sexta-feira, 3 de abril de 2026

Ursula K. Le Guin - Culto Matutino

Eis aqui mais um poema que aborda o tema da espiritualidade em conexão com a natureza: o ato de observar a luminosidade do entorno, suas cores, sons e silenciosa majestade pode ser tão significativo e gratificante quanto qualquer cerimônia religiosa tradicional, como se tais constituintes do meio ambiente se convertessem em elementos litúrgicos a nos convidarem para uma relação direta com o divino, trazendo novos matizes às nossas experiências com o sagrado.

 

A poetisa dá a entender, ademais, que a espiritualidade tem o poder de se domiciliar nos próprios interstícios entre o sonho e a consciência e, por extensão, na dualidade mesma da existência – na quietude e na ação, na contemplação e na mecânica do mundo, em sua delicadeza e força vital –, possibilitando-nos vislumbrar, sob o lastro de toda essa conjunção, inauditos conteúdos devocionais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ursula K. Le Guin

(1929-2018)

 

Morning Service

 

So still so sunny and so Sunday

is this early day,

what’s done needs to be silent:

a white butterfly

by the red fuses of the fuchsias.

 

The sounds are the sea

that only breaks its silence

meeting other elements,

and a hummingbird saying tek!

tek! as it attacks the fuchsias.

 

Nothing else says anything.

I am trying to be still.

This is the church I go to

to hear the hymns and prayers

and see the light.

 

In: “Sixty Odd” (1994-1999)

 

Borboleta junto às fúcsias

(Imagem sem créditos)

 

Culto Matutino

 

Tão tranquilo, tão ensolarado, tão domingo

é este dia ao alvorecer;

a criação precisa estar em silêncio:

uma borboleta branca

junto aos estames vermelhos das fúcsias.

 

Os sons são o do mar,

que rompe o seu silêncio apenas quando

vai de encontro a outros elementos,

e o de um beija-flor, ao emitir tek!

tek! enquanto investe contra as fúcsias.

 

Nada mais diz o que quer que seja.

Estou tentando ficar quieta.

Este é o templo que frequento

para escutar os seus hinos e preces

e contemplar a luz.

 

Em: “Sessenta e tantos” (1994-1999)

 

Referência:

 

LE GUIN, Ursula K. Morning servisse. In: __________. Sixty odd: poems (1994-1999). Boulder, CO: Shambhala, 1999. p. 17.

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