Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 22 de novembro de 2015

José García Villa - Deus disse, “Fiz um homem”

O poeta filipino José García Villa resenha neste belo poema a ideia de que o homem se tornou um “gênio criador”. De simples criatura da natureza, ele passou ao estágio de criador de outras realidades, equiparando-se a um Deus a agir sobre a terra.

Já houve filósofos e cientistas que expulsaram as divindades do domínio da razão. Mas a razão humana, até o presente momento, não foi capaz de provar a inexistência de Deus. E pelo benefício da dúvida, há quem, como o compositor Gilberto Gil, procura levar a vida com fé, pois como afirma: “mesmo a quem não tem fé, a fé costuma acompanhar, pelo sim, pelo não!”.

J.A.R. – H.C.

José García Villa
(1908-1997)

God said, “I Made a Man”

God said, “I made a man
Out of clay –
But so bright he, he spun
Himself to brightest Day
Till he was all shining gold,
And oh,
He was handsome to behold!
But in his hands held he a bow

Aimed at me who created
Him. And I said,
‘Wouldst murder me
Who am thy Fountainhead?’

Then spoke he the man of gold:
‘I will not
Murder thee. I do but
Measure thee. Hold

Thy peace!’ And this I did,
But I was curious
Of this so regal head.
‘Give thy name!’ – Sir! Genius’”

Criação de Adão
(Michelangelo: artista italiano)

Deus disse: “Fiz um homem”

Deus disse: “Fiz um homem
A partir do barro –
     Porém de tão brilhante, ele
Se entrelaçou com o mais radiante Dia,
Até que se tornou todo de ouro reluzente,
E oh,
Como era atraente à vista!
Porém em suas mãos segurava um arco

Direcionado a mim que o
Criou. E então lhe disse,
‘Queres aniquilar-me,
Eu que sou tua Fonte?’

Pelo que retorquiu o homem dourado:
‘Não hei de te
Eliminar. Mas satisfaço-me
Em medir-te. Vela pela

Tua paz!’ E assim o fiz,
Embora estivesse curioso
Com tão régia cabeça.
‘Revela o teu nome’ – ‘Senhor, Gênio’”

Referência:

VILLA, José García. God said, “I made a man”. In: BENÉT, William Rose; AIKEN, Conrad (Eds.). An anthology of famous english and american poetry. New York, NY: Random House Inc., 1945. p. 934. (The Modern Library)

sábado, 21 de novembro de 2015

Victor Oliveira Mateus - O que dói não são as ruturas

Mais um poema a veicular a ideia de que o tempo é o senhor de tudo. Que sob o seu alcance, as coisas acabam por perder importância, a terem os seus efeitos atenuados. Logo elas que, em dado momento, podem nos ter atormentado sobremaneira!

Mesmo os episódios que tendem a ser marcantes, como as “ruturas” a que se refere o poeta, as palavras mal colocadas, as emoções que chegam a ranger no espírito, revelam-se-nos como ondas num alto e revolto mar que, ao final, bem próximo à praia, inclinam-se a não passar de simples “marolinhas”, circunstâncias sem relevância alguma.

J.A.R. – H.C.

Victor Oliveira Mateus
(n. 1952)

Victor Oliveira Mateus é natural de Lisboa e formado em Filosofia pela Universidade Clássica dessa cidade. Dedicou-se ao ensino da Filosofia e da Psicologia. Tem oito livros de poesia publicados e uma novela, traduziu autores clássicos e organizou diversas Antologias, de poesia e de contos, portuguesas e luso-brasileiras. Tem poemas, contos e ensaios dispersos por Portugal, Brasil, Moçambique, Espanha, Itália, México e Macau. Coordena a coleção de poesia Contramaré, da Editora Labirinto, tem pertencido ao júri de diversos prêmios literários e feito conferências em escolas, faculdades e espaços culturais diversos. Foi-lhe concedido, em 2013, pela União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, o Prêmio Eugénio de Andrade. É sócio da A.P.E. (Associação Portuguesa de Escritores) e membro da Direção do PEN Clube Português (ABL, 2015, p. 243).

A Idade Intemporal
(Helen Knoop: pintora norueguesa)

O que dói não são as ruturas

O que dói não são as ruturas, o afastamento,
a incapacidade a minar como um cancro
oculto e certeiro. O que dói não é
a pouca solidez com que se disse
esta ou aquela palavra, esta ou aquela frase;
com que se insistiu, apesar de receios vários,
na grotesca encenação do que se previa
muito aquém de qualquer futuro. O que dói
não é a viscosidade das emoções a grafar-se
em algum mapa antecipadamente condenado,
nem tampouco a insistência de uma insolúvel
lembrança a fugir. O que dói verdadeiramente
é acordarmos um dia e descobrirmos
que nada disso teve importância alguma.

Referência:

MATEUS, Victor Oliveira. O que dói não são as ruturas. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL). Revista brasileira. Fase VIII; abr-mai-jun 2015; ano IV; nº 83. p. 244.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

W. B. Yeats - O Céu Gélido

Eis aqui mais um poema a refletir sobre a vida, como ela é breve, como a experiência do amor pode resultar em desilusão, e como metáforas de uma afeição tórrida – um céu ardente, por exemplo – podem cambiar inopinadamente a outras, v.g., um firmamento gélido, de solidão e de pensamentos funestos, cujo maior augúrio são as mencionadas gralhas.

Mas esse gelo arde, como diz o poeta, porque machuca o coração, e tanto mais agora que a paixão e a energia dão mostras de fenecimento. E ainda: finda a agonia desta terra, outra mais dolorosa poderá advir, se como dizem os livros bíblicos, aos homens pecadores, apanhados em sua nudez, são infligidas penas que, sob a ótica do poeta, mais parecem castigos da “injustiça dos céus”.

J.A.R. – H.C.

W. B. Yeats
(1865-1939)

The Could Heaven

Suddenly I saw the cold and rook-delighting heaven
That seemed as though ice burned and was but the more ice,  
And thereupon imagination and heart were driven  
So wild that every casual thought of that and this
Vanished, and left but memories, that should be out of season  
With the hot blood of youth, of love crossed long ago;  
And I took all the blame out of all sense and reason,  
Until I cried and trembled and rocked to and fro,  
Riddled with light. Ah! when the ghost begins to quicken,  
Confusion of the death-bed over, is it sent  
Out naked on the roads, as the books say, and stricken  
By the injustice of the skies for punishment?

Coração em Chamas
(Janice Van Cronkhite: artista norte-americana)

O Céu Gélido

De repente, vi o céu gélido em que se deleitavam as gralhas
Que parecia como se o gelo ardesse e fosse ainda mais gelo,
E nisso a imaginação e o coração foram repelidos tão
Impetuosamente que todo pensamento fortuito disto ou daquilo
Se desvaneceu, e não deixou senão memórias, deslocadas no tempo
Com o sangue quente da juventude, do vivenciado amor de há muito;
Assumi a culpa sem nenhum sentido ou razão,
Até que chorei e tremi e vibrei de um lado a outro,
Trespassado pela luz. Ah! quando o fantasma começa a se animar,
Finda a confusão do leito de morte, ele é enviado
Despido pelas estradas, como afirmam os livros, e golpeado
Pelo castigo da injustiça dos céus?

Referência:

YEATS, W. B. The could heaven. In: __________. The collected poems of W. B. Yeats. Revised 2nd edition. Edited by Richard J. Finneran. New York, NY: Collier Books  MacMillan Publishing Company, 1989. p. 125.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Adriano Wintter - Lege artis

Que a beleza tem leis é algo que dá para se inferir ao entrar em contato com ela. A proporção, a simetria por vezes, a escolha equilibrada dos tons, das palavras, das linhas arquitetônicas, o sentido de conjunto, a atenção ao detalhe.

No domínio tão apenas da palavra, da literatura e, muito particularmente, do poema, tudo se passa como se o poeta obedecesse a “forças superiores”: (i) “a beleza tem leis que as palavras apagam quando grafam seu gênesis no princípio da página”; (ii) “a beleza tem leis que o poeta obedece feito cego refém de suas hostes secretas”; (iii) “a beleza tem leis que o poeta ignora apesar de contê-las na extensão de sua obra”. Eis a suma de Adriano Winter. E por fim: “a poesia começa onde o verbo acaba”!

J.A.R. – H.C.
Adriano Winter

Adriano Wintter nasceu e reside em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Foi monge. Venceu o Femup 2010 e integrou sua antologia. Tem outras coletâneas publicadas nas revistas internacionais: Sibila (Estados Unidos-Brasil), Separata (México), Triplov (Portugal), Cinosargo (Chile), Experimenta (Argentina), e nas revistas brasileiras: Germina, Aliás, Eutomia, Mallarmargens, Ellenismos, 7Faces, Babel e Correio das Artes, além de poemas nos jornais Relevo, Poesia Viva e na sèrieAlfa (Espanha) (ABL, jan-fev-mar 2015, p. 217).

A Beleza da Rosa
(Alexei Antonov: artista russo)

Lege artis

I

a beleza tem leis
que as palavras apagam
quando grafam seu gênesis
no princípio da página

e revelam que o belo
surge brusco e sozinho
como sonho ou delírio
na pupila da linha

(não há luz que construa
nem engenho que gere
a sua flor na brancura
insondável do cérebro
onde pétalas lusas
ditam versos inéditos)

ela anula a estrutura
cinde a lira do logos
parte o fêmur do número
ri do rosto de Apolo
e na mão do arquiteto
crava o da(r)do do acaso

quando quer, como quer
a si tudo submete
tem um trono no caos
outro sólio na ordem

reino em branco do arcano
onde incógnita impera
às vogais, consoantes
dando timbre e mistério

II

a beleza tem leis
que o poeta obedece
feito cego refém
de suas hostes secretas

as safiras da forma
ele pensa que amolda
que lapida, que pole
ou colares concebe
mas as pedras precisas
são geradas por ela

ruge azul e se insere
no momento que escolhe
sob o molde que elege
pressionando sua mente
a cingir cada verso
da maneira que pede

advém do inconsciente
que antecede a palavra
e em riquezas excede
as jazidas da fala

um silêncio que ao léxico
alimenta e revela
hermetiza e esclarece
ou destrói, desespera

luta eterna do ser
contra o som e o alfabeto
contra a arte que o diz
sem contudo expressá-lo

III

a beleza tem leis
que o poeta ignora
apesar de contê-las
na extensão de sua obra

linha a linha reflete
harmonias herméticas
de suas luzes simétricas
que jamais entrevê
mas cintilam no avesso
do céu negro que versa

lê de luas ilógicas
raios presos nas letras
tão sutis que velozes
somem quando aparecem
lê de estrelas o eco
sob as trevas fonéticas

e por todo poema
em discurso de eclipse
lê o zênite líquido
do vocábulo impresso

mas em língua ilegível
– um dialeto do nada –
que reflete o invisível
escrevendo o que apaga

lê a lei do silêncio
no limite da lauda:
a poesia começa
onde o verbo acaba

Referência:

WINTER, Adriano. Lege artis. In: ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (ABL). Revista Brasileira. Fase VIII; jan-fev-mar 2015; ano IV; nº 82. p. 218-220.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Henry Wadsworth Longfellow - Mezzo Cammin

Com título em italiano que preferimos não traduzir, pois de fácil entendimento, o tema deste poema reflete os pensamentos que se abatem sobre cada ser humano, quando percebe entrar em sua fase outonal e, a essa altura, se dá conta de não haver realizado os desejos mais profundos que houvera planejado em algum momento de sua juventude.

Naturalmente, tal aflição somente atinge aqueles que veem algum sentido maior a ser galgado na vida. Para outros tantos que a concebem como uma experiência absurda e sem significado, talvez essa dor não se manifeste, senão apenas indiferença.

J.A.R. – H.C.

Henry Wadsworth Longfellow
(1807-1882)

Mezzo Cammin

Half of my life is gone, and I have let
The years slip from me and have not fulfilled
The aspiration of my youth, to build
Some tower of song with lofty parapet.

Not indolence, nor pleasure, nor the fret
Of restless passions that would not be stilled,
But sorrow, and a care that almost killed,
Kept me from what I may accomplish yet;

Though, half-way up the hill, I see the Past
Lying beneath me with its sounds and sights,−
A city in the twilight dim and vast,

With smoking roofs, soft bells, and gleaming lights,−
And hear above me on the autumnal blast
The cataract of Death far thundering from the heights.

Estrada da Vida
(Richard T. Pranke: pintor canadense)

Mezzo Cammin

Metade de minha vida se foi, e eu deixei
Os anos escaparem sem que houvesse cumprido
A aspiração de minha juventude: construir
Alguma torre de canção de elevado parapeito.

Não a indolência, nem o prazer, nem o frenesi
De turbulentas paixões que não se acalmam,
Mas a tristeza, e uma aflição quase funesta,
Apartaram-me do que eu ainda posso realizar;

Embora a meio caminho da eternidade, vejo o Passado
Estender-se sob mim com seus rumores e vislumbres,
Como uma cidade no crepúsculo tênue e vasto,

Com chaminés fumegantes, suaves sinos e luzes radiantes,
E ouço acima de minha cabeça, na rajada outonal,
A distante catarata da Morte a precipitar-se do alto.

Referência:

LONGFELLOW, Henry Wadsworth. Mezzo cammin. In: O’BRIEN, Geoffrey (Ed.). Foreword by Billy Collins. Bartlett’s poems for occasions. The cycles of life: the perspectives of midlife. New York, NY; Boston, MA: Little, Brown and Company, 2004. p. 170-171.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Raul de Leoni - Ingratidão

Este poema revela como se dão as manifestações de ingratidão na vida do poeta, sejam elas valorações de simples fatos da natureza, sejam outras quaisquer cujos frutos não lhe vêm em retribuição, senão a terceiros.

Tais infortúnios mais parecem vaticínios que, ao acaso, ocorrem em sua vida, ainda que as intenções sejam semeadas em “sonho magnífico”. Ao final, resta o augúrio maior de Sófocles, que, ao encerrar a peça “Édipo-Rei”, apõe na boca do Corifeu: “Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida” (Sófocles, 2005, p. 105).

J.A.R. – H.C.

Raul de Leoni
(1895-1926)

Ingratidão

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
E florescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

Abertura Silenciosa do Portão
(Victor Tsyganov: artista ucraniano)
Computação Gráfica

Referências:

LEONI, Raul de. Ingratidão. In: PINTO, José Nêumanne (Sel.). Os cem melhores poetas brasileiros do século. São Paulo, SP: Geração, 2001. p. 62.

SÓFOCLES. Édipo-Rei. Tradução de J. B. de Mello e Souza. Versão para eBook. Disponível neste endereço. Acesso em: 12 out 2015.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Robert Frost - Perto do bosque, numa noite de neve

Este poema de Robert Frost retém o timbre da simplicidade: estacionado num bosque, o poeta contempla a noite nevada e se compraz em ficar um pouco mais, embora reconheça a força das obrigações e a considerável distância a ser percorrida antes que possa descansar.

Há aqui uma clara dicotomia entre um modo de vida natural – representado pelo bosque ou floresta, no qual vale mais a experiência imediata e o contato com a sua beleza –, e uma forma de vida dita civilizada, que nos impõe compromissos nem sempre agradáveis de serem cumpridos.

J.A.R. – H.C.

Nascido em 1875 e morto em 1963, Frost foi e talvez ainda seja o mais popular dos poetas americanos. Viveu algum tempo na Inglaterra e, com a publicação de seu primeiro livro (A boy’s will), encontrou imediato sucesso e glória. Venceu por quatro vezes o Pulitzer - algo que ninguém mais conseguiu até hoje - e terminou sua vida como Poet Laureate. Sua poesia é apenas aparentemente simples, como bem demonstra Randall Jarrell num excelente ensaio (in Poetry and the age) e bem se comprova pela leitura de um poema (aqui incluído) como Neither out far nor in deep. Este equívoco fez-se presente em algumas críticas que julgaram Frost como pequeno “filósofo campestre”. Mas é verdade, apenas, que muito da sua filosofia, da sua visão do mundo - em termos de poesia - partia do ambiente realmente campestre em que preferiu viver. Quanto ao mais, de sua “aldeia” à moda de Tolstoi, Frost alcançava dimensões de nítida universalidade em suas realizações. Alguns de seus poemas de maior reputação se mantêm – erroneamente – pela musicalidade natural de que ele era dotado, quando, na realidade, há em todos algo de bastante far e bastante deep; profound, mesmo. Seu encontro com a alma do povo americano foi total e lhe valeu fama contínua e justa em seu país e fora dele (WANDERLEY, 1992, p. 65).

Robert Frost
(1874-1963)

Stopping by woods on a snowy evening

Whose woods these are I think I know,
His house is in the village though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound’s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

Bosque Nevado no Maine
(Brenda Owen: pintora norte-americana)

Perto do bosque, numa noite de neve

O dono dos bosques conheço, creio.
No entanto, mora na cidade, alheio,
E não verá que me detenho aqui
Olhando a neve que de noite veio.

A meu cavalo parece um engano
Que eu pare nestes ermos, sem um plano,
Entre bosques e lagos congelados
No entardecer mais sombrio do ano.

Agita a rédea, sinto seu chamado
Que me pergunta se está algo errado.
Além dele, ouço apenas a passagem
Da brisa leve e os flocos repousados.

O bosque escuro e fundo é bom de ver,
Mas eu tenho promessas a manter,
E há que andar muito, antes de adormecer,
E há que andar muito, antes de adormecer.

Referência:

FROST, Robert. Stopping by woods on a snowy evening / Perto do bosque, numa noite de neve. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção, tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 68; em português: p. 69.

domingo, 15 de novembro de 2015

Wallace Stevens - A casa estava em silêncio e o mundo calmo

Neste domingo, um dia sempre carregado de muita fantasia, nada melhor do que nos deliciarmos com mais um poema do norte-americano Wallace Stevens, um discreto advogado que, em suas horas vagas, e já cinquentão, deleitava-se em registrar sob a forma de poemas muito de sua filosofia e visão do mundo.

Neste poema, Wallace tenta estabelecer um programa de identidade entre o leitor e o seu livro, ou talvez melhor, sua leitura. O leitor, ele mesmo um estudioso em busca da verdade, é como se um circunspecto fosse, envolto em paisagens a emular pensamentos perfeitos, num ambiente familiar e sereno.

J.A.R. – H.C.

Wallace Stevens
(1879-1955)

The house was quiet and the world was calm

The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself

Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading; there.

Manhã Calma
(Kathy Wheeler: artista norte-americana)


A casa estava em silêncio e o mundo calmo

A casa estava em silêncio e o mundo calmo.
O leitor converteu-se no livro; e a noite de verão

Era como a essência consciente do livro.
A casa estava em silêncio e o mundo calmo.

As palavras eram pronunciadas como se não houvesse livro,
Exceto que o leitor se debruçava sobre a página,

Queria debruçar-se, queria tanto ser
O erudito para quem seu livro é a verdade, para quem

A noite de verão é como uma perfeição de pensamento.
A casa estava em silêncio porque assim devia estar.

O silêncio era parte do significado, parte da mente:
O acesso de perfeição à página.

E o mundo estava calmo. A verdade num mundo calmo,
Em que não há outro significado, ela mesma

É calma, ela mesma é verão e noite, ela mesma
É o leitor ali debruçado e lendo até altas horas.

Referência:

STEVENS, Wallace. The house was quiet and the world was calm. In: __________. The collected poems. Parts of a World. 11. ed. New York, NY: Alfred A. Knopf. Inc., feb. 1971. p. 358-359.