Eis aqui mais um
poema que aborda o tema da espiritualidade em conexão com a natureza: o ato de
observar a luminosidade do entorno, suas cores, sons e silenciosa majestade
pode ser tão significativo e gratificante quanto qualquer cerimônia religiosa
tradicional, como se tais constituintes do meio ambiente se convertessem em
elementos litúrgicos a nos convidarem para uma relação direta com o divino, trazendo
novos matizes às nossas experiências com o sagrado.
A poetisa dá a
entender, ademais, que a espiritualidade tem o poder de se domiciliar nos próprios
interstícios entre o sonho e a consciência e, por extensão, na dualidade mesma
da existência – na quietude e na ação, na contemplação e na mecânica do mundo, em
sua delicadeza e força vital –, possibilitando-nos vislumbrar, sob o lastro de
toda essa conjunção, inauditos conteúdos devocionais.
J.A.R. – H.C.
Ursula K. Le Guin
(1929-2018)
Morning Service
So still so sunny and
so Sunday
is this early day,
what’s done needs to
be silent:
a white butterfly
by the red fuses of
the fuchsias.
The sounds are the
sea
that only breaks its
silence
meeting other
elements,
and a hummingbird
saying tek!
tek! as it attacks
the fuchsias.
Nothing else says
anything.
I am trying to be
still.
This is the church I
go to
to hear the hymns and
prayers
and see the light.
In: “Sixty Odd”
(1994-1999)
Borboleta junto às
fúcsias
(Imagem sem créditos)
Culto Matutino
Tão tranquilo, tão ensolarado,
tão domingo
é este dia ao
alvorecer;
a criação precisa
estar em silêncio:
uma borboleta branca
junto aos estames
vermelhos das fúcsias.
Os sons são o do mar,
que rompe o seu silêncio
apenas quando
vai de encontro a
outros elementos,
e o de um beija-flor,
ao emitir tek!
tek! enquanto investe
contra as fúcsias.
Nada mais diz o que
quer que seja.
Estou tentando ficar
quieta.
Este é o templo que
frequento
para escutar os seus hinos
e preces
e contemplar a luz.
Em: “Sessenta e
tantos” (1994-1999)
Referência:
LE GUIN, Ursula K.
Morning servisse. In: __________. Sixty odd: poems (1994-1999). Boulder,
CO: Shambhala, 1999. p. 17.
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