Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 25 de maio de 2018

José Carlos Ary dos Santos - Arte Peripoética

Ary dos Santos teoriza sobre a necessidade de a poesia ser tão contemporânea quanto possível às experiências do poeta – e vai buscar respaldo para tal asserção em Aristóteles, o filósofo estagirita que nos legou um conjunto de anotações recolhidas à obra “Poética”, ora pois, ironicamente já tão distante no tempo, que Ary dos Santos o retrata como sendo uma “visita” à casa de sua avó.

Além do mais, parece-me que o poema responde à audiência sobre os motivos pelos quais o poeta prefere manter-se sozinho a estar mal acompanhado, e não se sabe se essa companhia há de ser entendida em sentido estrito ou possa também valer para algo como a opção de pertencimento a uma escola ou vanguarda literária. Quem nos dirá?!...

J.A.R. – H.C.


José Carlos Ary dos Santos
(1937-1984)

Arte Peripoética

Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de ser
contra a maneira do tempo
esta maneira de ver
o que o tempo tem por dentro.
Aristóteles diria
entre dois golos de chá
que o melhor ainda seria
deixar o tempo onde está
pô-lo de perto no tema
e de parte na poesia
para manter o poema
dentro da ordem do dia.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só.
Ele sabia que o poeta
depois de tudo inventado
depois de tudo previsto
de tudo vistoriado
teria de fazer isto
para não continuar
o que já estava acabado
teria de ser presente
não futuro antecipado
não profeta não vidente
mas aço bem temperado
cachorro ferrando o dente
na canela do passado
adaga cravando a ponta
no coração do sentido
palavra osso furando
pele de cão perseguido.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
não acharia esquisita
esta forma de estar só
esta maneira de riso
que é a mais original
forma de se ter juízo
e ser poeta actual.
Aristóteles, visita
da casa de minha avó,
também diria antes só
do que mal acompanhado
antes morto emparedado
em muro de pedra e cal
aonde não entre bicho
que não seja essencial
à evasão da palavra
deste silêncio mortal.


A Visita do Doutor
(Jan Steen: pintor holandês)

Referência:

ARY DOS SANTOS, José Carlos. Arte peripoética. In: MENÉRES, Maria Alberta; MELO E CASTRO, E. M. de (Orgs.). Antologia da novíssima poesia portuguesa. 3. ed. 2. vol. Lisboa, PT: Moraes Editores, 1971. p. 711-712. (‘Círculo de Poesia’; v. 46)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Jacques Prévert - O Burro ‎

Literalmente, o mau aluno é o tema deste poema de Prévert, que aqui como alhures, recebe o cognome de “burro”, em razão de suas poucas “luzes”, dando motivo à caçoada dos alunos mais bem aquinhoados de neurônios (rs), em circunstâncias que, nos dias que correm, tangenciam o politicamente incorreto!

 

Afinal, às vezes, não é só o fato de o aluno passar ao largo dos cadernos e livros didáticos que leva a um aprendizado “zero”, podendo existir disfunções biológicas, fisiológicas ou psicológicas por trás do mau desempenho. Ademais, pelo que presenciei em sala de aula, quer como discente quer como docente, diria, noutro giro, que a questão mais relevante para solucionar o problema passa pela opção didática perfilhada.

 

Pelo momento, poderíamos atualizar a associação da incapacidade para se aprender à teimosia do burro ou do asno, oriundas em fábulas milenares: há quem tenha adotado a “anta” como o animal preferencial em suas piadinhas infames acerca do assunto.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jacques Prévert

(1900-1977)

 

Le Cancre

 

Il dit non avec la tête

Mais il dit oui avec le cœur

Il dit oui à ce qu’il aime

Il dit non au professeur

Il est debout

On le questionne

Et tous les problèmes sont posés

Soudain le fou rire le prend

Et il efface tout

Les chiffres et mes mots

Les dates et les noms

Les phrases et les pièges

Et malgré les menaces du maître

Sous les huées des enfants prodiges

Avec des craies de toutes les couleurs

Sur le tableau noir du malheur

Il dessine le visage du bonheur.

 

Dans: “Paroles” (1946)

 

O Estulto

(Harold Copping: pintor inglês)

 

O Burro

 

Ele diz não com a cabeça

Mas diz sim com o coração

Diz sim ao que gosta

Diz não ao professor

De pé

Ele é interrogado

Todos os problemas são suscitados

De repente, um riso insano o sujeita

E a tudo apaga

Os números e as minhas palavras

As datas e os nomes

As frases e as armadilhas

E apesar das ameaças do mestre

Sob os apupos dos infantes prodígios

Com gizes de todas as cores

No quadro negro do infortúnio

Desenha o rosto da felicidade.

 

Em: “Palavras” (1946)

 

Referência:

 

PRÉVERT, Jacques. Le cancre. In: DÉCAUDIN, Michel (Éd.). Anthologie de la poésie française du XXe siècle. Préface de Claude Roy. Édition revue et augmentée. Paris, FR: Gallimard, 2000. p. 404.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Pier Paolo Pasolini - À minha nação ‎

Não fosse pela menção de que a Itália pertence à Europa, diria que Pasolini, de fato, talvez estivesse falando do Brasil (rs)! Poderia ele então ter acrescentado uma mídia canalha, que a pretexto de defender o interesse do povo, longe disso, só vê as benesses que pode arregimentar ao erário, em desfavor, claro está, desse mesmo povo! E haja manipulação!

Que mau exemplo para o mundo: poderia naufragar de vez e livrá-lo de ter que lidar com tamanha leviandade! A bem da verdade, deveria este Pindorama extirpar de seu dicionário palavras como ética ou virtude, porque a carência de princípios morais, sobretudo na maior parte de sua classe política e de seus magistrados, é axiomática!

J.A.R. – H.C.

 

Pier Paolo Pasolini

(1922-1975)

 

Alla mia nazione

 

Non popolo arabo, non popolo balcanico, non popolo antico,

ma nazione vivente, ma nazione europea:

e cosa sei? Terra di infanti, affamati, corrotti,

governanti impiegati di agrari, prefetti codini,

avvocatucci unti di brillantina e i piedi sporchi,

funzionari liberali carogne come gli zii bigotti,

una caserma, un seminario, una spiaggia libera, un casino!

Milioni di piccoli borghesi come milioni di porci

pascolano sospingendosi sotto gli illesi palazzotti,

tra case coloniali scrostate ormai come chiese.

Proprio perché tu sei esistita, ora non esisti,

proprio perché fosti cosciente, sei incosciente.

E solo perché sei cattolica, non puoi pensare

che il tuo male è tutto il male: colpa di ogni male.

Sprofonda in questo tuo bel mare, libera il mondo.

 

In: “La Religione del mio Tempo” (1961)

 

Verona

(Leonid Afremov: pintor israelense)

 

À minha nação

 

Não povo árabe, não povo balcânico, não povo antigo,

mas nação vivente, mas nação europeia:

e o que és? Terra de infantes, famintos, corruptos,

governantes a soldo do latifúndio, prefeitos reacionários,

advogadinhos sebentos de brilhantina e pés imundos,

profissionais liberais canalhas como tios carolas,

um quartel, um seminário, uma praia livre, um bordel!

Milhões de pequenos burgueses como milhões de porcos

a pastar empurrando-se sob intactos palacetes,

entre casas coloniais já descascadas feito igrejas.

E justo porque exististe, agora não existes,

justo porque foste consciente, és inconsciente.

E só porque és católica, não podes pensar

que teu mal é todo o mal: culpa de todo mal.

Naufraga em teu mar maravilhoso, liberta o mundo.

 

Em: “A Religião do meu Tempo” (1961)


Referência:

PASOLINI, Pier Paolo. Alla mia nazione / À minha nação. Tradução de Maurício Santana Dias. In: __________. Poemas. Organização e introdução de Alfonso Berardinelli e Maurício Santana Dias. Posfácio de Maria Betânia Amoroso. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2015. Em italiano: p. 146; em português: p. 147.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Fernando Pessoa - Não me importo com as rimas ‎

Assim como Eugenio Montale, segundo o poema “As Rimas”, o poeta português pouca atenção confere a esse recurso de homofonia externa, comumente empregado ao final dos versos, muito embora, é claro, possua alguns sonetos em que elas se oferecem ostensivas.

 

Mas se observe que Pessoa sustenta haver certa “simplicidade divina” em ser só externalidades, como a cor das flores e, em homologia, a harmonia das rimas, ele que é, em contraste, expressão caudalosa de pensamentos e sentimentos que lhe invadem o desassossegado espírito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

 

Não me importo com as rimas

 

Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior.

 

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se vento...

 

(Alberto Caeiro)

“O Guardador de Rebanhos” (1911-1912): poema XIV

 

Vitória-Régia

(Marianne North: artista inglesa)

 

Referência:

 

PESSOA, Fernando. Não me importo com as rimas. In: __________. Obra poética. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1981. p. 148. (Biblioteca Luso-Brasileira)

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Francisco Brines - O porquê das palavras ‎

Não custa crer que o poeta espanhol, ao afirmar que não teve amor pelas palavras, de fato, não esteja falando a verdade, ou melhor, apenas busque entretecer um jogo para chamar a atenção do leitor. Afinal, se for um literato sério, com qual outro instrumento poderá contar, senão com as aludidas palavras?!

E mais: a dar crédito a John Austin, têm elas tanto poder que são capazes de concretizar inúmeras operações humanas, porquanto o ato de dizer dá ensejo a um executar, a um fazer, a uma prática. E complemento eu, elas permitem a verbalização da própria poesia, pois que, de outro modo, esta ficaria encerrada na mente do poeta, sem aflorar rumo à audiência, perdendo-se numa experiência solipsista. A propósito: tal não seria o mote do poema de Brines, vale dizer, perdeu-se o poeta num mutismo fragmentário, que consistiria numa outra forma de desamor às palavras?!...

J.A.R. – H.C.

Francisco Brines
(n. 1932)

El porqué de las palabras

No tuve amor a las palabras;
si las usé con desnudez, si sufrí en esa busca,
fue por necesidad de no perder la vida,
y envejecer con algo de memoria
y alguna claridad.

Así uní las palabras para quemar la noche,
hacer un falso día hermoso,
y pude conocer que era la soledad el centro de este mundo.
Y sólo atesoré miseria,
suspendido el placer para experimentar una desdicha nueva,
besé en todos los labios posada la ceniza,
y fui capaz de amar la cobardía porque era fiel y era digna
del hombre.

Hay en mi tosca taza un divino licor
que apuro y que renuevo;
desasosiega, y es
remordimiento;
tengo por concubina a la virtud.
No tuve amor a las palabras,
¿cómo tener amor a vagos signos
cuyo desvelamiento era tan sólo
despertar la piedad del hombre para consigo mismo?
En el aprendizaje del oficio se logran resultados:
llegué a saber que era idéntico el peso del acto que resulta
de lenta reflexión y el gratuito,
y es fácil desprenderse de la vida, o no estimarla,
pues es en la desdicha tan valiosa como en la misma dicha.

Debí amar las palabras;
por ellas comparé, con cualquier dimensión del mundo externo:
el mar, el firmamento,
un goce o un dolor que al instante morían;
y en ellas alcancé la raíz tenebrosa de la vida.
Cree el hombre que nada es superior al hombre mismo:
ni la mayor miseria, ni la mayor grandeza de los mundos,
pues todo lo contiene su deseo.

Las palabras separan de las cosas
la luz que cae en ellas y la cáscara extinta,
y recogen los velos de la sombra
en la noche y los huecos;
mas no supieron separar la lágrima y la risa,
pues eran una sola verdad,
y valieron igual sonrisa, indiferencia.
Todo son gestos, muertes, son residuos.

Mirad al sigiloso ladrón de las palabras,
repta en la noche fosca,
abre su boca seca, y está mudo.

En: “Insistencias en Luzbel” (1977)

Mundo de Sonhos
(Jacek Yerka: pintor polonês)

O porquê das palavras

Não tive amor às palavras;
se as usei com parcimônia, se sofri nessa busca,
foi por necessidade de não perder a vida,
e envelhecer com algo de memória
e alguma claridade.

Assim uni as palavras para queimar a noite,
fazer um falso e belo dia,
com o que pude atestar que a solidão era o centro deste mundo.
E só entesourei miséria,
suspenso o prazer para experimentar um novo infortúnio,
beijei em todos os lábios estando assente a cinza,
e fui capaz de amar a covardia porque era fiel e era digna
do homem.

Há em minha rústica chávena um licor divino
que sorvo e que renovo;
desassossega, e é
remorso;
tenho a virtude por concubina.
Não tive amor às palavras;
como ter amor a vagos signos
cujo desvelamento era tão somente
despertar a piedade do homem para consigo mesmo?
Na aprendizagem do ofício conseguem-se resultados:
cheguei a saber que eram idênticos os pesos do ato que resulta
de lenta reflexão e o do gratuito,
e é fácil desprender-se da vida, ou não estimá-la,
pois é no infortúnio tão valiosa quanto o é na própria ventura.

Deveria ter amado as palavras;
por elas comparei, com qualquer dimensão do mundo externo:
o mar, o firmamento,
um gozo ou uma dor que prontamente morriam;
e nelas alcancei a raiz tenebrosa da vida.
Crê o homem que nada é superior ao próprio homem:
nem a maior miséria, nem a maior grandeza dos mundos,
pois tudo o seu desejo contém.

As palavras separam das coisas
a luz que sobre elas cai e a casca extinta,
e recolhem os véus da sombra
na noite e nos vazios;
mas não souberam separar a lágrima do riso,
pois eram uma só verdade,
e valeram qual sorriso, indiferença.
Tudo são gestos, mortes, são resíduos.

Olhai o furtivo ladrão das palavras,
rasteja na noite sem brilho,
abre sua boca seca, e está mudo.

Em: “Insistências em Luzbel” (1977)

Referência:

BRINES, Francisco. El porqué de las palabras. In: __________. Antología poética. Selección y prólogo de José Olivio Jiménez. Madrid, ES: Alianza Editorial, 1986. p. 154-155. (“Sección: Literatura”; “El Libro de Bolsillo”; LB 1190)

domingo, 20 de maio de 2018

Howard Nemerov - O Globo Diário ‎

A forma como os jornais, em qualquer que seja a mídia, levam as notícias ao conhecimento dos usuários à volta do mundo nada mais é do que a recapitulação diária das catástrofes, pois, segundo o poeta, o maior prazer intelectual do homem é repetir-se.

 

Em meio aos personagens das histórias em quadrinhos, que teimam em persistir nas páginas de diversões dos jornais ainda em circulação, atenta Nemerov para o fato de que, nos periódicos, são suficientemente segregadas por sexo as seções relacionadas a óbitos e casamentos, nestas últimas sendo frequentes as fotografias de moças e, naquelas, as de homens.

 

J.A.R. – H.C.

 

Howard Nemerov

(1920-1991)

 

The Daily Globe 

 

Each day another installment of the old

Romance of Order brings to the breakfast table

The paper flowers of catastrophe.

One has this recurrent dream about the world.

 

Headlines declare the ambiguous oracles,

The comfortable old prophets mutter doom.

Man’s greatest intellectual pleasure is

To repeat himself, yet somehow the daily globe

 

Rolls on, while the characters in comic strips

Prolong their slow, interminable lives

Beyond the segregated photographs

Of the girls that marry and the men that die.

 

O aroma de rosas:

uma beldade num jardim

(Konstantin Razumov: pintor russo)

 

O Globo Diário

 

Cada dia um outro capítulo do velho

Romance da Ordem traz à mesa do desjejum

As flores de papel da catástrofe.

Tem-se esse sonho periódico a respeito do mundo.

 

As manchetes anunciam os oráculos ambíguos,

Os velhos profetas confortáveis murmuram o destino.

O maior prazer intelectual do homem é

Repetir-se, embora de algum modo o globo diário

 

Siga adiante, enquanto os personagens das estórias

em quadrinhos

Prolongam suas vidas lentas, intermináveis,

Além das fotografias segregadas

Das moças que se casam e dos homens que morrem.

 

Referência:

 

NEMEROV, Howard. The daily globe / O globo diário. Tradução de Marcos Santarrita. In: __________ (Coord.). Poesia como criação. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro, GB: Edições GRD, 1968. Em inglês: p. 299-300; em português: p. 303.