sábado, 8 de agosto de 2026

Herberto Helder - Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

Helder aborda a morte como uma travessia consciente e transformadora, um ato de derradeira beleza por meio do qual o seu corpo e os seus sentidos se dissolvem, enquanto ele, ávido de um êxtase dionisíaco que já não se mostra factível, vai ao encontro de sua amada para com ela se fundir numa eternidade umbrosa e silente.

 

As imagens evocadas pelo poeta – em meio ao irreversível definhar do desejo, conducente a um desfecho de esterilidade –, descrevem um ritual terminal de purificação e de despedida, enquanto o falante encarrega-se de queimar o corpo da amada com os mesmos beijos do passado, entregando-lhe os sobrantes lenitivos do amor – uma ternura incinerante, corrosiva e primária, como o “azebre”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herberto Helder

(1930-2015)

 

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

 

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

da amada e meu sangue não se encantará.

Então rosa a rosa murcharão meus ombros

Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos

de distância, como se tudo fosse o cheiro

que as ervas pungentemente perdem

através do silêncio.

Plácido chegarei à mesa, e de súbito

meu coração se atravessará de gelo puro.

O vinho? perguntarei. Flores de sal cobrirão

a luz poderosa do meu olhar.

Tempo! tempo! Eu próprio perguntarei no recente

pasmo da minha carne: o vinho?

Rosa a rosa murcharão meus ombros.

 

Então lembrarei a vermelha resina, o espesso

murmúrio do sangue,

o acre e sobrenatural aroma das acácias.

Tentarei encontrar uma forma. Guitarras pensarão

a alegria noturna.

Com beijos antigos um momento ainda queimarei

o corpo solitário da amada, direi palavras

de uma ternura de azebre.

Uma lua partida penderá do meu sexo morto

e uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?

Rosa a rosa murcharão meus ombros.

 

(Em: “Graal”, nº 4)

 

Você e eu, entrelaçamo-nos como galhos

(Maevis Chamberlain: artista canadense)

 

Referência:

 

HELDER, Herberto. Uma noite acordarei junto ao corpo infindável. In: NEVES, João Alves das (Introdução, Seleção e Notas). Poetas portugueses modernos. Rio de Janeiro, GB: Civilização Brasileira, 1967. p. 381-382. (Coleção “Poesia Hoje” / Série “Antologias”; v. 12)

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