam no peito.
Mas fazer versos sobre elas? Não, nem pensar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Isso é só impressão sua – respondo –
você superestima minhas forças e capacidade.
Não saberia nem por onde começar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você se engana – digo – um poema curto e conciso
é muito mais difícil de escrever do que um longo.
Não me canse, não insista, não vai dar.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Que seja, vou tentar, já que você insiste.
Mas já vou avisando do resultado.
Vou escrever, rasgar e jogar no cesto de lixo.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
Você tem razão – digo – decerto que há outros poetas.
Alguns farão isto melhor que eu.
Posso lhe dar os nomes, endereços.
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É claro que vou ficar com inveja deles.
Invejamos uns aos outros até os poemas medíocres.
E me parece que este precisa... que tem que ter...
Ao que ela sussurra umas palavras ao meu ouvido.
É isso, ter as características que você enumerou.
Portanto, melhor mudar de assunto.
Que tal um café?

Ao que ela apenas soltou um suspiro.

E começou a sumir.

E sumiu.

(“Aqui”, 2009)

Referência:

SZYMBORSKA, Wisława. Pomysł / Uma ideia. Tradução de Regina Przybycien. In: __________. Um amor feliz. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. 1. ed. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2016. Em polonês: p. 270 e 272; em português: p. 271 e 273.