Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Cecília Meireles - Noções

Navego e navego por mares de palavras muito bem declinadas, por poemas e discursos maravilhosamente construídos, mas isso, que é bastante, não me é suficiente – e bem mais eu quero! (Será que houve em minha alocução plágio velado ou inconsciente de algum poema de Álvaro de Campos? rs).

Por isso sempre regresso às origens, aos autore(a)s que me foram apresentado(a)s ainda no começo da adolescência, por professores com quem hoje já não topamos por aí, meus queridos e queridas onde quer que se encontrem, possivelmente abraçados ao Eterno...

E claro, Cecília Meireles está no rol desses autore(a)s: a sua poesia me cala fundo n’alma, porque eu a expressar o que me vai no interno não o faria tão bem quanto ela. Como naquela letra do compositor Tunai, em melodia de Milton Nascimento (com interpolações minhas): “Certas canções que ouço [como certos poemas que leio] / Cabem tão dentro de mim / Que perguntar carece / Como não fui eu que as [os] fiz?”.

Certas Canções
(Tunais & Milton Nascimento)

J.A.R. – H.C.

Cecília Meireles
(1901-1964)

Noções

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento
que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.

Virei-me sobre a minha própria existência, e
contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares
contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera...

A Corrente do Golfo
(Winslow Homer: pintor norte-americano)

Referência:

MEIRELES, Cecília. Noções. In: __________. Cecília de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação de Fabrício Carpinejar. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014. p. 35-36. (Coleção ‘L&PM Pocket; v. 700)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

James Wright - Uma Benção

Como uma benção, a visão de um casal de pôneis indígenas transpõe o poeta ao limiar de uma experiência fora do corpo: em equilíbrio com a natureza, os animais à volta se comprazem em ver os dois amigos passeando por ali – e vice-versa.

Temos aí a natureza como um antídoto contra a solidão, na medida em que é capaz de remediar o sofrimento e oferecer vislumbres do verdadeiro amor. Há, ademais, muitos que creem num poder espiritual que conecta todos os seres: pessoas, animais e plantas. Logo, “sair do corpo para irromper em flor” faz todo o sentido sob tal perspectiva mística!

J.A.R. – H.C.

James Wright
(1927-1980)

A Blessing

Just off the highway to Rochester, Minnesota,
Twilight bounds softly forth on the grass.
And the eyes of those two Indian ponies
Darken with kindness.
They have come gladly out of the willows
To welcome my friend and me.
We step over the barbed wire into the pasture
Where they have been grazing all day, alone.
They ripple tensely, they can hardly contain their happiness
That we have come.
They bow shyly as wet swans. They love each other.
There is no loneliness like theirs.
At home once more,
They begin munching the young tufts of spring in the darkness.
I would like to hold the slenderer one in my arms,
For she has walked over to me
And nuzzled my left hand.
She is black and white,
Her mane falls wild on her forehead,
And the light breeze moves me to caress her long ear
That is delicate as the skin over a girl’s wrist.
Suddenly I realize
That if I stepped out of my body I would break
Into blossom.

Dois Cavalos Indígenas
(Bev Doolittle: artista norte-americana)

Uma Benção

No desvio da estrada que leva a Rochester, Minnesota,
Os limites do crepúsculo avançam suavemente sobre a grama.
E os olhos daqueles dois pôneis indígenas
Escurecem com delicadeza.
Surgiram alegremente de entre os salgueiros
Para nos dar as boas vindas, a meu amigo e a mim.
Transpomos o arame farpado em direção ao prado
Onde eles estiveram o dia todo a pastar, sozinhos.
Agitam-se tensamente, mal conseguindo conter a felicidade
Por havermos despontado.
Curvam-se timidamente como cisnes molhados. Amam-se mutuamente.
Não há solidão como a deles.
No lar mais uma vez,
Começam a mastigar os novos tufos da primavera na escuridão.
Gostaria de envolver em meus braços o mais esbelto,
Pois ela veio até mim
E roçou o focinho em minha mão esquerda.
É preta e branca,
A crina lhe cai selvagem sobre a fronte,
E a brisa leve incita-me a acariciar sua longa orelha
Tão delicada quanto a pele do pulso de uma menina.
De repente me dou conta
De que se saísse do meu corpo irromperia
Em flor.

Referência:

WRIGHT, James. A blessing. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary ‎‎american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of ‎‎Random House Inc.), march 2003. p. 291.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Tahar Ben Jelloun - As amendoeiras feridas morreram

De tão devastador e pungente, resolvi transcrever a seção inteira do poema em epígrafe, de autoria de Tahar Bem Jelloun, escritor, ensaísta e, acima de tudo, poeta marroquino que escreve em francês, como abaixo se constata.

Em epístola direcionada a um dos filhos – que não se sabe exatamente onde se encontra, nem mesmo se está vivo –, o pai descreve os momentos então vivenciados por sua família no âmbito do conflito árabe-israelense, quando uma aldeia inteira – a de Yamit – foi devastada pelas forças israelenses, sendo expulsos dali os seus habitantes, e a área anexada ao Estado de Israel.

Claro está que o texto deve ser lido literariamente e não se pretende que seja fidedigno à história de fato ocorrida, no exato momento em que Israel expandia o seu domínio sobre áreas as quais, em absoluto, se achavam destituídas de habitantes – palestinos, no caso –, tal como sustenta de modo contundente o autor de “A Indústria do Holocausto”, Norman G. Finkelstein, em sua obra “Imagem e Realidade do Conflito Israel - Palestina”, publicada no Brasil pela editora Record: uma investigação para espíritos fortes!  

J.A.R. – H.C.

Tahar Ben Jelloun
(n. 1944)

Les amandiers sont morts de leurs blessures

À Leïla Shahid

La Trouée de Rafah, village du nord-est du Sinaï, vient d’être détruite par les Israéliens, après que ses habitants arabes en ont été chassés. Un de ces hommes écrit à son fils.

Mon fils,

Le jour s’est arrêté dans mes rides depuis que leur machine sanglante et grise est passée sur notre maison. Elle est formidable cette voiture immense qui ouvre sa gueule pour happer le peu de chose qui nous restait: un lopin de terre, un toit et trois amandiers. C’est une machine qui fait du bruit, brille au soleil et éclate en rire saccadé quand elle triomphe des petites fleurs sauvages et fragiles qui essaient de se relever. J’ai vu ses dents jaunies par le sang de la terre se briser sur un tas de sable. Un petit vent a emporté les racines de l’arbre. Le ciel s’est baissé et les a ramassées; je crois même qu’elles habitent un petit nuage têtu qui ne nous quitte plus depuis que nous sommes sans toit, sans patrie. Ton petit frère a couru pour sauver de la poussière lourde tes livres d’écolier. Nous avons eu peur. La machine a failli l’avaler.

Blessés dans notre terre, humiliés dans nos arbres, nous étions là tous les trois, figés et habités par une mort soudaine. Une partie de nous-mêmes, je crois la plus grande, est meurtrie; ils nous l’ont arrachée tout naturellement, à l’aube. Nous sommes restés tranquilles; ils ont ouvert nos plaies et nous avons bu notre mort. Elle a le goût de la sève; ta mère dit qu’elle a le parfum du jasmin. Le ciel s’est ouvert à l’appel de l’oiseau orphelin, et nous avons aperçu un corps de lumière couvert de sang neuf. Le soleil trébuchait ce jour-là, car l’injustice froide creusait son sillon dans notre terre, notre corps.

Notre mémoire percée d’étoiles n’avait plus de citadelle: elle devenait enceinte de nouvelles blessures. En 1948, tu n’étais pas encore né. La guerre a traversé notre champ. L’olivier était calciné. Notre destin était terni par la misère, mais il avait la rage de l’espoir. Certains sont partis avec une tente pour tout bagage, d’autres sont morts.

Aujourd’hui, mon fils, nous ne savons pas où tu es. Où que tu sois, sache que nous ne sommes pas tristes. On nous dit que nos maisons sont inutiles et que nos amandiers sont ridicules. On nous dit que sur cette terre s’élèvera une ville, une ville moderne. Elle aura de belles avenues, des autobus et des chars. Elle ira jusqu’à la Méditerranée et s’appellera Yamit. Leurs machines perfectionnées avancent, avancent. Nos voisins ont reçu des cartes vertes. Ils peuvent rester chez eux quelques jours encore. Tu sais, le petit village d’Abou-Chanar, lui aussi va être détruit. La machine sanglante et grise avance, avance. On nous dit qu’il faut laisser la place à des hommes venus de loin, de très loin, des juifs venus de la Russie, mon fils.

Notre bagage est léger: un sac de farine et peu d’olives. La foudre peut descendre. Elle foulera les sables mêlés de pierres brisées et d’arbustes abattus. Elle tombera dans le vide, étranglée par les serpents de la haine. Tu te rends compte, mon fils, ils demandent aux enfants de cette terre de venir la travailler pour le compte des “nouveaux propriétaires”! C’est la seule fois où j’ai pleuré. Je sais, tu n’aimes pas les larmes; excuse-moi si les miennes ont coulé. Mais la honte s’est amassée dans mon corps comme les pierres, comme les jours, comme les prières.

Notre terre battue par l’acier qui écrase les petits lézards, je la vois sur ton front comme une étoile, un rêve urgent qui nous rassemble. Tout change de nom. La main métallique efface les écritures sur nos corps. Des racines d’arbres attestent. Nous n’avons pas besoin de stèle. Notre mémoire est un peu de sable suspendu à la lumière. Elle est haute entre tes doigts. Nous t’embrassons où que tu sois.

❁❁❁

Quel oiseau ivre naîtra de ton absence
toi la main du couchant mêlée à mon rire
et la larme devenue diamant
monte sur la paupière du jour
c’est ton front que je dessine
dans le vol de la lumière
et ton regard
s’en va
sur la vague retournée
un soir de sable
mon corps n’est plus ce miroir qui danse
alors je me souviens

tu te rappelles
toi l’enfant née d’une gazelle
le rêve balbutiait en nous
son chant éphémère
le vent et l’automne dans une petite solitude
je te disais
laisse tes pieds nus sur la terre mouillée
une rue blanche
et un arbre
seront ma mémoire
donne tes yeux à l’horizon qui chante

ma main
suspend la chevelure de la mer
et frôle ta nuque
mais tu trembles dans le miroir de mon corps
nuage
ma voix
te porte vers le jardin d’arbres argentés

c’était un printemps ouvert sur le ciel
il m’a donné une enfant
une enfant qui pleure
une étoile scindée
et mon désir se sépare du jour
je le ramasse dans une feuille de papier
et m’en vais cacher la folie
dans un roc de solitude

(Poèmes par amour)

❁❁❁

Blanche l’absence
comme une mort lointaine
en ce jour où l’astre de l’oubli
se posera sur l’herbe mouillée d’une mémoire froissée

Je te vois chantée par les matins
enfants nés des sables

Et l’oiseau me dit
elle est syllabe à prononcer doucement
entre une pensée et un rire
et si le regard s’absente
laisse-toi prendre entre les doigts du soleil
va suspendre le rêve aux tresses de la nuit
et ramasse les étoiles qui ne sont plus du ciel
tiens la main fertile quand tu penses à la citadelle de ce
corps fragile

Eclipse
et
silence
des pierres tourmentées

(Poèmes par amour)

Amendoeira em Flor
(Pierre Bonnard: pintor francês)

As amendoeiras feridas morreram

Para Leila Shahid

Rafah, aldeia ao nordeste do Sinai, acaba de ser destruída pelos israelitas, após a expulsão de seus habitantes árabes. Um desses homens escreveu ao seu filho.

Meu filho,

O dia parou nas minhas rugas desde o momento em que a máquina sangrenta e cinza deles passou sobre nossa casa. É impressionante esse veículo imenso que abre sua garganta para tragar as poucas coisas que nos restavam: um pedaço de terra, um teto e três amendoeiras. É uma máquina que faz barulho, brilha ao sol e explode em gargalhadas quando triunfa sobre as pequenas flores selvagens e frágeis que tentam se reerguer. Vi seus dentes amarelados pelo sangue da terra se quebrarem sobre um monte de areia. Uma brisa levou as raízes da árvore. O céu se abaixou e as recolheu; acho até que elas moram numa pequena nuvem obstinada que não nos deixa mais desde que ficamos sem teto, sem pátria. Teu irmãozinho correu para tirar da poeira pesada os teus livros de escola. Ficamos com medo. A máquina quase o engoliu.

Feridos em nossa terra, humilhados em nossas árvores, lá estávamos nós três, paralisados e habitados por uma morte repentina. Uma parte de nós mesmos, creio que a maior dela, foi assassinada; eles nos arrancaram tudo naturalmente, na madrugada. Ficamos tranquilos; eles abriram nossas chagas e bebemos nossa morte. Ela tem o gosta da seiva; tua mãe diz que ela tem perfume de jasmim. O céu se abriu ao chamado do pássaro órfão, e notamos um corpo de luz coberto de sangue novo. O sol tropeçou naquele dia, pois a injustiça fria cavou seu veio em nossa terra, nosso corpo.

Nossa memória fendida por estrelas não possuía mais cidadela; ela engravidou de novas feridas. Em 1948, tu não havias ainda nascido. A guerra atravessou nosso campo. A oliveira estava calcinada. Nosso destino murchou com a miséria, mas ele tinha raiva da esperança. Alguns partiram levando uma tenda como bagagem, outros morreram.

Hoje, meu filho, nós não sabemos onde estás. Onde quer que estejas, saiba que não estamos tristes. Disseram-nos que nossas casas são inúteis e que nossas amendoeiras são ridículas. Disseram-nos que sobre essa terra se elevará uma cidade, uma cidade moderna. Ela terá belas avenidas, ônibus e carros. Ela irá até o Mediterrâneo e se chamará Yamit. Suas máquinas aperfeiçoadas avançam, avançam. Nossos vizinhos receberam sinal verde. Eles podem ficar em casa alguns dias ainda. Sabe, a cidadezinha de Abu-Chanar, ela também será destruída. A máquina sangrenta e cinza avança e avança. Disseram-nos que é preciso abrir espaço para os homens vindos de longe, de muito longe, judeus vindos da Rússia, meu filho.

Nossa bagagem é leve: um saco de farinha e um pouco de azeitonas. O raio pode cair. Ele revolverá as areias misturadas com as pedras despedaçadas e os arbustos derrubados. Ele cairá no vazio, estrangulado pelas serpentes do ódio. Imagine, meu filho, eles pedem às crianças dessa terra para virem trabalhar por conta dos “novos proprietários”! Foi a única vez que chorei. Eu sei, tu não gostas de lágrimas; desculpa-me se as minhas caíram. Mas a vergonha as reuniu em meu corpo como pedras, como os dias, como as preces.

Nossa terra surrada pelo aço que esmaga as lagartixas, eu a vejo sobre tua fronte como uma estrela, um sonho urgente que nos reúne. Tudo muda de nome. A mão metálica apaga a escrita sobre nossos corpos. Raízes de árvores o atestam. Nós não precisamos de estela. Nossa memória é um pouco de areia suspensa à luz. Ela é altiva entre teus dedos. Nós te beijamos, filho, onde quer que estejas.

❁❁❁

Que pássaro ébrio nascerá da tua ausência
tu a mão do poente misturada ao meu riso
e a lágrima transmutada em diamante
galga a pálpebra do dia
é a tua fronte que eu desenho
no voo da luz
e teu olhar
se vai
sobre a onda que voltou
uma noite de areia
meu corpo não é mais esse espelho que dança
então me lembro.

tu te lembras
tu criança nascida de uma gazela
o sonho balbuciava em nós
seu canto efêmero
o vento e o outono numa solidão
eu te dizia
deixe teus pés nus sobre a terra molhada
uma rua branca
e uma árvore
serão minha memória
dá os teus olhos ao horizonte que canta
minha mão
suspende a cabeleira do mar
e roça tua nuca
mas tu tremes no espelho do meu corpo
nuvem
minha voz
te leva rumo ao jardim de árvores prateadas

era uma primavera aberta sobre o céu
ele me deu uma criança
uma criança que chora
uma estrela dividida
e meu desejo se separa do dia
eu o recolho numa folha de papel
e vou esconder a loucura
num rochedo de solidão

❁❁❁

Branca a ausência
qual morte longínqua
nesse dia em que o astro do esquecimento
pousará sobre a erva molhada de uma memória
envelhecida

Eu te vejo cantada pelas manhãs
meninos nascidos das areias

E o pássaro me diz
ela é silaba a pronunciar suavemente
entre um pensamento e um riso
e se o olhar se ausenta
deixa-te tomar entre os dedos do sol
vai dependurar o sonho nas tranças da noite
e recolhe as estrelas que não são mais do céu
segura a mão fértil quando pensares na cidadela deste
corpo frágil

Eclipse
e
silêncio
das pedras atormentadas

Referência:

JELLOUN, Tahar Ben. Les amandiers sont morts de leurs blessures / As amendoeiras feridas morreram. Tradução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira. In: __________. As cicatrizes de Atlas. Seleção, tradução e introdução de Cláudia Falluh Balduino Ferreira. Brasília, DF: Editora UnB, 2003. Em francês: p. 16, 18, 20, 22, 24 e 26; em português: p. 17, 19, 21, 23, 25 e 27. (Coleção ‘Poetas do Mundo’)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Vasco Graça Moura - presente do indicativo

No ambiente da cozinha, o poeta conjuga, no presente do indicativo, os diversos verbos associados ao ato de se preparar uma salada, ao descrever alguém do sexo feminino que leva à frente tal tarefa, para a qual são necessários “vários gestos precisos e uma poética discreta nos brilhos frisados, nos paladares”.

Estar ali, interagindo com “ela”, faz-lhe recordar alguns versos populares que comparam os seus olhos a azeitonas pretas, enquanto a vida transcorre normalmente à volta, ou melhor, na rua, com ciclistas e crianças a brincar, como se pode inferir pelo ruído das campainhas de bicicleta e pelo quicar da bola.

J.A.R. – H.C.

Vasco Graça Moura
(1942-2014)

presente do indicativo

entro na cozinha. ela está no meio dos legumes,
lava e enxuga folhas tenras de alface, endívias
de oblonga contextura, corta a cebola às
rodelas, pica um ramo de coentros,
hesita um pouco sobre o roquefort, é certeira no vinagre e no sal,

e prudente no azeite, o ovo cozido espera a sua vez e a
saladeira aguarda na mesa junto aos azulejos brancos.
ela procura os talheres de madeira na gaveta,
pede-me qualquer coisa, a lâmina reluz sobre a tábua, perto do pão.
a preparação da salada requer vários gestos precisos

e uma poética discreta nos brilhos frisados, nos
paladares. pela janela chegam os ruídos da rua,
campainhas de bicicleta, ressaltos de uma bola.
o cão dormita no sofá. uns versos populares comparam
os olhos dela a azeitonas pretas.

Em: “A furiosa paixão pelo tangível” (1987)

Servente na Cozinha
(David Teniers, o Jovem: artista flamengo)

Referência:

MOURA, Vasco Graça. presente do indicativo. In: COSTA E SILVA, Alberto da; BUENO, Alexei (Organização e Introdução). Antologia da poesia portuguesa contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro, RJ: Lacerda Editores, 1999. p. 366.

domingo, 21 de maio de 2017

Rita Dove - Canário

Dove, segundo se divulga, uma das poetisas preferidas do ex-presidente norte-americano Barack Obama, tenta capturar a essência do jazz, por meio da performance de improviso de uma de suas maiores representantes: Billie Holiday.

Vê-se no poema a indissimulável conexão entre palavra e som, poesia e melodia, para descrever a cantora do ritmo negro por excelência e suas dramáticas experiências de vida, com altos e baixos que se metaforizam na singularidade de sua própria voz inimitável, carregada de luzes e sombras: um canário confinado numa gaiola!

J.A.R. – H.C.

Rita Dove
(n. 1952)

Canary

For Michael S. Harper

Billie Holiday’s burned voice
had as many shadows as lights,
a mournful candelabra against a sleek piano,
the gardenia her signature under that ruined face.

(Now you’re cooking, drummer to bass,
magic spoon, magic needle.
Take all day if you have to
with your mirror and your bracelet of song.)

Fact is, the invention of women under siege
has been to sharpen love in the service of myth.

If you can’t be free, be a mystery.

Aves Escapando da Gaiola
(Jo Frederiks: artista australiana)

Canário

Para Michael S. Harper

A voz inflamada de Billie Holiday
possuía tanto sombras quanto luzes,
um lúgubre candelabro contra um piano lustroso,
sua rubrica a gardênia sob aquele rosto arruinado.

(Agora muito te esmeras, do baterista ao baixo,
colher mágica, mágica agulha.
Toma todo o dia se te aprouver
com teu espelho e teu bracelete de canto.)

O fato é que a invenção das mulheres sob assédio
tem servido para aguçar o amor a serviço do mito.

Se não podes ser livre, sê um mistério.

Referência:

DOVE, Rita. Canary. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House Inc.), march 2003. p. 560.

sábado, 20 de maio de 2017

Elizabeth Bishop - O Iceberg Imaginário

Em poema que coloca em confronto aspectos concernentes à fantasia e à realidade, Bishop nos faz refletir sobre como uma visão da natureza pode ser tão surpreendentemente bela e, ao mesmo tempo, ameaçadora à vida.

Mas as palavras da poetisa são capazes de levar o leitor a inúmeras interpretações. Vai aqui uma bastante plausível: o iceberg seria como que a representação de toda aquela porção esfíngica submersa na alma humana, que um dia se manifesta e se torna um ostensivo devaneio ou sonho a submeter o espírito, relegando a um segundo plano a rota do navio de nossas vidas.

Essa glosa bem pode ser uma “viagem” sem sentido. Afinal, mesmo uma leitura literal do poema não é descartável. De todo modo, resta indiscutível que um “iceberg imaginário” – enquanto simples exercício conjectural de Elizabeth – despertou-lhe algo no espírito, seduzindo-lhe a alma.

J.A.R. – H.C.

Elizabeth Bishop
(1911-1979)

The Imaginary Iceberg

We’d rather have the iceberg than the ship,
although it meant the end of travel.
Although it stood stock-still like cloudy rock
and all the sea were moving marble.
We’d rather have the iceberg than the ship;
we’d rather own this breathing plain of snow
though the ship’s sails were laid upon the sea
as the snow lies undissolved upon the water.
O solemn, floating field,
are you aware an iceberg takes repose
with you, and when it wakes may pasture on your snows?

This is a scene a sailor’d give his eyes for.
The ship’s ignored. The iceberg rises
and sinks again; its glassy pinnacles
correct elliptics in the sky.
This is a scene where he who treads the boards
is artlessly rhetorical. The curtain
is light enough to rise on finest ropes
that airy twists of snow provide.
The wits of these white peaks
spar with the sun. Its weight the iceberg dares
upon a shifting stage and stands and stares.

This iceberg cuts its facets from within.
Like jewelry from a grave
it saves itself perpetually and adorns
only itself, perhaps the snows
which so surprise us lying on the sea.
Good-bye, we say, good-bye, the ship steers off
where waves give in to one another’s waves
and clouds run in a warmer sky.
Icebergs behoove the soul
(both being self-made from elements least visible)
to see them so: fleshed, fair, erected indivisible.

Os Icebergs
(Frederic Edwin Church: pintor norte-americano)

O Iceberg Imaginário

O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo com as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?

Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.

É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como joias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.

Referência:

BISHOP, Elizaberth. The imaginary iceberg / O iceberg imaginário. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. Edição bilíngue. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 74 e 76; em português: p. 75 e 77.