Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 24 de outubro de 2015

Euclides da Cunha - Mundos Extintos

Um poeta ainda aos vinte anos e já a sonhar com a eternidade. E se considerarmos que Euclides morreu, de fato, ainda jovem, aos 43 anos, o poema mais parece um vaticínio que se ratificaria pelo advento de seu trágico falecimento.

São esses “mundos extintos” que perduram pelo tempo incomensurável, éons a atravessar toda a história, a nos alertar que a finitude da vida humana muito pouco representa nesse moto contínuo, nesse fluxo interminável de tudo quanto existe.

J.A.R. – H.C.

Euclides da Cunha
(1866-1909)

Mundos Extintos

São tão remotas as estrelas que, apesar da
vertiginosa velocidade da luz, elas se apagam,
e continuam a brilhar durante séculos.

Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...

Mas, para nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura

Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade –
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh’alma a revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...(*)

Histórias Silenciadas
(Joshua Meyer: artista norte-americano)

Nota:

(*) O poema é datado de 1886 e o poeta nasceu em 1866, momento em que, portanto, tem     vinte anos.

Referência:

CUNHA, Euclides. Mundos extintos. In: __________. Ondas. São Paulo: Martin Claret, 2005. p. 67.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Javier Rodríguez Marcos - Outra Poética

O jornalista e poeta espanhol nos propõe uma outra poética, desvestida de qualquer retórica ensimesmada, definida e valorada previamente. Uma poética que se assemelhe às contas que costumamos fazer nas margens de papéis já usados.

Nada de verborragia, também, pois qualquer palavra adicional pode ser condenada por excesso, ainda que, como afirma Marcos, qualquer palavra nos sirva ao intento de produzir o pretendido efeito poético.

J.A.R. – H.C.

Javier Rodríguez Marcos
(n. 1970)

Otra Poética

Evitar
desde ahora una palabra:
yo. Mirar sin ideas.

Evitar
las imágenes, algunas imágenes,
las que sean poéticas.

Escribir
como el que hiciera cuentas
en los márgenes del papel usado.

Evitar
hacerse sangre en la planta del pie
con los trozos de las palabras rotas
al caminar descalzos.

Evitar
las poéticas y los infinitivos
y las palabras grandes,
porque cualquiera sirve.

Evitar,
evitarse.
Porque cada palabra
corre el riesgo de ser
la palabra de más.

De: “Frágil”

Caminhada pelo Jardim
(Gustave Caillebotte: pintor francês)

Outra Poética

Evitar
desde já uma palavra:
eu. Olhar sem ideias.

Evitar
as imagens, algumas imagens,
as que sejam poéticas.

Escrever
como quem houvesse feito contas
nas margens do papel usado.

Evitar
que se faça sangue na planta do pé
com os fragmentos das palavras estilhaçadas
ao caminhar descalços.

Evitar
as poéticas, os infinitivos
e as palavras extensas,
porque qualquer uma serve.

Evitar,
Evitar-se.
Porque cada palavra
corre o risco de ser
a palavra em excesso.

Referência:

MARCOS, Javier Rodríguez. Otra poética. In: GALLEGO, Antonio (Org.). Javier Rodríguez Marcos. Madrid, ES: Fundación Juan March, 2009. p. 74. (Cuadernos “Poética y Poesia”)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

João Guimarães Rosa - O Grande Sertão

Vai aqui uma justa homenagem deste bloguinho ao médico, diplomata e escritor mineiro João Guimarães Rosa, um dos maiores nomes, se não for o maior, da Literatura Brasileira.

Seu livro “Grande Sertão: Veredas”, de 1956, ombreia com clássicos de nossa literatura, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880) ou “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis, ou ainda “Vidas Secas” (1938), de Graciliano Ramos.

A longa apreciação de sua obra, abaixo postada, pertence ao professor, filólogo e linguista gaúcho Celso Luft (1921-1995), extraída de sua obra relacionada no campo de referências.

J.A.R. – H.C.
João Guimarães Rosa
(1908-1967)

Apreciação da Obra por
Celso Pedro Luft (1979, p. 336-338)

N. em Cordisburgo (Minas Gerais, 27.6.1908). M. no Bio de Janeiro (19.11.1967). Infância e juventude na zona de Urucuia, que haveria de marcar-lhe a visão regionalista. Formado em Medicina em Belo Horizonte, clinicou no interior mineiro (Itaguara), e foi capitão-médico da Força Pública do seu Estado. Entrou depois na carreira diplomática. No começo da Segunda Grande Guerra representava o Brasil em Hamburgo (Alemanha), regressando à pátria após a declaração de guerra do Brasil ao Eixo. Secretário da Embaixada em Bogotá (1942-4). Chefe de gabinete do Ministro Neves da Fontoura (1946). Conselheiro da Embaixada de Paris (1948-51). Chefe de gabinete do Ministro de Relações Exteriores (1951-3). Etc. Conquistou diversos prêmios literários: Prêmio de Poesia, da Academia Brasileira de Letras (1936); Prêmio Sociedade Filipe de Oliveira (1946); Prêmio Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro (1956); Prêmio Cármen Dolores Barbosa (1956); Prêmio Paula Brito, da Biblioteca Municipal do Bio de Janeiro (1957); etc. Em 1963, na vaga de João Neves da Fontoura, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Foi também membro da Sociedade de Geografia, do Bio de Janeiro.

Obras – Poesia: Magma (1936 – Prêmio de Poesia, da Academia Brasileira de Letras; inédito). – Ficção – a) Contos e novelas: Sagarana (1946); Corpo de Baile, 2 vols. (1956); Primeiras Estórias (1962). – 6) Romance: Grande Sertão: Veredas (1956). – Reportagem: Com o Vaqueiro Mariano (1952).

Apreciação: João Guimarães Rosa é dos escritores brasileiros da época pós-modernista um dos mais festejados pela crítica, e certamente o mais original. Iniciou a carreira literária como poeta – poesia em versos, quando a sua destinação era a poesia em prosa ou a prosa poética. Mas o livro de poemas, Magma (1936), prêmio da Academia Brasileira de Letras, não chegou a publicá-lo. Estreou assim com Sagarana, contos e novelas regionalistas, mas de um regionalismo diferente, baseado na pesquisa è elaboração artística da linguagem, incluída a regional. Enquanto os tipos anteriores de regionalismo – o romântico de Alencar e Bernardo Guimarães, o realista de Coelho Neto, Monteiro Lobato e Simões Lopes Neto, e o modernista de Lins do Rego e José Américo – se compraziam no pitoresco local e na imitação ou transcrição da linguagem popular e coloquial, Guimarães Rosa estiliza o material que a pesquisa lhe revela. Já o título Sagarana exemplifica a revolução idiomático-literária: é termo cunhado pelo autor – Saga “lenda escrita, propriamente o que se diz ou conta” (al. sagen) + rana (sufixo tupi-guarani) “parecido com, tirante a, que tem semelhança ou analogia com” (brancarana, caferana). A cunhagem de novas formas para fins expressivos será uma constante em G. R. Neste livro de estreia, apesar de páginas definitivas como, entre outras, “A hora e vez de Augusto Matraga”, notam-se as naturais deficiências do estreante, a exterioridade de processos estilísticos como a prosa rítmica, etc. A consagração definitiva, com o pleno domínio do artista, viria dez anos após, com duas obras, essas imortais, da primeira linha da ficção brasileira: Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. O novelista entrara corajosamente por um caminho novo, indiferente à celeuma que a sua audaciosa solidão artística levantaria. De fato, a crítica dividiu-se pró ou contra o fenômeno G. R., uns a falarem em genialidade, outros em equívoco literário. A verdade é que a revolução artística de G. R. obrigou a crítica brasileira a rever seus métodos rotineiros e sair do seu impressionismo sem alcance. Era a “hora e vez” de críticos como Haroldo de Campos, Cavalcanti Proença, Eduardo Portella, Oswaldino Marques e outros.

Corpo de Baile é um “corpo” de novelas como o fora Sagarana; aqui porém o novelista leva os seus processos estilísticos às últimas consequências. Concebido inicialmente como uma das novelas da coletânea, Grande Sertão acabou em dimensões de encorpado romance. Mas o espírito e o estilo são os mesmos. G. R. criava a ficção estruturalmente sertaneja, de ressonâncias universais. Não o mero pitoresco local e linguajar típico, e sim a recriação poética de uma cosmovisão sertaneja – eis o objetivo do novelista. O ambiente, os costumes, as tradições, os modismos e a fala peculiares às personagens enfocadas, são apenas um suporte para a sondagem e meditação dos grandes problemas humanos de todos os tempos e lugares. Em vez da rasa transcrição de certo regionalismo sem nível artístico, procura-se aqui recriar, amoldar esteticamente o material genuíno. Daí o cunho paradoxalmente regionalista e universal. Os hábitos locais, os pequenos dramas interioranos respiram uma inquietação ética e metafísica universal. Já se frisou o quanto há de dostoievskiano em muitas páginas rosianas. Grande Sertão liga-se à tradição literária ocidental dos pactos diabólicos. Riobaldo, antigo jagunço, narra a sua dramática história. Na tarefa de vingar seu chefe Joca Ramiro, assassinado à traição, fez um pacto com o demônio. Esse tema fáustico e outros que o romance desenvolve, projetam a obra à altura da melhor literatura mundial deste século.

O que dificulta o acesso à obra de G. R., e a não poucos afasta ou choca irreconciliavelmente, é a sua linguagem. Muitos consideram seus livros ilegíveis, esotéricos. Em verdade, G. R. é desses autores que exigem imaginação poética a quem os lê. Na ânsia de exprimir experiências e sensações irredutivelmente pessoais, o escritor-poeta se vê forçado a reavivar os elementos idiomáticos viciados e gastos pelo uso cotidiano. Neste empenho, prefere a maioria ficar num meio-termo de neologismos morfológicos ou semânticos, de metáforas renovadoras ou combinações inusitadas de palavras. G. R., já o dissemos, levou a recriação da linguagem às últimas consequências. Para ele, na luta pela expressividade absoluta da língua, vale tudo: joga com o arcaico e o moderno, o erudito e o popular, o nacional e o estrangeiro, o vulgar e o científico, o nobre e a gíria. Quando o elemento vernáculo não basta, vai ao latim, ao grego ou a algum idioma estrangeiro. O seu instrumento de arte é a linguagem funcional – a linguagem constantemente amoldada e recriada em função do que o autor pensa ou sente, dó que as suas personagens sentem ou pensam. Numa estória de crianças recorre à linguagem infantil, como à gíria marítima num conto de homens do mar, ou à fala sertaneja nos diálogos de campônios ou jagunços. É extraordinário o acervo de conhecimentos e o poliglotismo que o autor revela nesse esforço. G. R. inaugura, assim, uma nova fase na ficção e na prosa, brasileira, e é o ponto de partida para uma fecunda renovação literária.

Alguns exemplos da prosa artística, poética, de G. R. (Grande Sertão): Para ele olhei, o tanto, o tanto, até ele anoitecer em meus olhos. – No átimo, supri a claridade completa de ideia... – O pelo da gente se arrupeia de total gastura – cheio chorou, feito criança – Vá de retro! – nanje os dias e as noites não recordo. – E de repente aqueles homens podiam ser montão, montoeira, aos milhares mis e centos milhentos, vinham se desentocando – Ah, as coisas influentes da vida chegam assim sorrateiras, ladroalmente. – O pássaro que se separa de outro, vai voando adeus o tempo todo. – O dia parava formoso, suando sol, mesmo o vento suspendido. – (Primeiras Estórias): O silêncio se torcia. – à tona dos espelhos, em sua lisa, funda lâmina, em seu lume frio. – Chegava, após íngremes horas e encostas. – Almoçou-se, com-fomemente, apesardes. – grito meio ferrugento dos tucanos...

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– o –
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O que eu vi, sempre, é que toda a ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo (ROSA, 2001, p. 194).

Referências:

LUFT, Celso Pedro. João Guimarães Rosa. In: __________. Literatura portuguesa e brasileira. Enciclopédia Globo para os Cursos Fundamental e Médio. Organização de Álvaro Magalhães. V. II. Porto Alegre, RS: Globo, 1979. p. 336-338.

ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 19 ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2001.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Carlos Latorre - Arte Poética

Um primor de poesia, atravessada pela mais genuína imaginação, põe-se a falar das circunstâncias e das consequências do labor poético – como tantas que neste bloguinho já postamos.

Mas este poema de Carlos Latorre, poeta argentino, vai mais longe em seu intento de elaboração, haja vista que se estende aos domínios da crítica, do “labirinto ontológico”, das “paisagens semânticas”. E tudo muito bem balanceado por arrebatadoras metáforas.

J.A.R. – H.C.

Carlos Latorre
(1916-1980)

Arte Poética

La palabra busca cielo como pájaro que cruza el
atardecer sin dejar canto ni estela,
frágil golondrina fugaz en busca del eerno verano,
que en ocasiones muere sepultada en nieve de invierno
de otro hemisferio.
La palabra se proyecta como alameda que Lanza
remota flecha de horizonte,
desdidachamente desmoronada a tiro de piedra.
En ocasiones cae en surco de vida fértil,
a veces hace pie en tierra árida,
u hondonada envuelta em bandera de niebla de
pantano pestífero.
Mas lo que se pudre no es su intención reveladora
sino su envoltura de mariposa fatalmente letal a
fuerza de libar venenoso concepto,
explorar hermético laberinto ontológico
o habitar falso reino ideatario.
La palabra describe paisaje semântico,
poças veces playa marítima,
vida viva,
follaje azul,
fuente de agua pura
ni otra belleza creada en sol de amanecer,
noche
o tarde de lluvia.
Cuando la palabra habla de amor suele amar sólo
su eco estético,
su canto de Onán obseso o propio ritimo;
más
mucho más que imagen corpórea
o analogia,
más que piel de mujer ya sea adolescente
inocente
o triste ramera.
Sin embargo la palabra es verbo, acción,
para-vida,
meta-lenguaje,
propia meta que algún día terminará por alcanzar
sabia
y desnuda,
de toda estúpida convención
o servilismo.

En: “Las ideas fijas”

Nascer do Sol pelo Oceano
(Vladimir Kush: pintor russo)

Arte Poética

A palavra procura o céu qual pássaro que atravessa
o entardecer sem deixar canto nem sulco,
frágil andorinha fugaz em busca do eterno verão,
que de vez em quando morre sepultada quando neva no inverno
de outro hemisfério.
A palavra se projeta como alameda que arremessa
remota flecha de horizonte,
infelizmente desmoronada com lance de pedra.
De vez em quando cai no sulco de vida fértil,
às vezes finca o pé em terra árida
ou depressão envolta em bandeiras de névoa do
pântano pestífero.
Mas o que apodrece não é sua intenção reveladora
mas sim sua envoltura de mariposa indefectivelmente letal
à força de libar venenoso conceito,
de explorar hermético labirinto ontológico
ou habitar falso reino idealizável.
A palavra descreve paisagens semânticas,
raras vezes praia marítima,
vida viva,
folhagem azul,
fonte de água pura
ou outra beleza criada no sol do amanhecer,
noite
ou tarde de chuva.
Quando a palavra fala de amor costuma amar apenas
seu eco estético,
seu canto de Onã obsesso ou o próprio ritmo;
mais
muito mais do que a imagem corpórea
ou analogia,
mais do que pele de mulher quer seja adolescente
inocente
ou triste prostituta.
Entretanto, a palavra Verbo, ação,
paravida
metalinguagem,
a própria meta que algum dia terminará por alcançar
sábia
e despojada,
de toda convenção estúpida
ou servilismo.

Em: “As ideias fixas”

Referência:

LATORRE, Carlos. Arte poetica / Arte poética. In: JOZEF, Bella (Seleção, Prefácio e Tradução). Poesia argentina: 1940-1960. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Iluminuras, 1990. Em Espanhol: p. 52 e 54; em português: 53 e 55.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

João de Jesus Paes Loureiro - O Cenário Amazônico

O professor, escritor e poeta Paes Loureiro é figura por demais conhecida nos meios culturais paraenses. Dentre suas obras poéticas, sobressaem as coletâneas de poemas “Altar em Chamas”, de 1989, e “Cantares Amazônicos”, de 1990.

Mas o que temos por agora, apesar de plasmado aqui e ali por achados eminentemente poéticos, não é um exemplar de sua vigorosa poesia, senão um excerto retirado de sua tese de doutoramento (vide campo “Referência”), elaborada na Universidade Sorbonne-Paris, sob a orientação do sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nele, sobram termos regionais que nem mesmo a um seu conterrâneo, como eu, se poderia exigir conhecimento, embora, pelas descrições, seja possível inferir exatamente sobre a que realidades o escritor se refere.

J.A.R. – H.C.

João de Jesus Paes Loureiro
(n. 1939)

A Visualidade Amazônica
(LOUREIRO, 2001, p. 127-129)

Pelas margens do rios há os extensos e plásticos aningais, verdadeiros tapetes de aguapés que se estendem flutuantes, ondeando ao movimento provocado pelas aves aquáticas e os cardumes de peixes. Os cardumes de pratiqueiras (peixes semelhantes às tainhas), por exemplo, são de uma grande beleza quando se alastram pelo rio (podendo atingir, segundo crença nativa, vários quilômetros de extensão). Elas avançam, elas saltam, elas mudam conjuntamente de direção, provocando um fervilhamento nas águas, fazendo ecoar um rumor semelhante ao das ondas que se quebram sucessivamente nas praias. As águas encrespam-se como epidermes arrepiadas de frio ou medo. Vez por outra, pardos mergulhões executam voos curvilíneos, solenes, antes de flecharem mergulhando em busca de algum peixe. Em seguida, emergem súbitos, como jatos vivos de um chafariz, ascendem voando com o peixe ainda trêmulo no bico. E reconquistam o azul até novo mergulho. Pelas margens dos rios estendem-se alvas praias, comumente com parte de sua superfície coberta por uma vegetação rasteira extremamente verde. São lugares de pouso, eleitos por várias aves em busca de comida, pois ali proliferam – na parte lamacenta dos mangais – siris, sararás, caranguejos. Dentre as aves, cabe fazer atenção aos guarás. Eles são de uma rica e flamejante plumagem vermelho-carmim. Quando ainda estão pequenos, são negros como carvão. Mas, quando crescem, suas penas tornam-se como brasas vivas, recobrindo-lhes o corpo equilibrado sobre pernas longas e delicadas, o que lhes confere um porte elegante como o das garças.

Outra iluminura a enriquecer a paisagem do rio é a dos mururés. O poeta paraense Ruy Barata se reconhece e se irmana com eles: “Esse rio é minha rua / Minha e tua mururé”. Suas folhas são espessas e se espalmam horizontalmente à superfície das águas. Essas ninfeáceas têm raízes fortes que se entrelaçam sob as águas, formando uma firme estrutura, como se fossem verdadeiras ilhas vegetais flutuantes. Essas “ilhas de mururés” são denominadas pelos caboclos de periantãs ou marapatás. Elas vagam à flor das águas dos rios na enchente e na vazante, como se fossem um pedaço amputado da mata, escondendo muitas cobras, jacarés, garças e gaivotas, que delas fazem ninho ou pouso itinerante. Pode ocorrer também que alguém que navegue em igarités (pequenas canoas de tábuas ou escavadas a fogo em tronco de árvores) amarre sua canoa nessas ilhotas peregrinas, aproveitando a oportunidade para descansar. Como um solitário Robson, reinando displicentemente em sua terra de posse, unicamente sua e dos insetos e répteis – solitário habitante como todos os aventureiros de todas as terras reais ou imaginárias. A expressão que designa essa atitude é “ir de bubuia”, porque “bubuiar” é verbo que expressa a ação de seguir flutuando ao sabor das águas do rio.

Impossível seria não lembrar a vitória-régia. É a rainha das ninfeáceas e a grande flor aquática da região. Suas folhas verdes chegam a medir 1,8 m de diâmetro. A flor está catalogada como a maior da América, com 30 cm de diâmetro, e é constituída por uma profusão de pétalas, cujas cores se vão matizando progressivamente da manhã para a noite: alvas quando o dia nasce, vão passando ao róseo até à tarde e do róseo chegam ao quase rubro, quando a noite tomba. Durante a noite seguinte, tornam-se brancas para, a partir do nascer do sol, recomeçarem o ciclo cromático. As vitórias-régias estendem-se como tapetes, principalmente nos lagos ou enseadas, muitas vezes escondendo jacarés sob suas folhas, reeditando a imagem mítica dos perigos que se ocultam dialeticamente na beleza.

Vitória-Régia

Referência:

LOUREIRO, João de Jesus Paes. Cultura amazônica: uma poética do imaginário. São Paulo, SP: Escrituras, 2001. (Obras Reunidas)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Eugenio Montale - A Poesia

Montale, o Nobel italiano de literatura (1975), diverte-se neste poema a tratar da inspiração para se escrever poemas, ao afirmar que ela não diz respeito à termostática, pois nada tem a dizer sobre o modo como se manifesta nas criações dos poetas: se a frio ou a quente.

O fato é que Montale rejeita as regras pré-definidas, pois a poesia surge nos momentos e sob as formas mais inesperadas, daí porque refuta com horror os comentários dos exegetas sobre a matéria.

J.A.R. – H.C.

Eugenio Montale
(1896-1981)

La Poesia

I

L’angosciante questione
se sia a freddo o a caldo l’ispirazione
non appartiene alla scienza termica.
Il raptus non produce, il vuoto non conduce,
non c’è poesia al sorbetto o al girarrosto.
Si tratterà piuttosto di parole
molto importune
che hanno fretta di uscire
dal forno o dal surgelante.
Il fatto non è importante. Appena fuori
si guardano d’attorno e hanno l’aria di dirsi:
che sto a farci?

II

Con orrore
la poesia rifiuta
le glosse degli scoliasti.
Ma non è certo che la troppo muta
basti a se stessa
o al trovarobe che in lei è inciampato
senza sapere di esserne
l’autore.

“Satura” (1962-1970)

Paris
(Alexander Gunin: pintor russo)

A Poesia

I

A angustiante questão
se a inspiração dá-se a frio ou a quente
não concerne à ciência térmica.
O êxtase não produz, o vácuo não conduz,
não há poesia ao sorvete ou à lenha.
Trata-se bem mais de palavras
bastante importunas
com pressa para sair
do forno ou do congelador.
O fato é de somenos importância. Recém saídas
olham ao redor com ar de quem diz:
que faço eu aqui?

II

Com horror
a poesia rejeita
as glosas dos escoliastas.
Porém não é verdade que a grande muda
baste-se a si mesma
ou ao camareiro que nela tem tropeçado
sem saber que é
o seu autor.

Referência:

MONTALE, Eugenio. La poesia. In: __________. Satura. Traducción de María Ángeles Cabré. Edición bilingüe (Italiano - Español). 1. ed. Barcelona, ES: Icaria, 2000. p. 68-69.

domingo, 18 de outubro de 2015

Archibald MacLeish - Viagem ao Oeste

O poeta aspira pela descoberta de novas terras, inalcançáveis à mirada humana, uma vez que todos os horizontes terrestres já foram investigados pela curiosidade de seus pares.

Tal é a missão de todos nós no amanhecer de cada dia: explorar novas terras, novos mundos, para que a vida não transcorra tediosamente, para que os inéditos campos de investigação nos removam de nossa zona de conforto. Para a saúde de nossos neurônios! (rs)

J.A.R. – H.C.

Archibald MacLeish
(1892-1982)

Voyage West

There was a time for discoveries −
For the headlands looming above in the
First light and the surf and the
Crying of gulls: for the curve of the
Coast north into secrecy.

That time is past.
The last lands have been peopled.
The oceans are known now.

Señora: once the maps have all been made
A man were better dead than find new continents.

A man would better never have been born
Than find upon the open ocean flowers
Drifted from islands where there are no islands,

Or midnight, out of sight of any land,
Smell on the altering air the odor of rosemary.

No fortune passes that misfortune −

To lift along the evening of the sky,
Certain as sun and sea, a new-found land
Steep from an ocean where no landfall can be.

Viagem Inaugural do “The Mo’okiha O Pi’ilani”
(Loren Adams: pintor norte-americano)

Viagem ao Oeste

Houve um tempo de descobertas −
Para os promontórios que assomam além da
Primeira luz, a ressaca do mar e o
Pio das gaivotas: para a curva da
Costa norte em segredo.

Passado é esse tempo.
As últimas terras foram povoadas.
Os oceanos são agora conhecidos.

Señora: uma vez que todos os mapas têm sido elaborados
Um homem estaria melhor morto do que à procura de novos continentes.

Seria preferível que um homem jamais houvesse nascido
A encontrar flores sobre o oceano aberto
Distanciadas de ilhas onde não existem ilhas,

Ou à meia-noite, sem qualquer terra à vista,
Cheiro no ar a alterar o olor do alecrim.

Nenhuma ventura supera esse infortúnio –

Erguer-se acima da noite celeste,
Certa como o sol e o mar, uma recém-descoberta terra,
Escarpada a partir de um oceano de onde seja impossível avistá-la.

Referência:

MACLEISH, Archibald. Voyage west. In: NOSTRAND, Albert D. Van; WATTS II, Charles H. (Eds.). The conscious voice: an anthology of american poetry from seventeenth century to the present. New York, NY: The Liberal Arts Press, 1959. p. 410-411.