Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 23 de outubro de 2016

Paulo Mendes Campos - Os domingos

De um estado reflexivo sobre as funções da alma no presente, o poeta salta a recordações das tardes de outros domingos, dias transformados em “claustro”, quando então, prisioneiro, o autor punha-se a ler poemas nos parques.

E como domingo é domingo em qualquer parte, digo, com aquele ar melancólico a nos assombrar a cada vez que o sol enceta a sua retirada, nele ancora o pouso dos tristes e, com a noite, os sofrimentos se aclaram...

J.A.R. – H.C.

Paulo Mendes Campos
(1922-1991)

Os domingos

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos –
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.

Em: “O Domingo Azul do Mar” (1958)

Manhã de Domingo em Tyrol
(Friedrich Wasmann: pintor alemão)

Referência:

CAMPOS, Paulo Mendes. Os domingos. In: __________. Poemas. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1984. p. 73.

sábado, 22 de outubro de 2016

Francisco Brines - Quando eu ainda sou a vida

O poeta se congratula com tudo o que lhe aconteceu na vida, ciente de que o mundo assomou-lhe como uma bela verdade, apesar de todos os eventuais contratempos, a derivar de uma idade já avançada, com os olhos envelhecidos e fatigado amor.

Chegar longe em anos acumulados bem pode ser dádiva dos céus, se o ser humano for capaz de viver em equilíbrio com os pares, ao amparo de experiências positivas, de modo a satisfazer-se com o que conseguiu plantar sobre a terra, em cotejo ao que projetara de início.

J.A.R. – H.C.

Francisco Brines
(n. 1932)

Cuando yo aún soy la vida

A Justo Jorge Padrón

La vida me rodea, como en aquellos años
ya perdidos, con el mismo esplendor
de un mundo eterno. La rosa cuchillada
de la mar, las derribadas luces
de los huertos, fragor de las palomas
en el aire, la vida en torno a mí,
cuando yo aún soy la vida.
Con el mismo esplendor, y envejecidos ojos,
y un amor fatigado.

¿Cuál será la esperanza? Vivir aún;
y amar, mientras se agota el corazón,
un mundo fiel, aunque perecedero.
Amar el sueño roto de la vida
y, aunque no pudo ser, no maldecir
aquel antiguo engaño de lo eterno.
Y el pecho se consuela, porque sabe
que el mundo pudo ser una bella verdad.

Em: “Aún no” (1971)

Pombos no Telhado
(Joseph Crawhall: pintor inglês)

Quando eu ainda sou a vida

A Justo Jorge Padrón

A vida me rodeia, como naqueles anos
já perdidos, com o mesmo esplendor
de um mundo eterno. A rosa cutilada
do mar, as decaídas luzes
dos hortos, o fragor das pombas
no ar, a vida em torno de mim,
quando eu ainda sou a vida.
Com o mesmo esplendor, e envelhecidos olhos,
e um amor fatigado.

Qual será a esperança? Viver ainda;
e amar, enquanto o coração se esgota,
um mundo fiel, embora perecível.
Amar o sonho partido da vida
e, ainda que não pôde ser, não maldizer
aquele antigo engano do eterno.
E o peito se consola, porque sabe
que o mundo pôde ser uma bela verdade.

Em: “Ainda não” (1971)

Referência:

BRINES, Francisco. Cuando yo aún soy la vida. In: RUBIO, Fanny; FALCÓ, José Luis (Selección, estudio y notas). Poesía española contemporánea: historia y antologia (1939-1980). 1. ed. Madrid, ES: Alhambra, 1981. p. 293-294.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Gilberto Amado - Europa

A Europa, centro histórico-cultural do mundo ocidental por longo tempo, é o tema deste plástico poema do jurisconsulto, diplomata, político e, é claro, poeta sergipano Gilberto Amado, cuja epígrafe, por si mesma, já reflete um estado de saudades gerado pelo lastro e ubiquidade de suas tradições.

Nele se veem referências ao recortado espaço geográfico, a nomes marcantes de suas artes – Leonardo e Shakespeare, of course! –, aos acidentes das filosofias geradas por suas mentes prodigiosas... Mas também à loucura de todo sangue derramado por suas usinas de morte.

J.A.R. – H.C.

Gilberto Amado
(1887-1969)

Europa

Je regrette l’Europe aux anciens parapets. (*)
Rimbaud (“Le Bateau Ivre”)

Da planura das almas leves
Das aventuras externas, seus movimentos espontâneos,
seus apetites facilmente saciáveis,
Sonho contigo, Europa côncava, cheia de conteúdo.
Âmago, núcleo, polpa, substância,
Europa estuante de prodígios,
Bazar dos brinquedos do espírito,
Mina dos diamantes do gênio,
Hospital dos agonizantes imortais,
Fonte borbulhante de ânsias comprimidas
Do desejo voraz!
Sonho contigo, coração das sístoles imensas,
Descobertas, Leonardo, Shakespeare,
Penso em ti – Europa eriçada de problemas,
Europa acidentada de filosofias,
Europa labiríntica de abismos e de enigmas,
Europa acumulada de debates e de lutas.
Sonho contigo, ó criadora, ó tentadora, ó corruptora,
Ó aprofundadora
Da planura das almas leves!
Quero aspirar de novo o teu olor de fundo,
O teu relento longo de subterrâneo,
O teu hálito escuro de torrão pisado,
E quero ver coruscar nos meus cabelos
A tua luz de sangue jorrando das usinas de morte
E concentrada na lanterna vermelha
Da tua miséria humana.

Clio - Musa da História
(Pierre Mignard: pintor francês)

Nota:

(*) Esta epígrafe, tomada à obra “Le Bateau Ivre” (“O Barco Bêbado”), de Arthur Rimbaud, pode ser vertida ao português como: “Sinto falta da Europa com os seus parapeitos antigos”.

Referência:

AMADO, Gilberto. Europa. In: __________. Seleta de Gilberto Amado. Organização, estudo e notas de Homero Senna. Rio de Janeiro (RJ), José Olympio; Brasília (DF), Instituto Nacional do Livro; 1974. p. 128.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Direito Penal Brasileiro: arcaico que dói!

Um depoimento de Geoffrey Robertson, advogado de Lula em sua petição junto à Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas...

J.A.R. – H.C.

Robert Hayden - Soledad

Poesia e drogas é combinação que muitas vezes aparece em criações nas plagas literárias, como no caso do presente poema do poeta, ensaísta e educador negro norte-americano Robert Hayden, a falar da experiência de um amigo.

As drogas têm o poder de transportá-lo a um outro mundo, de imaginária completude e atemporalidade, ao som de Miles Davis e Billie Holiday: Hayden, para tentar expressar o inenarrável dessa arriscada prática, emprega conjunções de palavras, algumas em ações justapostas, outras em traslados engenhosos de fatos da natureza, a dificultar sobremaneira as versões do poema a outras idiomas. Penso, por conseguinte, que terei sido temerário nesse meu intento!

J.A.R. – H.C.

Robert Hayden
(1913-1980)

Soledad

(And I, I am no longer of that world) (1)

Naked, he lies in the blinded room
chainsmoking, cradled by drugs, by jazz
as never by any lover’s cradling flesh.

Miles Davis coolly (2) blows for him:
O pena negra, sensual Flamenco blues;
the red clay foxfire (3) voice of Lady Day (4)

(lady of the pure black magnolias)
sobsings her sorrow and loss and fare you well,
dryweeps the pain his treacherous jailers

have released him from for awhile.
His fears and his unfinished self
await him down in the anywhere streets.

He hides on the dark side of the moon, (5)
takes refuge in a stained-glass cell,
flies to a clockless country of crystal.

Only the ghost of Lady Day knows where
he is. Only the music. And he swings
oh swings: beyond complete immortal now.

Foxfire Fungus

Soledad

(E eu, já não sou deste mundo)

Despido, ele se encontra no quarto com persianas,
a fumar cigarros em sequência, embalado pelas
drogas, pelo jazz,
como jamais estivera excitado pelo corpo de
qualquer amante.

Miles Davis sopra friamente para ele:
O pena negra, sensual blues Flamenco;
A voz greda carmim luminescente de Lady Day

(dama de puras magnólias negras)
canta a soluçar suas mágoas e perdas e espera que
você se saia bem,
e ele chora e enxuga a dor da qual os seus pérfidos
carcereiros

têm-no liberado por algum tempo.
Seus medos e seu ser incompleto
esperam-no ao longo das ruas de qualquer lugar.

Ele se esconde no lado escuro da lua,
busca refúgio numa célula de vidro colorido,
ruma para um país sem relógio de cristal.

Somente o espírito de Lady Day sabe onde
ele está. Somente a música. E ele rodopia
oh rodopia: para o outro lado, agora pleno
e imortal.

Notas:

(1) Esta epígrafe, aparentemente, não constava no original de Robert Hayden, pelo que se pode depreender desta passagem de entrevista com o autor. Em espanhol, o título do poema (“Soledad”, “Solidão” em português) denota o caráter individual, solitário, insular da experiência com drogas.

(2) O poeta faz referência ao estilo do jazz tocado pelo trompetista, também negro e norte-americano, Miles Davis, conhecido como “Cool Jazz”, caracterizado por melodia mais lenta e algo melancólica.

(3) “Foxfire”, em seu exato sentido, diz respeito a bioluminescência gerada por algumas espécies de fungos, presente em madeiras em decomposição; o termo é intercambiável com “fairy fire”, que em português seria traduzível para algo como “fogo de fadas”.

(4) Trata-se certamente da cantora negra norte-americana Billie Holiday, famosa no domínio do jazz, do blues e mesmo do pop.

(5) Não há como não se associar esta passagem com o título “The Dark Side of de Moon” (1973), famoso álbum produzido pela banda de rock experimental inglesa “Pink Floyd”, cuja trajetória também aponta para o consumo de drogas psicotrópicas por parte de alguns componentes.

Referência:

HAYDEN, Robert. Soledad. In: O’BRIEN, Geoffrey (Ed.). Foreword by Billy Collins. Bartlett’s poems for occasions. The human condition: solitude. New York; Boston: Little, Brown and Company, 2004. p. 377-378.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Antônio Cícero - Guardar

Ao modo acumulador de vida, aquele que nos leva a guardar coisas sem saber o motivo – uma coletânea de CDs nunca ouvidos atentamente e por inteiro, ou de livros, mal compulsados e muito menos lidos –, o poeta propõe um padrão de retenção mais salutar, em que nos flagramos “iluminados” pelo objeto de admiração.

Assim é o poema, que uma vez lido, declamado, interpretado, passa a fazer parte de nossos referentes mentais, distintamente se o deixamos incrustado, gravado e estéril nas páginas de uma obra que “jamais alçará voo”, como sugere Cícero.

J.A.R. – H.C.

Antônio Cícero
(n. 1945)

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

A Ronda Noturna
(Rembrandt: pintor holandês)

Referência:

CÍCERO, Antônio. Guardar. In: Guardar: poemas escolhidos. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1996. p. 337.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Allen Ginsberg - Canção

O poeta ‘beat’ afirma que o peso do mundo é o amor. Um amor que se manifesta, antes de tudo, corporalmente, carnalmente, nos corpos quentes, depois de transitar, como um milagre, na imaginação.

Esse amor arde de pureza nas imediações do coração, logrando atenuar os fardos da solidão e da insatisfação, numa voragem de sonho, quer o autor esteja louco ou frio, obcecado por anjos ou por máquinas...

J.A.R. – H.C.

Allen Ginsberg
(1926-1997)

Song

The weight of the world
is love.
Under the burden
of solitude,
under the burden
of dissatisfaction

the weight,
the weight we carry
is love.

Who can deny?
In dreams
it touches
the body,
in thought
constructs
a miracle,
in imagination
anguishes
till born
in human −

looks out of the heart
burning with purity −
for the burden of life
is love,

but we carry the weight
wearily,
and so must rest
in the arms of love
at last,
must rest in the arms
of love.

No rest
without love,
no sleep
without dreams
of love −
be mad or chill
obsessed with angels
or machines,
the final wish
is love
− cannot be bitter,
cannot deny,
cannot withhold
if denied:

the weight is too heavy

− must give
for no return
as thought
is given
in solitude
in all the excellence
of its excess.

The warm bodies
shine together
in the darkness,
the hand moves
to the center
of the flesh,
the skin trembles
in happiness
and the soul comes
joyful to the eye −

yes, yes,
that’s what
I wanted,
I always wanted,
I always wanted,
to return
to the body
where I was born.

San José, 1954

In: “Howl and other poems” (1956)

Sob um Guarda-Chuva
(Leonid Afremov: pintor israelense)

Canção

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação

o peso
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –

sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:

o peso é demasiado

– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.

Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –

sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

San José, 1954

Em: “Uivo e outros poemas” (1956)

Referências:

Em Inglês

GINSBERG, Allen. Song. In: __________. Howl, kaddish and other poems. London, EN: Penguin Classics, 2009, p. 30-32.

Em Português

GINSBERG, Allen. Canção. In: __________. Uivo, kaddish e outros poemas. Seleção, tradução e notas de Claudio Willer. 2. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010. p. 115-117.