Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Charles Dickens - Portsmouth




PORTSMOUTH - INGLATERRA

“Aquelas lágrimas me haviam suavizado tanto, e de novo irromperam no curso daquele trajeto tranquilo, que, já na carruagem, já fora da cidade, ponderei, com o coração dorido, se não seria melhor descer, durante a troca dos cavalos, e voltar, passar mais uma noite em casa e fazer uma despedida melhor. Durante a troca, eu ainda não me decidira, e pensava, reconfortado, que, durante a troca seguinte, ainda seria praticável descer e voltar”.

(‘Grandes Esperanças’ – Charles Dickens – Escritor Inglês)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Hermann Hesse - Calw



CALW - ALEMANHA

“Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm o seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente certas desgraças. O verdadeiro sofrimento, o verdadeiro inferno da vida humana reside ali onde se chocam duas culturas ou duas religiões. Um homem da antiguidade, que tivesse de viver na Idade Média, haveria de sentir-se tão afogado quanto um selvagem se sentiria em nossa civilização. Há momentos em que toda uma geração cai entre dois estilos de vida, e toda a evidência, toda a moral, toda salvação e inocência ficam perdidos para ela. Naturalmente isso não atinge a todos da mesma maneira”.

(‘O Lobo da Estepe’ – Hermann Hesse – Escritor Alemão Naturalizado Suíço)

Dostoiévski - Moscou



MOSCOU - RÚSSIA

“É difícil julgar a beleza. Eu, pelo menos, ainda não sou capaz. A beleza é um enigma [...]. É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a Beleza salvaria o mundo? Senhores! - exclamou bem alto, dirigindo-se para o grupo inteiro - aqui o príncipe afirma que a Beleza salvará o mundo! Participo-lhes que a razão desta sua ideia tão radiosa advém do fato de estar ele apaixonado”.

(‘O Idiota’ – Fiódor Dostoiévski – Escritor Russo)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Falta de Instrução



Haroldo: "É um direito permanecer na ignorância?"
Calvin: "Não sei, mas recuso-me a descobrir"


Abstraindo a ironia que há por trás das palavras de Calvin, é bastante triste ver pessoas que, pela pouca instrução, não são capazes sequer de se manterem saudáveis ou mesmo sustentarem-se vivas, no pleno sentido da palavra.

Muitos dos casos ocorrem por pura falta de oportunidades. Outros tantos, por uma escolha individual que, no médio ou longo prazos, acarreta ônus a terceiros que não foram chamados à consulta sobre a decisão então tomada  - ou, mais extensamente, a toda a sociedade.

Relembro o exemplo levantado por Dworkin, famoso jurista americano, sobre irmãos que tiveram a mesma educação formal - pontos de partida similares na luta pela vida, sob a percepção rawlsiana -, sendo que um decide instruir-se mais a fundo para tornar-se empresário e independente financeiramente, enquanto o outro prefere usufruir a vida em estágio natural, com hábitos simples, tal como os de um pescador.

Se a decisão do segundo irmão tiver sido, como se espera, autônoma, poderia ele postular direitos à sociedade, se consequências adversas lhe sobrevierem como resultado de sua própria escolha? Dificilmente, não?

Não obstante, a pergunta de Haroldo não pode ficar sem resposta! Evasivas como a de Calvin precisam ser confrontadas à necessidade de se instruir o ser humano, qualquer que seja ele, para ganhar estatura de um ente autônomo, crítico de sua própria condição, e não mera massa de manobra a ser "usada" politicamente para interesses escusos.

Não se faz um país sem educação de qualidade, Calvin!

J.A.R./H.C.

Liev Tolstói - Yasnaya Polyana (Tula)



YASNAYA POLYANA (TULA) - RÚSSIA

“Creio que o amor ... essas duas classes de amor que, como te deves lembrar, Platão define no seu Banquete, constituem a pedra de toque dos homens. Uns só compreendem um destes amores; os demais, o outro. E os que só compreendem o amor não platônico, esses não têm o direito de falar de dramas. Com um amor dessa classe não pode existir nenhum drama. ‘Agradeço-lhe muito o prazer que me proporcionou, e adeus’. Nisso consiste todo o drama. E no que diz respeito ao amor platônico, também esse não pode produzir dramas, porque nele tudo é puro e diáfano [...]”.

("Anna Karenina" - Liev Tolstói - Escritor Russo) 

Thomas Mann - Lübeck



LÜBECK - ALEMANHA

"Que beleza! Ah, esse sopro do torrão natal, o aroma e a plenitude da planície, depois de tão prolongada privação! O ar ressoava com vozes de aves, pios, silvos, gorjeios, chilidos e soluços, cheios de fervor, de graça e de doçura, sem que se enxergasse um único passarinho. Hans Castorp sorriu, respirando gratamente. E o quadro tornava-se ainda mais belo. Um arco-íris curvava-se sobre um lado da paisagem, um arco completo e nítido, puro na sua magnificência, com o brilho úmido de todas as suas cores, que, untuosas como óleo, inundavam o verde espesso e reluzente. Mas isso parecia música, era como o som intenso de harpas, mesclado de flautas e violinos! O azul e o violeta, sobretudo, espalhavam-se maravilhosamente. Tudo se confundia com eles, como por um feitiço, transformando-se, evoluindo de modo sempre e cada vez mais belo".

('A Montanha Mágica' - Thomas Mann - Escritor Alemão)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

As Novas Regras para a Carreira


DEZ MANDAMENTOS PARA A CARREIRA

Síntese das Ideias de Matéria Publicada
na Folha de São Paulo em 22.4.2001


01.    VALORIZARÁS O LADO BOM DO TRABALHO
         O Sábio Não Dá Tanta Importância à Carreira
         (Domenico de Masi)

         As organizações que se encontram num nível avançado de convivência apreciam a criatividade, o carisma, o profissionalismo, a alegria. O profissional, portanto, fará carreira somente se conseguir demonstrar fantasia e concretude, senso ético e estético, flexibilidade e internacionalidade, visão global e respeito pela identidade, equilíbrio e sabedoria. O que deve lhe interessar é a qualidade do trabalho e da vida, não se lhe importando tanto a carreira, tal como disse Aristóteles: "a guerra visa à paz, o trabalho visa ao repouso, as coisas úteis visam às coisas boas".

02.    SERÁS MAIS HUMANO
         Trabalhador - Empresa - Comunidade
         (Gilberto Dimenstein)

         Ao se abrirem para uma visão mais holística e completa de quem trabalha (ser que pensa, tem idéias e interage), as empresas são obrigadas a absorver também a complexidade dos seres humanos, aceitando-os como pais, maridos e filhos. Tem-se ainda a realidade da responsabilidade social das empresas, cobradas sobre como cuidar de seus empregados e como tentam melhorar sua comunidade, com ações de cultura, educação, saúde e meio-ambiente. Assim, a confluência de todas essas tendências - valorizar a mão-de-obra e mostrar um rosto solidário para a comunidade - é o estímulo, bancado pelas empresas, para que seus funcionários exerçam atividades voluntárias.

03.    BUSCARÁS O "KNOWWARE"
         Onde e Como Apostar as Fichas
         (Gílson Schwartz)

         Impõe-se o "knowware": a prática, a combinação de conhecimento e experiência que se adquire por meios tácitos, pelo convívio com os usuários dos equipamentos e com a própria comunidade de técnicos que prestam assistência. A promoção dessas conexões, em todas as direções e sentidos, como na multiplicação de sinapses cerebrais, mantém esse organismo vivo e inteligente, tornando o profissional mais facilmente "empregável".

04.    SAIRÁS DO LUGAR-COMUM
         O Mercado Manda Mesmo ?
         (Simon Franco)

         O desafio nos dias de hoje é que temos de sair do lugar-comum e tornarmo-nos alguém incomum, de acordo com os nossos desejos, aptidões, personalidade e interesses. Pode até não parecer, mas nós somos seres humanos, com dignidade. No mercado, há obviamente mercadorias, simplesmente com preço. E fazer o melhor por si mesmo, e não pelo mercado, é algo que não tem preço.

05.    SABERÁS DO QUE PRECISAS
         É Preciso Assumir Duas Novas Responsabilidades
         (Peter Drucker)

         O profissional tem de assumir duas novas responsabilidades. Uma é a responsabilidade pela informação. Tanto para si como para a empresa. E a outra é a responsabilidade pelo seu próprio aprendizado contínuo. Não espere que alguém lhe diga do que precisa. É sua obrigação sabê-lo. Pergunte a si mesmo: "o que eu preciso aprender para continuar a adquirir novas habilidades, novos conhecimentos, novos relacionamentos, novos hábitos e, assim, crescer e me desenvolver mais depressa do que o meu cargo, mais depressa do que a economia, mais depressa do que a sociedade do conhecimento ?".

06.    SELECIONARÁS O TRABALHO
         O Melhor Lugar para Você
         (Robert Levering)

         Antes de você aceitar uma proposta de trabalho, faça cinco perguntas básicas e veja se as respostas lhe satisfazem: 1. a empresa oferece algum benefício, uma prática humana especial ou singular que a diferencia das demais ?; 2. os funcionários mantêm contato regular com a direção e, durante tais contatos, eles têm a possibilidade de formular perguntas livremente ?; 3. por que os funcionários devem sentir orgulho em dizer a seus amigos que trabalham para uma determinada empresa ?; 4. existe um clima de companheirismo na empresa, entendido este como a realização de festas ou outros eventos sociais que ajudam a fazer da companhia um ambiente em que é agradável trabalhar ?; e 5. alguém é capaz de dar exemplos de como a empresa demonstra que sua direção se preocupa com as pessoas como indivíduos, e não apenas como funcionários ?

07.    TOMARÁS ATITUDES POSITIVAS
         Lições para se "Vender"
         (Robert Wong)

         Se você focar o seu interesse de trabalho no que gosta de fazer e em seus pontos mais fortes, vai ter mais chances de ser um produto de sucesso no mercado. Desse modo: 1. conheça-se, para que saiba do que gosta e do que não gosta, de seus pontos fortes e pontos fracos; 2. invista em si próprio; 3. tenha visão prospectiva (de distância e de futuro); 4. defina seus objetivos e tome as rédeas de seu destino; 5. não trabalhe por dinheiro, mas pela paixão pelo que está fazendo; 6. faça "networking"; 7. faça o que os outros não estão dispostos a fazer, tornando-se indispensável; 8. procure um mentor ou guru, isto porque não é necessário "reinventar a roda"; 9. cultive a imagem do seu chefe; e 10. tenha uma atitude vencedora.

08.    ASSUMIRÁS O CONTROLE DA CARREIRA
         Onde Está o Meu Emprego ?
         (Roberto Shinyashiki)

         Cresça dia-a-dia, espelhe-se em profissionais bem sucedidos e desafie-se. Fique de olho em alguns pontos fundamentais: 1. procure conhecer o mundo empresarial fora da sua empresa: seus concorrentes vão lhe motivar a avançar; 2. estude sempre; 3. aprenda com as derrotas e comemore as suas vitórias; 4. abra sua cabeça: valorize as manifestações de teatro, cinema, música , literatura, pois a inspiração vem de sua riqueza interior e da experiência de vida; e 5. seja feliz, realize os seus sonhos, dê atenção à sua família, aos seus amigos, tenha atividades lúdicas e, principalmente, dê um tempo para você.

09.    TERÁS LIDERANÇA COM PRINCÍPIOS
         Mudanças e Escolhas
         (Stephen Covey)

         Na vida, há apenas três constantes: a mudança, os princípios e a opção, esta última equivalendo ao poder que temos de nos adaptar às outras duas constantes e a elas reagir. Com efeito, devemos buscar princípios imutáveis e atemporais, como a honestidade, a confiança, a justiça e o respeito, além de aprimorar nossas habilidades e competências, tais como: 1. liderança própria (ser consciente de que você é responsável sobre você mesmo); 2. possuir senso claro de objetivo, significado e rumo; 3. adaptabilidade (trabalhar com outras pessoas, para buscar situações em que sempre haverá ganho comum); 4. comunicação eficaz; 5. sinergia (possuir as habilidades necessárias para trabalhar em equipe); 6. respeito próprio; e 7. manutenção dos seis itens anteriores (habilidade para aperfeiçoar todos os hábitos, conservando-se aberto a novas oportunidades e à possibilidade de ser ensinado).

10.    TORNARÁS O TRABALHO GRATIFICANTE
         O Caminho dos Caminhos
         (Viviane Senna)

         Trabalhar não só para fins privados mas para fins coletivos e para o bem comum tem se constituído, cada vez mais, num dos campos mais promissores de realização humana, nessa nova etapa da história da civilização. Portanto, se quisermos fazer do século XXI o tempo para a construção de uma vida digna para todos, e do nosso país um lugar melhor para vivermos, trabalharmos e nos realizarmos como pessoas, cidadãos e profissionais, deveremos estar dispostos a aderir cada vez mais à prática da co-responsabilidade social.

J.A.R./H.C. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Natal e Final de Ano - Boas Festas Dez.12


Prezado(a)s Internautas,

Venho trazer-lhes esta mensagem de fim de ano, talvez muito mais uma profusão de sentimentos desencontrados do que escritos de sóbria razão, mas de todo modo uma formulação de intenções pela busca do equilíbrio e de emoções humanas sob controle.

Penso que, até naturalmente, o melhor das intenções humanas sempre expressa, de algum modo, uma faceta do que é belo, ainda que este, em muitos casos, se manifeste de uma forma intangível, como a própria busca da verdade.

E, por isso mesmo, imagino que não concorde tanto com Salomão, no Eclesiastes, quando reduz a ação humana a uma sucessão de vaidades: torna-se necessário que o belo se manifeste, para que o homem possa ter paz de espírito!

Por que não usufruir o belo que existe nas pessoas - e esse belo tanto pode se expressar fisicamente quanto, e sobretudo, espiritualmente quanto -, se mais difícil ainda é ter que fechar os olhos e o coração para interpor barreiras a uma interação humana saudável e equilibrada?

Se vemos o mal em outrem, por que será que somos incapazes de percebê-lo em nós mesmos? Trata-se do mesmo mal: o malfeitor materializa a ação que, em nosso íntimo, perpetramos apenas num plano mental. Mas, certamente, infratores somos todos nós!

Há de se empreender uma viagem essencial ao cerne de nossa própria existência, para descobrir-nos as motivações mais profundas, aquelas que, uma vez expressas em nossas palavras e ações, evidenciam ao próximo a forma como se dá a nossa experiência com a beleza:    

O que procuraste em ti
ou fora de teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo...

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola,
essa ciência sublime e formidável,
mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular
que nem concebes mais,
pois tão esquivo se revelou
ante a pesquisa ardente em que te consumiste...

vê, contempla, abre teu peito para agasalhá-lo.

(Em A Máquina do Mundo - Carlos Drummond de Andrade)

Mas a experiência da beleza também se estende por outras dimensões do humano, servindo até mesmo para caracterizar-nos a natureza, uma vez que o belo faz parte da representação das obras de arte - e, aqui, faço explícita referência ao teor de um livro de Harold Bloom, intitulado "Shakespeare: A Invenção do Humano", em que o renomado crítico norte-americano perpassa a história das emoções humanas, retratadas nos textos do não menos famoso bardo.

Se isso não fosse pouco como referência, reproduzo o entendimento de um dos mestres da antropologia moderna sobre o mesmo tema:

Vistas na escala de milênios, as paixões humanas não se confundem. O tempo nada acrescenta e nada retira dos amores e dos ódios vividos pelos homens, dos seus compromissos, suas lutas e esperanças; antes e hoje são sempre as mesmas. Suprimir ao acaso dez ou vinte séculos de história não afetaria de maneira sensível o nosso conhecimento da natureza humana. A única parte insubstituível seria a das obras de arte que esses séculos viram nascer. Pois os homens não se diferenciam - e nem mesmo chegam a existir -, a não ser pelas suas obras. Como a estátua de madeira dada à luz por uma árvore, somente as obras proporcionam a evidência de que, no decorrer do tempo, alguma coisa realmente se passou entre os homens.

(Em Minhas Palavras - Claude Lévi-Strauss)

Entretanto, julgo que num mundo de miséria que assola grande parcela da humanidade, falar em usufruto da beleza para essas pessoas é como incidir em uma afronta acintosa. Decisões políticas equivocadas, permeadas de prepotência e arrogância, levam-nos a um convívio desigual e à manutenção de estruturas que oprimem os nossos irmãos - e digo, mesmo aqui, que irmãos são todos os outros seres humanos, para que o nosso juízo compreenda a amplitude de um amor-fraternidade-universal!

Mas, ainda nesse caso, poderemos fazer valer o belo, redigido em boa pena, para melhor elucidar a dicotomia da carência/abundância, referência tão preliminar aos economistas:

(...) A bastança e a indigência dependem, pois, da idéia que dela temos. A riqueza, como a glória e a saúde, só atrai e causa prazer na medida em que empresta prazer e atração a quem a possui. Estamos bem ou mal neste mundo segundo que pensamos: contente está quem se acredita contente e não aquele que os outros imaginam contente. Nossa crença é que faz seja ou não seja real a nossa felicidade!.

(Em Ensaios - Montaigne)

Por fim, apreciaria roubar apenas mais uma referência ao nosso poeta, para trazer à mente a principal de todas as dimensões humanas, a do amor incondicional, a daquele sentimento de que todos precisamos para alcançar a reconciliação com as coisas do universo, vivas ou não, qualquer que seja o estágio de evolução em que se encontram no momento presente:

Este o nosso destino: amor ser conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

(Em Amar - Carlos Drummond de Andrade)

Um grande abraço do sempre amigo,

J.A.R. - H.C.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Israel e suas “Garras de Aço”

Como a delimitar com mais precisão o eufemismo empregado por George Steiner – o de que o Estado de Israel, para poder se estabelecer na modernidade, necessitou e necessita de impor-se com as suas “garras de aço” –, transcrevemos, a seguir, os ‘posts’ do recém-falecido Nobel de Literatura, o português José Saramago, a expressar indignação com as ações do referido Estado, claramente a obstruir, já vão lá seis décadas, os mais legítimos direitos dos palestinos em possuir um lugar digno para viver com dignidade e sem opressão.

As ações de Israel, para além de aéticas e carentes de normalidade jurídica – porque estão à margem do Direito Internacional, contando, para tanto, com o aval de alguns aliados ocidentais, notadamente os EUA –, são desproporcionais, deixando de convalidar os pressupostos de legítima defesa de seu território. Ademais, o poder sionista por trás de suas políticas, é permissivo quanto à ocupação de terras que pertencem à Cisjordânia, e nisso há, mais uma vez, autêntica conotação eufêmica para uma prática que, de fato, é invasiva e desrespeitadora dos direitos de terceiros.

É sob esse cenário de evidenciação de posturas ideológicas ocultadoras dos verdadeiros interesses, de comportamentos coniventes dos que detêm o poder em países ditos liberais e democráticos, do caráter antidemocrático da própria política interna do Estado de Israel – afinal, cidadãos ali somente são os judeus, estando à margem de direitos fundamentais aqueles que, também morando no espaço geográfico israelense, são como que estrangeiros, a configurar, perdoando-nos a largueza do escopo, democracia quase que à moda grega antiga –, é que nos dispomos a apresentar a indignação do ilustre escritor lusitano, entremeada com incursões contra alguns líderes cujos comportamentos lhe parecem éticos ou pouco alentadores. Que tais denúncias sirvam de argumentação mais do que suficiente em favor do estabelecimento, já, do Estado da Palestina.

Grifos nossos.

J.A.R./H.C.


George Bush, ou a idade da mentira (17.9.2008)

Pergunto-me como e por que os Estados Unidos, um país em tudo grande, tem tido, tantas vezes, tão pequenos presidentes. George Bush é talvez o mais pequeno de todos eles. Inteligência medíocre, ignorância abissal, expressão verbal confusa e permanentemente atraída pela irresistível tentação do puro disparate, este homem apresentou-se à humanidade com a pose grotesca de um cowboy que tivesse herdado o mundo e o confundisse com uma manada de gado. Não sabemos o que realmente pensa, não sabemos sequer se pensa (no sentido nobre da palavra), não sabemos se não será simplesmente um robô mal programado que constantemente confunde e troca as mensagens que leva gravadas dentro. Mas, honra lhe seja feita ao menos uma vez na vida, há no robô George Bush, presidente dos Estados Unidos, um programa que funciona à perfeição: o da mentira. Ele sabe que mente, sabe que nós sabemos que está a mentir, mas, pertencendo ao tipo comportamental de mentiroso compulsivo, continuará a mentir ainda que tenha diante dos olhos a mais nua das verdades, continuará a mentir mesmo depois de a verdade lhe ter rebentado na cara. Mentiu para fazer a guerra no Iraque como já havia mentido sobre o seu passado turbulento e equívoco, isto é, com a mesma desfaçatez. A mentira, em Bush, vem de muito longe, está-lhe no sangue. Como mentiroso emérito, é o corifeu de todos aqueles outros mentirosos que o rodearam, aplaudiram e serviram durante os últimos anos.

George Bush expulsou a verdade do mundo para, em seu lugar, fazer frutificar a idade da mentira. A sociedade humana atual está contaminada de mentira como da pior das contaminações morais, e ele é um dos principais responsáveis. A mentira circula impunemente por toda a parte, tornou-se já numa espécie de outra verdade. Quando há alguns anos um primeiro-ministro português, cujo nome por caridade omito aqui, afirmou que “a política é a arte de não dizer a verdade”, não podia imaginar que George Bush, tempos depois, transformaria a chocante afirmação numa travessura ingênua de político periférico sem consciência real do valor e do significado das palavras. Para Bush a política é, simplesmente, uma das alavancas do negócio, e talvez a melhor de todas, a mentira como arma, a mentira como guarda avançada dos tanques e dos canhões, a mentira sobre as ruínas, sobre os mortos, sobre as míseras e sempre frustradas esperanças da humanidade. Não é certo que o mundo seja hoje mais seguro, mas não duvidemos de que seria muito mais limpo sem a política imperial e colonial do presidente dos Estados Unidos, George Walker Bush, e de quantos, conscientes da fraude que cometiam, lhe abriram o caminho para a Casa Branca. A História lhes pedirá contas.

Inundação (19.11.2008)

Venho da Casa do Alentejo onde participei numa sessão de solidariedade com a luta do povo palestino pela sua plena soberania contra as arbitrariedades e os crimes de que Israel é responsável. Deixei lá uma sugestão: que a partir de 20 de Janeiro, data da tomada de posse de Barack Obama, a Casa Branca seja inundada de mensagens de apoio ao povo palestino e em que se exija uma rápida solução do conflito. Se Barack Obama quer libertar o seu país da infâmia do racismo, faça-o também em Israel. Desde há sessenta anos que o povo palestino vem sendo friamente martirizado com a cumplicidade tácita ou ativa da comunidade internacional. É tempo de acabar com isto.

O golpe final (16.12.2008)

O riso é imediato. Ver o presidente dos Estados Unidos a encolher-se atrás do microfone enquanto um sapato voa sobre a sua cabeça é um excelente exercício para os músculos da cara que comandam a gargalhada. Este homem, famoso pela sua abissal ignorância e pelos seus contínuos dislates linguísticos, fez-nos rir muitas vezes durante os últimos oito anos. Este homem, também famoso por outras razões menos atrativas, paranoico contumaz, deu-nos mil motivos para que o detestássemos, a ele e aos seus acólitos, cúmplices na falsidade e na intriga, mentes pervertidas que fizeram da política internacional uma farsa trágica e da simples dignidade o melhor alvo da irrisão absoluta. Em verdade, o mundo, apesar do desolador espetáculo que nos oferece todos os dias, não merecia um Bush. Tivemo-lo, sofremo-lo, a um ponto tal que a vitória de Barack Obama terá sido considerada por muita gente como uma espécie de justiça divina. Tardia como em geral a justiça o é, mas definitiva. Afinal, não era assim, faltava-nos o golpe final, faltavam-nos ainda aqueles sapatos que um jornalista da televisão iraquiana lançou à mentirosa e descarada fachada que tinha na sua frente e que podem ser entendidos de duas formas: ou que esses sapatos deveriam ter uns pés dentro e o alvo do golpe ser aquela parte arredondada do corpo onde as costas mudam de nome, ou então que Mutazem al Kaidi (fique o seu nome para a posteridade) terá encontrado a maneira mais contundente e eficaz de expressar o seu desprezo. Pelo ridículo. Um par de pontapés também não estaria mal, mas o ridículo é para sempre. Voto no ridículo.

Gaza (22.12.2008)

A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registradas como refugiados. Nem pão têm já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os caminhões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente atualizado.

Israel (31.12.2008)

Não é do melhor augúrio que o futuro presidente dos Estados Unidos venha repetindo uma e outra vez, sem lhe tremer a voz, que manterá com Israel a “relação especial” que liga os dois países, em particular o apoio incondicional que a Casa Branca tem dispensado à política repressiva (repressiva é dizer pouco) com que os governantes (e porque não também os governados?) israelitas não têm feito outra coisa senão martirizar por todos os modos e meios o povo palestino. Se a Barack Obama não lhe repugna tomar o seu chá com verdugos e criminosos de guerra, bom proveito lhe faça, mas não conte com a aprovação da gente honesta. Outros presidentes colegas seus o fizeram antes sem precisarem de outra justificação que a tal “relação especial” com a qual se deu cobertura a quantas ignomínias foram tramadas pelos dois países contra os direitos nacionais dos palestinos.

Ao longo da campanha eleitoral Barack Obama, fosse por vivência pessoal ou por estratégia política, soube dar de si mesmo a imagem de um pai extremoso. Isso me leva a sugerir-lhe que conte esta noite uma história às suas filhas antes de adormecerem, a história de um barco que transportava quatro toneladas de medicamentos para acudir à terrível situação sanitária da população de Gaza e que esse barco, Dignidade era o seu nome, foi destruído por um ataque de forças navais israelitas sob o pretexto de que não tinha autorização para atracar nas suas costas (julgava eu, afinal ignorante, que as costas de Gaza eram palestinas…). E não se surpreenda se uma das suas filhas, ou as duas em coro, lhe disserem: “Não te canses, papá, já sabemos o que é uma relação especial, chama-se cumplicidade no crime”.


Cadáveres de cinco irmãs palestinas de 4 a 17 anos mortas no bombardeamento noturno israelita a uma mesquita do campo de refugiados de Yabalia jazem na morgue de um hospital - Agência France Press - Publicada em “El País” - 27-12-2008

Sarkozy, o irresponsável (6.1.2009)

Nunca apreciei este cavalheiro e creio que a partir de hoje passarei a apreciá-lo ainda menos, se tal é possível. E não deveria ser assim, se, como a internet acaba de me informar, o dito sr. Sarkozy anda em missão de paz pelas torturadas terras da Palestina, esforço louvável que, à primeira vista, só deveria merecer elogios e votos do melhor sucesso. Da minha parte tê-los-ia todos se não tivesse utilizado, uma vez mais, a velha estratégia dos dois pesos e das duas medidas. Num arranco de hipocrisia política simplesmente notável, Sarkozy acusa o Hamas de haver cometido ações irresponsáveis e imperdoáveis lançando foguetes sobre o território de Israel. Não serei eu quem absolva Hamas de tais ações, aliás, segundo leio a cada passo, castigadas pela quase total ineficácia da bélica operação que pouco mais tem conseguido que danificar algumas casas e derrubar alguns muros. Nunca as palavras doam na língua ao sr. Sarkozy, há que denunciar a Hamas. Com uma condição, porém. Que as suas justamente repreensivas palavras tivessem sido igualmente aplicadas aos horrendos crimes de guerra que vêm sido cometidos pelo exército e pela aviação israelita, em proporções inimagináveis, contra a população civil da faixa de Gaza. Sobre esta vergonha o sr. Sarkozy parece não ter encontrado no seu Larousse as expressões adequadas. Pobre França.

Das pedras de David aos tanques de Golias (8.1.2009)

Este artigo foi publicado pela primeira vez há alguns anos. O seu pano de fundo é a segunda intifada palestina, em 2000. Atrevi-me a pensar que o texto não envelheceu demasiado e que a sua “ressurreição” está justificada pela criminosa ação de Israel contra a população de Gaza. Aí vai, portanto.

Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilônia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro, foram redigidos depois do exílio da Babilônia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redatores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.

Esta preocupação de exatidão temporal tem como único propósito oferecer à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno David e o gigante filisteu Golias, anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, enorme segundo todas as aparências, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo fato de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que, antes de ir enfrentar-se ao filisteu, apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de fato não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo do pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até a margem direita do rio Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.

Continuação (9.1.2009)

Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem ofender a ofuscante claridade dos fatos, que se tornou num novo Golias. David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo o que encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a “poética” mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestino para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sionismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada “certeza” de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores do passado e dos medos de hoje, todas as ações próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que sofreram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronômio: “Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago”. Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, direta ou indiretamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles é já um exercício de fato: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram trucidados nos pogroms, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos atos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o fato de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.

As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos terroristas suicidas… Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.

Com Gaza (11.1.2009)

As manifestações públicas não são estimadas pelo poder, que não raro as proíbe ou as reprime. Felizmente não é esse o caso de Espanha, onde se têm visto sair à rua algumas das maiores manifestações realizadas na Europa. Honra seja feita por isso aos habitantes de um país em que a solidariedade internacional nunca foi uma palavra vã e que certamente o expressará no ato multitudinário previsto para domingo em Madrid. O objeto imediato desta manifestação é a ação militar indiscriminada, criminosa e atentatória de todos os direitos humanos básicos, desenvolvida pelo governo de Israel contra a população de Gaza, sujeita a um bloqueio implacável, privada dos meios essenciais à vida, desde os alimentos à assistência médica. Objeto imediato, mas não único. Que cada manifestante tenha em mente que já levam sessenta anos sem interrupção a violência, a humilhação e o desprezo de que têm sido vítima os palestinos por parte dos israelitas. E que nas suas vozes, nas vozes da multidão que sem dúvida estará presente, irrompa a indignação pelo genocídio, lento mas sistemático, que Israel tem exercido sobre o martirizado povo palestino. E que essas vozes, ouvidas em toda a Europa, cheguem também à faixa de Gaza e a toda a Cisjordânia. Não esperam menos de nós os que nessas paragens sofrem cada dia e cada noite. Interminavelmente.

Imaginemos (12.1.2009)

Imaginemos que, nos anos trinta, quando os nazis iniciaram a sua caça aos judeus, o povo alemão teria descido à rua, em grandiosas manifestações que iriam ficar na História, para exigir ao seu governo o fim da perseguição e a promulgação de leis que protegessem todas e quaisquer minorias, fossem elas de judeus, de comunistas, de ciganos ou de homossexuais. Imaginemos que, apoiando essa digna e corajosa ação dos homens e mulheres do país de Goethe, os povos da Europa desfilariam pelas avenidas e praças das suas cidades e uniriam as suas vozes ao coro dos protestos levantados em Berlim, em Munique, em Colônia, em Frankfurt. Já sabemos que nada disto sucedeu nem poderia ter sucedido. Por indiferença, apatia, por cumplicidade tática ou manifesta com Hitler, o povo alemão, salvo qualquer raríssima exceção, não deu um passo, não fez um gesto, não disse uma palavra para salvar aqueles que iriam ser carne de campo de concentração e de forno crematório, e, no resto da Europa, por uma razão ou outra (por exemplo, os fascismos nascentes), uma assumida conivência com os carrascos nazis disciplinaria ou puniria qualquer veleidade de protesto.

Hoje é diferente. Temos liberdade de expressão, liberdade de manifestação e não sei quantas liberdades mais. Podemos sair à rua aos milhares ou aos milhões que a nossa segurança sempre estará assegurada pelas constituições que nos regem, podemos exigir o fim dos sofrimentos de Gaza ou a restituição ao povo palestino da sua soberania e a reparação dos danos morais e materiais sofridos ao longo de sessenta anos, sem piores consequências que os insultos e as provocações da propaganda israelita. As imaginadas manifestações dos anos trinta seriam reprimidas com violência, em algum caso com ferocidade, as nossas, quando muito, contarão com a indulgência dos meios de comunicação social e logo entrarão em ação os mecanismos do olvido. O nazismo alemão não daria um passo atrás e tudo seria igual ao que veio a ser e a História registrou. Por sua vez, o exército israelita, esse que o filósofo Yeshayahu Leibowitz, em 1982, acusou de ter uma mentalidade “judeonazi”, segue fielmente, cumprindo ordens dos seus sucessivos governos e comandos, as doutrinas genocidas daqueles que torturaram, gasearam e queimaram os seus antepassados. Pode mesmo dizer-se que em alguns aspectos os discípulos ultrapassaram os mestres. Quanto a nós, continuaremos a manifestar-nos.

A outra crise (16.1.2009)

Crise financeira, crise econômica, crise política, crise religiosa, crise ambiental, crise energética, se não as enumerei a todas, creio ter enunciado as principais. Faltou uma, principalíssima em minha opinião. Refiro-me à crise moral que arrasa o mundo e dela me permitirei dar alguns exemplos. Crise moral é a que está padecendo o governo israelita, doutra maneira não seria possível entender a crueldade do seu procedimento em Gaza, crise moral é a que vem infectando as mentes dos governantes ucranianos e russos condenando, sem remorsos, meio continente a morrer de frio, crise moral é a da União Europeia, incapaz de elaborar e pôr em ação uma política externa coerente e fiel a uns quantos princípios éticos básicos, crise moral é a que sofrem as pessoas que se aproveitaram dos benefícios corruptores de um capitalismo delinquente e agora se queixam de um desastre que deveriam ter previsto. São apenas alguns exemplos. Sei muito bem que falar de moral e moralidade nos tempos que correm é prestar-se à irrisão dos cínicos, dos oportunistas e dos simplesmente espertos. Mas o que disse está dito, certo de que estas palavras algum fundamento hão de ter. Meta cada um a mão na consciência e diga o que lá encontrou.

Israel e os seus derivados (22.1.2009)

O processo de extorsão violenta dos direitos básicos do povo palestino e do seu território por parte de Israel tem prosseguido imparável perante a cumplicidade ou a indiferença da mal chamada comunidade internacional. O escritor israelita David Grossmann, cujas críticas, em todo o caso sempre cautelosas, ao governo do seu país têm vindo a subir de tom, escreveu num artigo publicado há algum tempo que Israel não conhece a compaixão. Já o sabíamos. Com a Torah como pano de fundo, ganha pleno significado aquela terrível e inesquecível imagem de um militar judeu partindo à martelada os ossos da mão a um jovem palestino capturado na primeira intifada por atirar pedras aos tanques israelitas. Menos mal que não a cortou. Nada nem ninguém, nem sequer organizações internacionais que teriam essa obrigação, como é o caso da ONU, conseguiram, até hoje, travar as ações mais do que repressivas, criminosas, dos sucessivos governos de Israel e das suas forças armadas contra o povo palestino. Visto o que se passou em Gaza, não parece que a situação tenda a melhorar. Pelo contrário. Enfrentados à heróica resistência palestina, os governos israelitas modificaram certas estratégias iniciais suas, passando a considerar que todos os meios podem e devem ser utilizados, mesmo os mais cruéis, mesmo os mais arbitrários, desde os assassinatos seletivos aos bombardeamentos indiscriminados, para dobrar e humilhar a já lendária coragem do povo palestino, que todos os dias vai juntando parcelas à interminável soma dos seus mortos e todos os dias os ressuscita na pronta resposta dos que continuam vivos.

Adof Eichmann (5.1.2009)

No princípio da década de 60, quando trabalhava numa editorial de Lisboa, publiquei um livro com o título de Seis milhões de mortos em que era relatada a ação de Adolf Eichmann como principal executor da operação de extermínio de judeus (seis milhões foram) levada a cabo de modo sistemático, quase científico, nos campos de concentração nazis. Crítico como tenho sido sempre dos abusos e repressões exercidos por Israel sobre o povo palestino, o meu principal argumento dessa condenação foi e continua a ser de ordem moral: os inenarráveis sofrimentos infligidos aos judeus ao longo da História e, em particular, no quadro da chamada “solução final”, deveriam ser para os israelitas de hoje (dos últimos sessenta anos para maior exatidão) a melhor das razões para não imitarem na terra palestina os seus carrascos. Do que Israel necessita realmente é de uma revolução moral. Firme nesta convicção nunca neguei o Holocausto, somente me permiti estender essa noção aos vexames, às humilhações, às violências de todo o tipo a que o povo palestino tem estado submetido. É o meu direito e os fatos se têm encarregado de me dar razão.

Sou um escritor livre que se exprime tão livremente quanto a organização do mundo que temos lho permite. Não disponho de tanta informação sobre este assunto como aquela que está ao alcance do papa e da Igreja Católica em geral, o que conheço destas matérias desde o princípio dos anos 60 me basta. Parece-me, portanto, altamente reprovável o comportamento ambíguo do Vaticano em toda esta questão dos bispos de obediência Lefebvre, primeiro excomungados e agora limpos de pecado por decisão papal. Ratzinger nunca foi pessoa das minhas simpatias intelectuais. Vejo-o como alguém que se esforça por disfarçar e ocultar o que efetivamente pensa. Em membros da Igreja não é procedimento raro, mas a um papa até um ateu como eu tem o direito de exigir frontalidade, coerência e consciência crítica. E autocrítica.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Brasileirão 2012 - Projeções Depois da 30ª Rodada

Mais abaixo vão as projeções para o final do campeonato, finda já a 30ª rodada do Brasileirão 2012. Novos e antigos pontos podem ser levantados a partir da dimensão metafísica do Modelo Esotérico-Matemático (MEM), quais sejam:

a) o modelo “enlouqueceu” completamente e agora projeta o São Paulo como vice-campeão – se considerado o histórico dos jogos do segundo turno (onze partidas) ou o das últimas dez rodadas (o melhor, entre todos os quatro históricos empregados) –; e como campeão, se consideradas apenas as últimas cinco partidas (o menos aderente entre todos os históricos);

b) mais uma projeção polêmica, meio metafísica, meio especulativa: caso o Fluminense tivesse menos 7 (pontos) pontos – um total que equivale ao número de pontos que teria sido agraciado pela arbitragem contra Ponte Preta (3), Náutico (2) e Botafogo (2) –, o MEM projetaria o São Paulo como campeão, no histórico de dez rodadas;

c) tal como na anterior projeção (ao final da 28ª rodada), o Internacional permanece estático, na 6ª posição, qualquer que seja o histórico de partidas empregado;

d) idem, o Vasco da Gama na 5ª posição; e

e) lá no Z4, tudo muito uniforme, apenas em ordens distintas, a depender do histórico: Palmeiras, Sport, Figueirense e Atlético-GO a navegar pelas águas profundas da Segundona, no ano que vem.

Um abração a todo(a)s e até a próxima projeção, na segunda-feira seguinte (final da 32ª rodada).

J.A.R./H.C.