terça-feira, 24 de março de 2026

Jorge Gomes Miranda - De um só trago

Somos seres em cuja estrutura coexistem, em precário equilíbrio, o amor e a dor, partes inseparáveis da condição humana: para fazer frente à solidão, que nos derrota de forma insidiosa, apostamos reiteradas vezes no amor, somente para que, fortuitamente, este se nos revele como mais uma ilusão vazia, exibindo, então, a sua natureza paradoxal – uma espécie de “chama que nos alenta”, mas que nos pode minguar as forças.

 

Beber essa dor “de um só trago”, com valentia e dignidade, ainda que em silêncio e em solidão, implica aceitá-la sem diluí-la nem prolongá-la desnecessariamente, assumindo-a individualmente, sem testemunhas ou consolo externo, com o que a alma vai aos poucos se tornando resiliente aos desenganos da vida, ou melhor, às cruciantes ironias perpetradas pelo amor.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Gomes Miranda

(n. 1965)

 

De um só trago

 

De todas as maneiras que a solidão

escolhe para nos derrotar

nenhuma tão lenta e cruel

como a que nos faz acreditar

de novo no amor, ao mesmo tempo

que nos retira as forças para injuriá-lo

quando as promessas se revelam vãs

e percebemos que a chama que nos alenta

é a mesma que nos extingue.

 

E de nada serve pelos restantes dias

mostrarmo-nos compassivos

de nós mesmos, com a certeza de que

em todas as praças há um corpo apedrejado,

em todas as casas uma janela opaca,

em todos os quartos uma boca sem voz,

em todas as palavras a lembrança de outras

mais amadas e que um dia nos pertencerão.

 

A dor deve ser bebida em silêncio

de um só trago, ao balcão de um bar,

depois de todos haverem já partido.

 

Homem num bar

(Fabián Pérez: artista argentino)

 

Referência:

 

MIRANDA, Jorge Gomes. De um só trago. In: __________. Este mundo, sem abrigo. Lisboa, PT: Relógio d’Água, nov. 2003. p. 44.

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