Helder aborda a morte
como uma travessia consciente e transformadora, um ato de derradeira beleza por
meio do qual o seu corpo e os seus sentidos se dissolvem, enquanto ele, ávido
de um êxtase dionisíaco que já não se mostra factível, vai ao encontro de sua
amada para com ela se fundir numa eternidade umbrosa e silente.
As imagens evocadas
pelo poeta – em meio ao irreversível definhar do desejo, conducente a um desfecho
de esterilidade –, descrevem um ritual terminal de purificação e de despedida, enquanto
o falante encarrega-se de queimar o corpo da amada com os mesmos beijos do
passado, entregando-lhe os sobrantes lenitivos do amor – uma ternura incinerante,
corrosiva e primária, como o “azebre”.
J.A.R. – H.C.
Herberto Helder
(1930-2015)
Uma noite acordarei junto ao corpo infindável
Uma noite acordarei
junto ao corpo infindável
da amada e meu sangue
não se encantará.
Então rosa a rosa
murcharão meus ombros
Quer dizer que a
sombra carregará meus sentidos
de distância, como se
tudo fosse o cheiro
que as ervas
pungentemente perdem
através do silêncio.
Plácido chegarei à
mesa, e de súbito
meu coração se
atravessará de gelo puro.
O vinho? perguntarei.
Flores de sal cobrirão
a luz poderosa do meu
olhar.
Tempo! tempo! Eu
próprio perguntarei no recente
pasmo da minha carne:
o vinho?
Rosa a rosa murcharão
meus ombros.
Então lembrarei a vermelha
resina, o espesso
murmúrio do sangue,
o acre e sobrenatural
aroma das acácias.
Tentarei encontrar
uma forma. Guitarras pensarão
a alegria noturna.
Com beijos antigos um
momento ainda queimarei
o corpo solitário da
amada, direi palavras
de uma ternura de azebre.
Uma lua partida
penderá do meu sexo morto
e uma vez mais me
perderei, dizendo: o vinho?
Rosa a rosa murcharão
meus ombros.
(Em: “Graal”, nº 4)
Você e eu,
entrelaçamo-nos como galhos
(Maevis Chamberlain:
artista canadense)
Referência:
HELDER, Herberto. Uma
noite acordarei junto ao corpo infindável. In: NEVES, João Alves das
(Introdução, Seleção e Notas). Poetas portugueses modernos. Rio de
Janeiro, GB: Civilização Brasileira, 1967. p. 381-382. (Coleção “Poesia Hoje” /
Série “Antologias”; v. 12)
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