Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Carlos Drummond de Andrade - Disquisição na Insônia

Em breve reflexão durante o experimentado período de insônia, Sancho Pança pondera sobre quem seria o mais louco dos dois: se ele, que persiste em amparar um insano, ou o seu amo, o próprio Dom Quixote?!

 

Sublinhe-se que a poesia desta postagem pertence ao ciclo de poemas criado por Drummond sobre telas pintadas por Portinari, dentre as quais sobressai a que mais abaixo reproduzimos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

Disquisição na Insônia

 

Que é loucura: ser cavaleiro andante

ou segui-lo como escudeiro?

De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,

vê o real e segue o sonho

de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,

e me sabendo tal, sem grão de siso,

sou – que doideira – um louco de juízo.

 

Dom Quixote e Sancho Pança

(Cândido Portinari: pintor brasileiro)

 

Referência:

 

ANDRADE, Carlos Drummond. Disquisição na insônia. In: __________. As impurezas do branco. 6. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1993. p. 73-74.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Sara Teasdale - A Solitária

Ver-se completa como “uma flor ou pedra”: tal é a abordagem que a poetisa norte-americana assume em relação à sua própria vida, distintamente do modo de ser quando ela era jovem, fase durante a qual sentia a necessidade de abrir-se com os que lhe achegavam.

Mas será possível uma autonomia tão radical assim? A metáfora da flor ou da pedra representaria muito bem esse postulado estado de coisas? Ou por outra: os botões das flores não seriam dependentes do solo, de onde extraem a potência para desabrochar com mais brilho à vista de seus admiradores?!

J.A.R. – H.C.

Sara Teasdale
(1884-1933)

The Solitary

My heart has grown rich with the passing of years,
I have less need now than when I was young
To share myself with every comer
Or shape my thoughts into words with my tongue.

It is one to me that they come or go
If I have myself and the drive of my will,
And strength to climb on a summer night
And watch the stars swarm over the hill.

Let them think I love them more than I do,
Let them think I care, though I go alone;
If it lifts their pride, what is it to me
Who am self-complete as a flower or a stone?

Vaso de Flores
(Rachel Ruysch: pintora holandesa)

A Solitária

Meu coração tem-se enriquecido com o passar dos anos,
Tenho menos necessidade agora do que quando era jovem
De franquear-me a todo recém-chegado
Ou converter minhas ideias em palavras por meio da língua.

Dá no mesmo que eles venham ou partam
Se tenho a mim mesma e o comando de minha vontade,
E a força para escalar a colina numa noite estival
E contemplar as estrelas que ali abundam.

Deixe-os pensar que os amo mais do que a mim,
Deixe-os pensar que me importo, ainda que sozinha caminhe;
Se alimentam o orgulho próprio, o que isso representa para mim
Que sou plena como uma flor ou pedra?

Referência:

TEASDALE, Sara. The solitary. In: RATTINER, Susan L. (Ed.). Great poems by american women: an anthology. Mineola, NY: Dover Publications Inc., 1998. p. 190.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Murilo Mendes - Embarque do papagaio real

Murilo Mendes lança mão da mais genuína troça para conceber este poema, no qual um hipotético papagaio que existiria na esquadra lusitana que fugiu de Portugal, invadido pelas tropas de Napoleão, nos conta parte do enredo da história envolvendo D. João VI.

Juntamente ao efeito cômico, jocoso, que o poema busca empreender, sobressai o impacto das onomatopeias empregadas, com a repetição dos cacarejos das galinhas d’Angola ou de palavras ao embalo da letra de cantiga francesa parcialmente vertida ao português.

J.A.R. – H.C.

Murilo Mendes
(1901-1975)

Embarque do papagaio real

Je suis pobre, pobre, pobre,
Je m’en vais d’aqui.
Esse tal de Napoleão
Vem tomar conta da minha quinta,
Vem tomar minhas pipas de vinho,
Vem tomar meus p’rus,
Meus frangos,
Minhas galinhas d’Angola.
Tô fraco, tô fraco, tô fraco.

Vou-me embora, vou-me embora,
Vou chupar laranjas,
Vou comer minhas papas,
Vou gozar no Rio de pijama...
Se Carlota minha mulher deixar.

Em: “História do Brasil” (1932)

Papagaio
(Satish Verma: artista indiano)

Referência:

MENDES, Murilo. Embarque do papagaio real. In: __________. Poesia e prosa completa. Organização de Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 159.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Brasileirão 2016 - Fim da 15ª Rodada - Projeção para o Fim

Prezado(a)s amantes do futebol,

I. Finda a 15ª rodada do Brasileirão 2016, é hora de reavaliarmos as projeções do “Modelo Esotérico-Matemático - M.E.M.”. Afinal, muitas coisas aconteceram nestas últimas cinco rodadas, tal como se resume nos parágrafos subsequentes.

II. De início, tal como prevíramos em nosso comentário anterior, o Internacional não se manteve entre os primeiros e, de lá para cá, despencou na tabela de classificação, da 2ª colocação para a 11ª.

III. O Cruzeiro ensaiou um trânsito pela zona do rebaixamento, e o M.E.M. projeta-o na 18ª posição ao final do certame, ou seja, na mesma posição em que, de fato, ora está posicionado na tabela.

IV. Houve apreciável melhora no desempenho ofensivo recente do Sport, do Santos e do Botafogo. Idem, no desempenho defensivo do Atlético-PR e do Coritiba.

V. Ocorreu, inversamente, piora relevante no desempenho ofensivo recente do Santa Cruz e da Chapecoense. Idem, no desempenho defensivo de um rol de times: Internacional, Sport, Botafogo, Chapecoense, Flamengo e Grêmio.

VI. Quanto às elucubrações do M.E.M., persistem, nesta projeção, no G4 ou em suas imediações, o Palmeiras, o Santos e o Corinthians. Já no Z4, houve muita oscilação da projeção da 10ª rodada para a da 15ª, mantendo-se lá apenas o América-MG, que parece mesmo estar fadado ao descenso.

Um abraço a todo(a)s,

J.A.R. – H.C.

Fontes:





Allen Ginsberg - Sobre a obra de Burroughs

Claudio Willer, considerando um dos melhores tradutores da obra de Ginsberg ao português, apresenta esta versão de “On Burrough’s Work” (“Sobre a Obra de Burroughs”), quer em em seu próprio blog, quer em “Uivo, Kaddish e Outros Poemas”, versão pátria com vários poemas de “Howl and other poems” (1956) (“Uivo e outros poemas), “Kaddish and other poems” (1961) (“Kaddish e outros poemas”) e “Reality Sandwiches and other poems” (1963) (“Sanduíches de Realidade e outros poemas”).

O poema, aparentemente, tece críticas às formas tradicionais de expressão literária, que acabam por obscurecer a verdade, ácida que seja, a ser levada ao público, por meio de linguagem retocada e airosa, quando uma linguagem mais direta – nua e crua –, na visão do autor, seria mais eficaz para expor a “loucura” da realidade.

J.A.R. – H.C.

Allen Ginsberg
(1926-1997)

On Burroughs’ Work

The method must be purest meat
and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
as seen then and now.

Prisons and visions presented
with rare descriptions
corresponding exactly to those
of Alcatraz and Rose.

A naked lunch is natural to us,
we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
Don’t hide the madness.

San Jose, 1954 

Alcatraz
(Ryan Connolly: artista norte-americano) 

Sobre a Obra de Burroughs

O método deve ser a mais pura carne
e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
assim como vistas vez por outra.

Prisões e visões mostradas
com raros relatos crus
correspondendo exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.

Um lanche nu nos é natural,
comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
Não escondam a loucura.

San Jose, 1954

Notas do Tradutor (WILLER, 2010, p. 207):

1. raros relatos crus – a dupla tradução: no original, with rare descriptions. Rare é raro, diferente, especial, mas também cru, malpassado, em rare done meat. Crus faz um par com nu, dando nu e cru, expressão que significa verdadeiro, realístico, acentuando o sentido do poema.

2. um lanche nu – Este poema foi escrito na Califórnia em 1954, enquanto Ginsberg ia recebendo por carta, de Tanger, trechos do que Burroughs denominava de routines, narrativas que, remontadas, viriam a compor Naked Lunch, terminada em Paris quatro anos mais tarde. O sanduíche da linha seguinte leva a concluir que a tradução adequada desse título para o português é mesmo Lanche Nu, e não Almoço Nu, apesar de lunch, em inglês, significar almoço, tanto quanto refeição leve. Ginsberg gostou da metáfora ‘sanduíches de realidade’, ‘reality sandwiches’ e a usou como título de seu terceiro livro de poemas.

Referências:

Em Inglês

GINSBERG, Allen. On Burroughs’ work. In: __________. Reality sandwiches: 1953-1960. 26th Printing. San Francisco, CA: City Light Books, jun.2005. p. 40. (“The Pocket Poets Series”; n. 18)

Em Português

GINSBERG, Allen. Sobre a obra de Burroughs. In: __________. Uivo, kaddish e outros poemas. Tradução, seleção e notas de Claudio Willer. 2. ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2010. p. 207.

GINSBERG, Allen. Sobre a obra de Burroughs. Tradução de Claudio Willer. Disponível neste endereço. Acesso em: 2 jun. 2016.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

William Blake - Londres

Londres à noite, para Blake, não promete mais do que a maldição das rameiras e o desespero estampado no rosto das pessoas, informe-se, nas imediações do espaço urbano da capital inglesa por demais frequentado, hoje em dia, por levas de turistas: o Tâmisa.

O poema é atravessado por referentes sonoros – gritos, maldições, vozes, suspiros –, e isso nos permite associar o panorama londrino a um núcleo urbano em transformação acelerada, com as suas consequentes mazelas, no âmbito da revolução industrial então em curso.

J.A.R. – H.C.

William Blake
(1757-1827)

London

I wander thro’ each charter’d street
Near where the charter’d Thames does flow,
And mark in every face I meet
Marks of weakness, marks of woe.

In every cry of every Man,
In every Infant’s cry of fear,
In every voice, in every ban,
The mind-forg’d manacles I hear:

How the Chimney-sweeper’s cry
Every black’ning Church appalls,
And the hapless Soldier’s sigh
Runs in blood down Palace walls;

But most thro’ midnight streets I hear
How the youthful Harlot’s curse
Blasts the new-born Infant’s tear,
And blights with plagues the Marriage hearse.

Londres à Noite
(George Rossidis: pintor grego)

Londres

Em cada rua escriturada em que ando,
Onde o Tâmisa escriturado passa,
Eu nos rostos que encontro vou notando
Os sinais da doença e da desgraça.

Ouço nos gritos que os adultos dão,
E nos gritos de medo do inocente,
Em cada voz, em cada interdição,
As algemas forjadas pela mente

Se o Limpa-Chaminés acaso grita,
Assusta a Igreja escura pelos anos;
Se o Soldado suspira de desdita,
O sangue mancha os muros palacianos.

Mas o que mais à meia noite é ouvido
É a rameira a lançar praga fatal,
Que estanca o pranto do recém-nascido
E empesteia a mortalha conjugal.

Referência:

BLAKE, William. Londres. Tradução de Paulo Vizioli. In: __________. William Blake: poesia e prosa selecionadas. Edição bilíngue. Introdução, seleção e tradução de Paulo Vizioli. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 1993. Em inglês: p. 62; em português: p. 63.

domingo, 17 de julho de 2016

Cruz e Sousa - O Soneto

Um soneto cujo tema é o próprio soneto: um metassoneto! E quem o concebe é um clássico da fase simbolista da literatura brasileira, ou seja, Cruz e Sousa, vate que o empregou na maior parte das obras que legou à posteridade.

Há, segundo o autor, morbidez, voluptuosidade e extravagância nas formas do soneto que, muito a despeito, revela também beleza e capricho sob os seus contornos de vetusta púrpura, por onde circulam os sonhos de almas dolorosas, como, presume-se, a do próprio poeta!

J.A.R. – H.C.

Cruz e Sousa
(1861-1898)

O Soneto

Nas formas voluptuosas o Soneto
Tem fascinante, cálida fragrância
E as leves, langues curvas de elegância
De extravagante e mórbido esqueleto.

A graça nobre e grave do quarteto
Recebe a original intolerância,
Toda a subtil, secreta extravagância
Que transborda terceto por terceto.

E como um singular polichinelo
Ondula, ondeia, curioso e belo.
O Soneto, nas formas caprichosas.

As rimas dão-lhe a púrpura vetusta
E na mais rara procissão augusta
Surge o sonho das almas dolorosas.

Poesia
(Gustave C. R. Boulanger: pintor francês)

Referência:

SOUSA, Cruz e. O soneto. In: __________. Últimos sonetos. Paris, FR: Typ. Aillaud & Cia., 1905. p. 83-84.

sábado, 16 de julho de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen - Sua Beleza

Ser bela não apenas no aspecto físico, mas sobretudo na “pátria do ser”; não somente pela expressão ondulante do corpo – como num respirar de vela –, senão pela completude de uma vontade realizadora.

Tal é o padrão que Andresen vislumbra para a mulher do presente: uma beleza total, não vulgarizada pelos apelos fáceis – clássica como um Mantegna e, ao mesmo tempo, vanguardista e provocadora, como uma tela de Picasso...  

J.A.R. – H.C.

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

Sua Beleza

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser

Madona da Vitória
(Andrea Mantegna: pintor italiano)

Referência:

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. O nome das coisas. Prefácio de Fernando Cabral Martins. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2015. p. 43.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Otacílio Batista - Mulher Nova, Bonita e Carinhosa

Na voz de Amelinha (vide vídeo a seguir), lá pelos inícios dos anos 80, este poema, do repentista pernambucano Otacílio Batista, fez muito sucesso musical, com suas associações a histórias de mulheres que mudaram o rumo das vidas de seus esposos.

Nele, Menelau, Alexandre, Cervantes e Lampião aparecem enredados pelo feitiço feminino. Aliás, àquela mesma época, Gilberto Gil afirmaria: “Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória, mudando curso da história por causa da mulher!”.

J.A.R. – H.C.

Otacílio Batista
(1923-2003)

Mulher Nova, Bonita e Carinhosa

Numa luta de gregos e troianos
Por Helena a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos.
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Paris o grande sedutor,
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor

Alexandre figura desumana
Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população tebana.
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador
Que depois de vencê-la o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino,
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes.
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor,
Se não fosse a mulher mimosa flor,
A história seria mentirosa.

Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.
Virgulino Ferreira o Lampião,
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer o perigo nem ruínas,
Foi o rei do cangaço no sertão,
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor.
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa,
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Uma Bela Mulher
(Konstantin Razumov: pintor russo)

(Interpretação de Amelinha)

Referência:

BATISTA, Otacílio. Mulher nova, bonita e carinhosa faz o homem gemer sem sentir dor. In: PINTO, José Nêumanne (Sel.). Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século. Ilustrações de Tide Hellmeister. 2. ed. São Paulo, SP: Geração Editorial, 2001. p. 302-304.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Jacques Dupin - Excesso da poesia

Com um modo muito peculiar de se expressar, o francês Dupin teoriza sobre a sua própria arte – a poesia –, que a julgar pelos argumentos apresentados, cinge-se dominantemente à forma do poema, seja ela qual for.

Informe-se, por conveniente, que há lastro especializado o bastante em Dupin para discorrer sobre o tema. Ele também foi autor de numerosos ensaios sobre artistas modernos e contemporâneos, como Braque, Kandisky, Laurens e muitos outros, assim como de estudos pessoais e bastante perceptivos sobre a arte de Miró e Giacometti.

J.A.R. – H.C.

Jacques Dupin
(1927-2012)

Démesure de la poésie

Le poème est ce qui n’a ni nom, ni repos, ni lieu, ni demeure : fissure à l’oeuvre se mouvant. Inutile de le circonscrire hors de paysages connus dans quelque zone aux pensées interdite, horizon d’antinature ou alors achevé au terme de son dépassement. Il hante notre espace car il est notre temps. Insaisissable en chacune de ses figures qui ne surgit que pour lier sa tendance naissante à d’imprévisibles successions, le poème sécrète sa propre histoire comme l’avion traceur ses spirales irréductibles dans leur lecture linéaire à ce que fut dans l’azur ce point blanc. Prenant appui sur l’explosion étoilée du langage, ressassant l’amorce naissante de l’événement, sortant le geste de ses fonctionnels usages, le coupant de ses thématiques intentions, le poème fait qu’après lui l’homme foudroyé demande aux pages l’abri et le repos d’une histoire, le modèle entrevu parfait de la pierre bleue sur un visage, l’impossible clef. Sans rémission.

Livro Azul
(Sharon McCarthy: pintora norte-americana)

Excesso da poesia

O poema é aquilo que não tem nome, nem repouso, nem lugar, nem lar: fissura que se move em direção à obra. Inútil circunscrevê-lo para além de paisagens conhecidas, rumo a alguma zona interditada aos pensamentos, horizonte da antinatureza ou então depois de finda a sua transposição. Assombra o nosso espaço, pois ele é o nosso tempo. Inapreensível em cada uma de suas figuras, que surgem apenas para vincular a sua tendência ascendente à de imprevisíveis sucessões, o poema secreta a sua própria história tal como o aeroplano traça irredutíveis espirais em sua leitura linear para o que migra do azul a um ponto branco. Apoiando-se sobre a explosão estrelada da linguagem, ruminando a aflorante isca do evento, apartando o gesto de seus usos funcionais, de forma a desconectá-lo de suas intenções temáticas, o poema faz com que alguém por ele surpreendido peça às suas páginas o abrigo e o descanso de uma história, o modelo perfeito, apenas vislumbrado, da pedra azul sobre um rosto, a impossível chave. Sem remissão.

Referência:

DUPIN, Jacques. Démesure de la poésie. In: CAWS, Mary Ann (Ed.). The Yale anthology of twentieth-century french poetry. English and French on facing pages. New Haven, CT: Yale University Press, 2004. p. 390.