O sujeito lírico
reconhece-se como fruto de um chamado divino, dotado de uma vida que surgiu do
mais absoluto mistério, vida essa que lhe foi outorgada pelo Criador para além
do mero desejo humano de seus pais, numa expressão de todo o amor originário, diga-se
com ênfase, convolado pela palavra em um ser que, em sua peregrinação, tende a
regressar à fonte, para assim completar o ciclo que vai do oceano abissal ao
mar da eternidade.
Os pais humanos são
apresentados nestes versos como “imagens” do verdadeiro Pai, mas imagens “onde
o pó se aninha / como num velho espelho”, de onde se deduz certa dialética
entre o humano – imperfeito, poeirento, reflexo desgastado – e o divino – primigênio,
puro –, sem que se negue, é claro, o valor desse reflexo, mas apontando para além
dele, digo melhor, para o verdadeiro sentido da vida, concebida como um dom pelo
qual se deve ser infinitamente grato.
J.A.R. – H.C.
Armindo Trevisan
(n. 1933)
O mais comovido poema
é a Ti,
que me tiraste do nada,
como se tira uma pérola
do oceano sem fundo.
Que quiseram da vida meus pais?
Um filho.
Só Tu me quiseste, a mim,
e proferiste meu nome
entre as estrelas,
no segredo
da terra,
onde nenhum ouvido o podia apanhar,
onde Tua presença
era do tamanho de uma alvorada
– de uma noite
que se estende de um polo a outro polo.
Foi lá que o escutei pela primeira vez.
Semelhante a uma cotovia,
que o vento com suas carícias
faz estremecer.
Minha alma, criada por Ti,
uma palavra de Tua boca,
correu a abraçar-se
a um corpo cego,
seta
que um índio lança
ao espaço e torna a cair
a seus pés.
O mais comovido poema
é a Ti, Pai,
do Qual meus pais
são imagens
como num velho
espelho.
Ao expirar, meu sopro
irá para Ti.
Novamente,
escutarei meu nome,
não entre lágrimas e flores murchas,
mas ao som de trombetas.
Lerei, na pedrinha que me for entregue,
O novo nome que possuirei.
Com meus irmãos
cantarei para sempre
Tua bondade,
imerso no oceano sem fundo
donde tiraste minha pequenina pérola.
Em: “O Moinho de Deus”
(1985)
Ostra e Pérola
(Kim Hovell: pintora
norte-americana)
Referência:
TREVISAN, Armindo. O mais comovido poema. In: __________. Antologia poética. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto, 1986. p. 170-171.
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